segunda-feira, 19 de março de 2018

Eureka nº 12 - 1979

Em 1979, no seu nº 12, a revista Eureka publicou o texto abaixo. De autoria do editor, Otacílio d"Assunção Barros (o Ota), é uma matéria muito completa e detalha exemplarmente como era o cenário das tiras de jornal no Brasil naquele período.

AS TIRAS DE JORNAIS NO BRASIL

Texto de Otacílio d'Assunção Barros

Quando os jornais norte-americanos, no final do século passado, descobriram os quadrinhos - e, com eles, um meio de aumentar a sua circulação - a onda se alastrou rapidamente. Alguns jornais chegavam até a roubar de­senhistas de outros, e logo começou a distribuição (syn­dication) da mesma tira simultaneamente para centenas de outros jornais em todo o território norte-americano. 

Pelezinho, de Maurício de Sousa.

A moda logo chegou ao Brasil, e os nossos jornais passa­ram a comprar tiras a um preço relativamente barato e publicá-las com exclusividade dentro da sua área de cir­culação. Muitos artistas nacionais tentaram fazer a mes­ma coisa. Mas, infelizmente, diversos fatores contribuí­ram para que a maioria das experiências fracassasse. Um dos poucos a se sair bem no ramo de tiras de iornais é Maurício de Sousa, que, com sua distribuidora, consegue espalhar seus personagens por centenas de jornais brasileiros. Na verdade, o esquema de Maurício não se limita apenas a tiras para jornais, mas, sim, a um enorme complexo de revistas, desenhos animados e merchandising, no qual as tiras servem apenas para popularizar seus personagens e aumentar as vendas dos produtos derivados de suas criações.

O Pato, de Ciça.

Depois das tiras de Maurício de Sousa, a de maior duração até agora é provavelmente O Pato, de Ciça, que con­ta com mais de 10 anos de publicação contínua na 'Folha de São Paulo' e, eventualmente, em outros jornais (inclu­sive no estrangeíro, onde o Pato é conhecido como Octa­ve, le Canard). Em seguida, temos Zeferino, de Henfil, lançado há alguns anos pelo 'Jornal do Brasil', do Rio, e publicado até hoje, embora tenha sofrido algumas paradas no decorrer desse tempo, devido a problemas de viagens e enfermidades do autor. Sem dúvida, Zeferino é a melhor tira diária brasileira e seu autor conseguiu manter um nível de qualidade surpreendente (exceção feita a uma tentativa de utilizar o personagem em pági­as dominicais, ainda em 1978, que não chegaram aos pés das tiras diárias).

Marly, de Milson.

Marly, de Milson Henriques, é publicada desde 1973 em jornais de Vitória, onde reside o autor, e conseguiu furar o bloqueio, espalhando-se por cerca de mais 15 veículos. Inclusive tornou-se conhecida nacionalmente através da extinta revista Patota. 

As Cobras, de Luís Fernando Veríssimo.

As Cobras, de Luís Fernando Ve­ríssimo, começaram sua carreira em um jornal gaúcho e agora são publicadas pelo 'Jornal do Brasil', que, além de Henfil e Veríssimo; abriu um espaço para o desenhis­ta Caulos, que usou o seu nome para título da série. Esses provavelmente são os autores mais conhecidos, em termos de tiras brasileiras. 

O Galinheiro, de Fábio Mestriner.

Há dezenas de outros que, entretanto, não conseguiram alcançar veículos de maior penetração e são conhecidos geralmente apenas pelos leitores locais dos jornais que os publicam. São, relativa­mente, jornais de pequena circulação, e nunca de âmbi­to nacional. Mas, mesmo assim, muitos profissionais so­brevivem às custas desses veículos, e aos trancos e bar­rancos vão conseguindo expandir o seu campo, seja por conta própria ou através de distribuidores. 

Gilda, de Daniel Azulay.

Na verdade, os grandes jornais não parecem dar muita atenção aos quadrinhos, ou pelos menos aos autores na­cionais. Com exceção do 'Jornal do Brasil', no Rio,que publica as três tiras já citadas contra quatro estran­geiras, e da 'Ultima Hora' do Rio, que, além de sete tiras estrangeiras, publica Gilda, de Daniel Azulay, os outros jornais cariocas parecem ignorar o assunto. Inclusive 'O Globo', que tem uma das maiores páginas de quadrinhos do país (18 tiras), não publica sequer uma nacional, a não ser a página dominical do Sítio do Picapau Amarelo em seu suplemento (ao lado de outras 19 estrangeiras), e mesmo assim devido ao convênio com a Rio Gráfica e Editora, que publica a revista homônima e, além de tudo, pertence também à Rede Globo, que leva ao ar o mesmo programa. 

Esquininha, no Notícias Populares.

Em São Paulo, o grupo das "Folhas" divide mais ou menos em partes iguais os quadrinhos nacionais e es­trangeiros por sua relativamente grande cadeia de jornais, sendo que a maior parte das tiras brasileiras per­tence a Maurício de Sousa, e no sanguinolento 'Notícias Populares', de São Paulo, todas as tiras são nacio­nais, muito embora várias delas sejam de qualidade dis­cutível, quase amadorísticas. Um dos mais importantes matutinos paulistas, 'O Estado de São Paulo', mantém há anos uma pequena seção de quadrinhos, todos estran­geiros e bastante desinteressantes. Já o 'Jornal da Tar­de', pertencente à mesma cadeia, conseguiu uma sele­ção melhor de histórias, mas por outro lado não publica quadrinhos brasileiros. 

Zeferino, de Henfil.

Nos outros Estados, a situação chega a ser pior. Muitos autores só conseguem publicar seus trabalhos pratica­mente de graça, ou recebendo o pagamento com atrasos consideráveis. Caso o autor não more na mesma cidade do jornal que publica sua tira e não esteja vinculado a uma distribuidora que disponha de meios mais eficien­tes de cobrança, é difícil que consiga obter outra recompensa que não a simples publicação de seus trabalhos. Isso ajuda bastante a desestimular autores em potencial de continuarem produzindo. Na verdade, se o pagamen­to do primeiro veículo que publicar a tira não lhe der con­dições de sobrevivência, é praticamente impossível que isso aconteça depois. Uma solução seria a redistribui­ção para outros jornais. Mas é difícil montar uma distribui­ção própria, e se o desenhista se filiar a alguma distribui­dora já existente, obviamente terá de pagar a esta a co­missão por esse serviço, que em alguns casos chega até a 60%. Como as tiras de jornais são vendidas a um preço relativamente baixo (isso porque muitos jornais não te­riam condições de pagar mais), o autor precisaria publi­car a mesma tira em pelo menos dez jornais ao mesmo tempo para conseguir sobreviver. 

Estevão Piro, de Moretti.

De qualquer forma, apesar de todas essas dificuldades - não só da concorrência com os estrangeiros como da maneira de encaixar as tiras nos jornais - muitos profis­sionais que têm os quadrinhos no sangue e sabem que jamais se dariam bem em outro tipo de trabalho conti­nuam a produzir incansavelmente suas tiras, e alguns até aprenderam a sobreviver disso. Quem sabe, muitos de­les conseguirão a glória máxima para os desenhistas de acabar seus dias numa prancheta.

O Veterinário, de Primaggio.

AS DISTRIBUIDORAS

Os syndicates brasileiros - ou seja, as distribuidoras de tiras - ajudam a divulgar a obra de vários autores. Mui­tos empreendimentos semelhantes já falharam, mas umas poucas sobrevivem, muito embora algumas delas não dependam só de quadrinhos. O Editor de algum jorn­ai que queira abrir uma página de quadrinhos e não tenha contato com os artistas locais poderá recorrer a al­gumas das empresas abaixo:

Caulos, no Jornal do Brasil.

MAURÍCIO DE SOUSA PRODUÇÕES 
Distribui exclusivamente as tiras do próprio Mauricio: 
Cebolinha, Bidu, Horácio, Pelezinho, Os Souza, Rapo­são, Boa Bola, Chico Bento, Tina e outras. Maurício de Sousa conseguiu a vitória de colocar seus personagens até no estrangeiro, e cada vez mais está expandindo seus tentáculos por todo o país. 

Bichim, de Nildão.

EDITORA CARNEIRO BASTOS (ECAB) 
Fundada com a finalidade de distribuir trabalhos de pro­fissionais brasileiros, a ECAB já conta em seu arsenal com Marly, de Milson, O Galinheiro, de Fábio Mestriner, Gilda, de Azulay, Bichim, de Nildão, Lúcio Flávio, de José Louzeiro e Orestes de Oliveira, Asdrubal, de Elvira Vigna, Stevão Piro, de Moretti, Sacarrolha e Veterinário, de Primaggio, Kim e Águia Branca, de José Menezes, Cubinho, de Mário Mastrotti e vários outros. Inclusive aceita propostas de novas tiras para distribuir.

Lúcio Flávio, de José Louzeiro e Orestes de Oliveira.

APLA 
Distribui com exclusividade os quadrinhos do King Fea­tures Syndicate, London Express, A.L.I. Press, Creaccio­nes Editoriales, Dargaud Presse etc. A Apla não se recusa a distribuir trabalhos de profissionais brasileiros, mas atualmente está parada nesse setor, após algumas expe­riências que não foram adiante.

Cubinho, de Mário Mastrotti.

DISTRIBUIDORA RECORD 
Distribui os sindicatos americanos Publishers-Hall Syn­dicate, Field Enterprises, Chicago Tribune - N.Y. News Sindicate, Editors Press Service etc. Também não está distribuindo nenhum quadrinho nacional.

UNITED PRESS INTERNATIONAL 
Além de agência de notícias, a UPI funciona também co­mo distribuidora de quadrinhos da United Feature Syndi­cate e da Newspaper Enterprise Association (NEA). 


quinta-feira, 15 de março de 2018

Teobaldo, o detetive - Diário da Noite - 1963


Sempre às voltas com a bandidagem, Teobal­do, o detetive, era muito engraçado e fre­quentemente deixava seu chefe, o delegado Sansão, em apuros.


Criado por Lyrio Aragão, estreou no Diário da Noite em 1963, distribuído pela Maurício de Sousa Produções (na época ainda chamada de Bidulândia). Como Lyrio Aragão havia sido policial, conseguia com maestria imbuir suas tiras com aquele espírito típico dos ambientes de delegacia.


Teobaldo teve revista própria pela editora Jo­taesse entre 1966 e 1967 com pelo menos 4 números editados, além de participações em várias revistas de piadas da mesma editora. 

Teobaldo no livro A Técnica do Desenho, de Jayme Cortez.

Quando da estreia da tira, o Diário da Noite publicou a seguinte matéria: 

"NOVO HERÓI DE HISTORIETA ESTREIA AMANHÃ - Lyrio Aragão Dias era um detetive da Polícia paulista que vivia a caricaturar os companheiros do Departamento de Investigações.

Com o tempo, lhe disseram que poderia fazer histórias em quadrinhos, com os tipos pitorescos que criava, nascendo então um personagem que, de certa forma, é uma "colcha de retalhos" da vida cotidiana da Polícia. Trata-se do “Teobaldo, o detetive" figura da historieta em quadrinhos que se apresentará no DIÁRIO DA NOITE, trazendo aos leitores o lado cômico da vida policial de nossa cidade.

LANÇAMENTO NA “BIDULÂNDlA"

A “Bidulândia Serviços de Imprensa", que já criou para os leitores do DIÁRIO DA NOITE os personagens “Hiro e Zé" e “Piteco” foi quem lançou Lyrio Aragão Dias no terreno das historietas cômicas para jornais. Antes fazia contos de terror para revista do gênero, mas suas historietas macabras tinham um cunho de humorismo, chegando a provocar reclamações por parte dos editores, motivo pelo qual resolveu aproveitar este qualidade de fazer humorismo criando o personagem que será apresentado, como o detetive "Teobaldo"".

A última tira do personagem, e algumas outras poucas antes dela, provavelmente por problemas de tempo de Lyrio Aragão, foram desenhadas, podemos reconhecer pelo traço, pelo próprio Maurício.

Sobre o autor, a Wikipedia tem uma boa fonte de informações:
 
"Lyrio Aragão Dias (9 de novembro de 1933 - 31 de dezembro de 1968) foi roteirista e desenhista de História em Quadrinhos policiais e de terror nas décadas de 1950 e 1960, em revistas das editoras Outubro, Jotaesse, Taika e D-Arte. 
Lyrio Aragão na Folhinha de S. Paulo em 1963.

Suas charges (as Piadas do Além) e histórias em quadrinhos foram publicadas em Terror Magazine, Mestres do Terror e Calafrio. Ativista pela valorização da produção nacional de quadrinhos, foi um dos fundadores da Associação dos Desenhistas de São Paulo (Adesp), no início dos anos 1960. Ocupou o cargo de secretário-geral na diretoria, presidida por Maurício de Sousa. Trabalhou depois nas agências de publicidade McCann-Erickson e Alcântara Machado".
Teobaldo na revista Bom Humor nº 27 da editora Jotaesse em 1968.

Acima, Lyrio Aragão na revista humorística O Governador (SP), 1951.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Oliveira, o trapalhão - Diário da Noite - 1942


Oliveira, o trapalhão, era o típico português de anedotas de salão, atrapalhado e confuso, e suas aventuras se passavam na cidade do Rio de Janeiro. Criado pelo famosíssimo cartunista Péricles (Péricles maranhão), o autor do não menos famoso Amigo da Onça, foi publicado em forma de tiras no Diário da Noite (RJ) entre 1942 e 1943. Aparentemente, as tiras serviam para alavancar as vendas da revista O Guri, onde o personagem aparecia em aventuras longas.


Segundo Ionaldo Cavalcanti, em seu livro O Mundo dos Quadrinhos (editora Símbolo - 1977): "OLIVEIRA, O TRAPALHÃO - Criação humorística de Péricles Maranhão, datada de 1943 (na verdade 1942), este personagem era publicado na revista O Guri, da Empresa Gráfica O Cruzeiro até 1946, quando Péricles o abandonaria depois de criar o famoso Amigo da Onça.


Oliveira, apesar de ser um bonachão bem carioca, acontecia nos lugares mais distantes, como na Arábia, vivendo como sultão".

Oliveira em O Guri.

Na Enciclopédia dos Quadrinhos (L&PM-2011), Goida e André Kleinert escreveram: 

"PÉRICLES - Brasil (1924-1961)

Péricles de Andrade Maranhão, o famoso criador de O amigo da onça, suicidou-se no último dia do ano de 1961. Escreveu cartas justificando o seu gesto, fechou todo o apartamento e asfixiou-se com gás de cozinha. Mesmo assim, não resistiu ao seu espírito de humor. Colocou na porta de entrada um aviso escrito à mão: "Não risquem fósforos". Originário de Recife, Péricles começou a desenhar na revista do Colégio Marista, onde estudava. Em 1942, no peito e na coragem, um rolo de desenhos e uma carta de apresentação do seu amigo e jornalista Anibal Fernandes (do Diário de Pernambuco), Péricles chegou ao Rio de Janeiro. Apresentou-se a Leão Gondim de Oliveira, diretor da revista O Cruzeiro (cujo poderio naquela época seria com­parável ao da Rede Globo nos dias de hoje) e se tomou um dos colaboradores mais moços daquela publicação. Começou trabalhando em quadrinhos num típico personagem carioca chamado Oliveira, o trapalhão. Oliveira era um português bigodudo, que tinha como companheiro de trapalhadas um negro com jeito e camisa listrada de malandro, Laurindo. Publicadas inicialmente pelo Diário da Noite, as histórias de Oliveira chegaram também a O Guri, revista infantojuvenil editada por O Cruzei­ro. 

Em 1943, já com um estilo bem desenvolvido, Péricles resolveu criar um personagem humorístico fixo para O Cruzeiro, cuja circulação semanal já era muito boa. A ideia partiu de uma anedota co­mum na época. "Dois caçadores conversavam num acampamento na floresta. - O que você faria se uma onça aparecesse na sua frente? - Ora, dava um tiro nela. - Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo? - Bem, então eu matava ela com meu facão. - E se você estivesse sem facão? - Apanhava um pedaço de pau. - E se não tivesse nenhum pedaço de pau? - Subiria na árvore mais próxima. - E se não tivesse nenhuma árvore? - Eu saía correndo. - E se você estivesse paralisado pelo medo? O outro, já irritado, retrucava. - Mas afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?" 


Oliveira em O Guri, 1943.

Marcado pelo estilo dos humoristas argentinos mais famosos da época - principalmente Divito e Lino Palácio, Péricles criou o seu "amigo da onça". Um cara baixinho, cínico, safado, que vivia aprontando poucas e boas com a cara mais deslavada deste mundo. O amigo da onça tomou-se a primeira página que todos liam em O Cruzeiro. Ajudou a aumentar, em muito, a popularidade e a circulação daquele semanário. Ganhou inclusive algumas histórias em quadrinhos também, embora Péricles nunca aproveitasse tudo que a fama do personagem permitia. Ele nunca utilizou a sua criação em produtos comerciais e outras manobras de merchandising, que realmente ajudam a enriquecer muitos quadrinistas. 

Apesar de humorista de mão cheia, na vida particular era um tipo meio solitário e ensimesmado, principalmente depois que se desquitou da mulher e perdeu o con­vívio com o filho. Acabou suicidando-se em 31 de dezembro de 1961. A sua criação, porém, resistiu. Carlos Estevão, o segundo maior nome de humor gráfico da revista O Cruzeiro, assumiu o personagem, até morrer em julho de 1972. Aí, ou­tros desenhistas tentaram uma nova continuidade, mas os tempos e a própria revista O Cruzeiro já eram bem outros. Ficou mesmo como imortal O amigo da onça de Péricles".


Oliveira em A Cigarra, março, 1945.

* Agradecimentos ao amigo Quim Thrussel pela dica da tira.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Super-Honda - Revista Honda Clube - 1983


Pepê, magro, fraco e franzino, é a identidade secreta do super-herói Super-Honda. Apaixonado pela bela Margareth, que pouco lhe dá bola, ele resolve problemas e mistérios montado em sua possante motocicleta. 

Criado pelo quadrinhista Sebastião Seabra em 1983 para a revista Honda Clube da editora R. Leme, era publicado em aventuras coloridas de duas páginas. 

Além do autor, as histórias tiveram a colaboração de Josmar Fevereiro e Franco de Rosa nos desenhos e Paulo Paiva nos roteiros. Antenados com os assuntos de sua época os autores colocavam várias referências artísticas e musicais em seus quadrinhos.

Sobre a série, Seabra nos conta: "Foi convite dum estúdio... Não lembro o nome. O tal de "Dinho" (Ronaldo Leme), dos Mutantes, era um dos donos, junto com o irmão, aquele cara que fala na Globo no programa de esportes... Corrida... Como é mesmo o nome dele? Trabalha junto do Galvão Bueno... (Reginaldo Leme).

Enfim, eles queriam duas páginas coloridas dum super-herói...

Como a publicação era sobre motos e era uma revista da Honda (muita grana) - pagavam 800 paus por lauda de texto na época. Uma fortuna até nos dias de hoje!

Bom, como era pra Honda, foi automático eu criar o "Super-Honda"...

Fiz o texto (com humor, como de costume), foi tudo aprovado, mas na época não me senti seguro para arte-finalizar... Minha arte-final era muito ruim. Daí convidei meu amigo, o talentoso Josmar Fevereiro.

Nos reunimos num final de semana num estúdio que ele mantinha em Pinheiros e ela arte-finalizou e de quebra coloriu pra mim... Foi publicado, junto com algumas ilustrações que fiz para a revista, que era bimestral.

No número seguinte eu tava mal... Morrendo. Fui parar no Hospital das Clínicas. Passei por cirurgia e pedi pro pessoal fazer as duas páginas pra mim. Creio que o Franco esboçou, mas não lembro se foi ele ou o Josmar quem arte-finalizou e coloriu... Poxa, não lembro de mais nada...

No terceiro número da revista eu já havia casado e voltado pra minha cidade... Fiz as duas páginas sozinho e levei em mãos. Só que chegando lá, soube que a crise afetou o orçamento da revista e a edição seria em preto e branco! E, numa conversa truncada, não entendi direito se minhas duas páginas iriam ser publicadas ou pagas, essas coisas que passamos quando somos garotos. Deixei os originais lá, dei de ombros e voltei pra casa.

Fim da fracassada aventura do "Super-Honda". Como tudo, nesse país!".

Sobre os autores, a Enciclopédia dos Quadrinhos (Goida / André Kleinert - L&PM - 2011) nos esclarece:

SEABRA, S. R. - Brasil (1959) 
Com apenas dezesseis anos, Seabra já desenhava em Notícias Populares, de São Paulo, as tiras diárias de Capitão Caatinga (roteiros de Franco de Rosa). Trabalhou para a EBAL (Klik, revista de humor e Zorro Capa e Espada) até firmar-se na Grafipar. No final da década de 70, colaborou em revistas de terror, aventuras e policiais, sempre com ligação ao sexo. Nessa época, utilizou, em muitas histórias, o curioso pseudônimo de Sebastião Zéfiro. Quando a Grafipar encerrou suas atividades, passou para a Press Editorial e a D-Arte (ambas de São Paulo). Nessa última, co­laborou para Mestres do Terror e Calafrio. Para a Nova Sampa, criou um álbum completo, Não nego fogo (coleção "Graphic Sex"), uma narrativa de­tetivesca, povoada de mulheres bonitas e eróticas. Teve alguns trabalhos publicados em Mundo do Terror (Maciota), Mephisto e Bokaloka. Em 2003, pela Opera Graphica, saiu o seu álbum de histórias curtas, Na trilha do prazer. Na série "Literatura Brasileira em Quadrinhos", já fez O homem que sabia javanês (2005), de Lima Barreto; Brás, Be­xiga e Barra Funda (2006), de Alcântara Machado; e Memórias póstumas de Brás Cubas (2008), de Machado de Assis, todos publicados pela Escala Educacional. 

JOSMAR - Brasil (1950) 
Josmar Fevereiro começou sua carreira de quadri­nista com um ótimo mestre. Ele foi assistente do já desaparecido Nico Rosso e trabalhou igualmente no estúdio de criação Octopus. De sólida formação artística - Josmar é escultor -, passou a assinar seus trabalhos na época do boom dos quadrinhos nacionais (1979/1982). Fez cen­tenas de páginas de terror e sexo para a Grafipar e para a Vecchi (na revista Pesadelo). Também colaborou com a Inter Quadrinhos (1984). No início da década de 90, Josmar esteve em Portugal, onde criou para o Jornal da Casa do Brasil de Lisboa a tira de Juca Brasuca, personagem que representava a figura do migrante brasileiro em terras lusitanas. Ainda em Portugal, foi responsá­vel pelas histórias de Xana - uma mulher activa, para uma publicação feminina. Entre 1999 e 2001, já de volta ao Brasil, fez tiras para a revista Vip (Abril). Mais recentemente, vem colaborando com a editora Escala/Larousse na coleção "Literatura Brasileira em Quadrinhos", sendo que escreveu e ilustrou as adaptações de O homem que sabia javanês (Lima Barreto), A cartomante (Machado de Assis), Miss Edith e seu tio (Lima Barreto) e Brás, bexiga e barra funda (Antônio Alcântara Machado). 

Sobre Franco de Rosa clique aqui.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Urubulino e Gugu - O Jornal - 1969


Tira de aventuras policiais com traço infanto-juvenil, Urubulino e Gugu, criados pelo desenhisto Olney Duarte, contava as histórias de um urubu e um porco, sempre metidos em desvendar crimes.

No traço de Olney podemos notar influências de Joselito, desenhista brasileiro especializados em animais antropomorfizados, Paul Murry, em Mickey, e até mesmo do cartunista Carlos Estevão, contemporâneo do autor em O Jornal.

Segundo o site Quadrinhos Brazukas, de Rômulo Rangel, a tira foi produzida entre 1969 e 1972.

A artista também criou a tira Zeca e Zico, além de produzir charges e ilustrações para esse mesmo veículo.

Ilustração de Olney para a crônica policial de O Jornal, 1970.

Olney, jornalista, carioca, viveu no bairro de Laranjeiras. Começou muito jovem vencendo um concurso de desenhos da Caixa Econômica Federal. Faleceu em 25 de junho de 2018.
Urubulino chegou a ter uma revista própria em 1968, em formato cheque, pela editora Fase.

Urubulino na revista Sesinho, 1960.
 
 



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Gilda - Jornal do Brasil - 1977

Gilda no Última Hora em 1979.

Uma das integrantes da Turma do Lambe-Lambe, a vaca Gilda, criação de Daniel Azulay, teve uma tira própria publicada no Jornal do Brasil em 1977 e posteriormente no Última Hora (RJ) em 1979. A tira foi também distribuída pela ECAB (Editora Carneiro Bastos) para veículos de todo o país nesse período.

Gilda era uma garota independente que desempenhava as mais variadas profissões, mas também tinha seus dilemas existenciais e lidava com uma paixão não correspondida, por parte dela, com o elefante Bufunfa.
 
 
Gilda em 1977 no Jornal do Brasil.

Daniel Azulay, atualmente, dedica-se à arte educação, com uma rede de escolas de desenho. 

Por meio de seu site ficamos sabendo: "Daniel Azulay por definição, é desenhista e educador. Mas também é pintor, músico, escritor, ilustrador de livros infantis e bacharel em Direito por formação. Acima de tudo, um artista completando quarenta anos dedicados a desenvolver a arte e educação para crianças e jovens.

De todas suas criações, sem dúvida a que faz mais sucesso entre a criançada é a Turma do Lambe-Lambe. Criada em 1975 - ficou no ar durante quinze anos consecutivos em duas redes de televisão, Bandeirantes e Educativa.

Em 1996 retornou à Band-Rio por mais quatro anos apresentando seu programa de TV “Oficina de Desenho Daniel Azulay”. Em 2003, 2004 e 2005 apresentou a “Turma do Lambe-Lambe” na TV Rá-Tim-Bum da TVCultura e “Azuela do Azulay” no Canal Futura.

Durante mais de uma década, Daniel Azulay influenciou a geração dos Anos 80 como pioneiro, ensinando muita gente pela TV a fazer brinquedos de sucata, esculturas de bexiga “Bolamania”, a brincar e desenhar usando a imaginação com jogos de raciocínio".

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Os Lunáticos - Revista Garotas e Piadas - 1971

Ainda sob forte impacto do Projeto Apolo, o desenhista Liesenfeld criou para a revista Garotas e Piadas, da editora Edrel, a aventura Os Lunáticos. 

Misturando sátira e erotismo, como era comum nas publicações dessa editora, com a conquista espacial, a aventura apresenta o traço psicodélico próprio do artista e foi uma das raras HQs coloridas impressas pela Edrel.

Sobre o autor, Fernando Ikoma escreveu: "Oriundo do Rio Grande da Sul, é um dos poucos desenhistas "pop" das estórias em quadrinhos. Seus trabalhos são maís artísticos e menos comerciais mas consegue agradar aos que gostam desse estilo".

Segundo o Guia dos Quadrinhos: "Liesenfeld (Marco Araújo Liesenfeld, 29 de abril de 1946) é um nome conhecido entre os verdadeiros fãs de HQs, pois ele tem trabalhos publicados desde 1965. Natural de Poro Alegre (RS), foi um dos destaques da editora Edrel. Trabalhava em publicidade na época em que colaborou na revista “Estórias Adultas”. Adorador do nu feminino e também de temas sobre automobilismo, tem um traço inconfundível".

Liesenfeld colaborou também nas revistas da editora Grafipar no final dos anos 1970.
Liesenfeld no livro A Técnica Universal das Histórias em Quadrinhos, de Fernando Ikoma, editora Edrel.
Premiado no 1º Salão de Humor e Quadrinhos do Mackenzie, em 1973.