sexta-feira, 24 de maio de 2024

Fala, menino! - 1996

Fala, menino! Série que mostra uma turma de garotos e trata principalmente de crianças com necessidades especiais. Criada em 1996 pelo cartunista baiano Luís Augusto Gouveia (1971-2018) foi publicada em jornais e reunida em livro (Amarilys Editora, 2010). Entre seus personagens, há crianças mudas, cadeirantes etc.

Nosso heróis são: Lucas, um garoto mudo; Rafael, que é cego, Mirela é surda, Mateus é autista, Esmolinha e Diogo são crianças de rua; Carolina é hiperativa e faladeira; Caio é cadeirante e enfrenta as dificuldades da falta de acessibilidade  etc, mas com um traçado característico, Luís Augusto abordava tudo em seus trabalhos: separação de pais, homossexualidade, racismo, pobreza, religiões, deficiências físicas, tudo com rara sensibilidade e alegria.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Preta do Leite - 1972

Apesar do nome pra lá de racista, a Preta do Leite pouco tinha a ver com questões raciais. A personagem fazia parte de um grupo de mascotes de time usados para ilustrar a página de esportes do jornalista Carlos Soh e foram desenvolvidos pela cartunista Antônio Carlos Nicoliélo em 1972 no jornal Diário da Noite (SP) a partir de dezembro de 1972. Preta do Leite representava o Corinthians.

O termo era um jargão popular para pessoas tagarelas e provavelmente se originou das antigas amas de leite, mulheres negras que amamentavam os filhos das ricas senhoras brancas.

Junto da Preta do Leite apareciam outras mascotes para os times paulistas como o Lord Pipoca do São Paulo, o Comendador Macarroni do Palmeiras e o Caranguejo do Santos e embora não falasse tanto assim os comentários da personagem eram sempre críticos e certeiros.

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Sobre o autor, o jornal Espalha Fato, dos funcionários do banco Bamerindus, publicou em outubro de 1989: "Antônio Carlos Nicoliélo nasceu em Nova Europa, São Paulo, em 11 de fevereiro de 1948 (faleceu em 27 de junho de 2022). Começou suas atividades profissionais em Bauru, onde estudou Direito.

Em 1970 foi para São Paulo e atuou como chargista nos jornais Diário de São Paulo e Diário da Noite, até 1975. Foi chargista, ilustrador e capista da revista Visão, o mesmo tempo em que publicava na revista Status, Viaje Bem (VASP), Aerojet, Fairplay, Senhor (3ª fase), Círculo do Livro e revistas empresariais. No exterior, publicou na revista alemã Pardon e  em antologias de caricatura no Canadá, Grécia, Alemanha e Bulgária, sendo que neste país foi premiado. Em 1985, foi escolhido como um dos mais importantes chargistas do mundo.

Atualmente dá assessoria a agências de publicidade na área de criação e direção de arte, e eventualmente ministra palestras sobre a História Universal da Caricatura em várias universidades. Publicou O livro “Ali D'El Rey” e vem lançando, anualmente, um livro-agenda de humor. Além de chargista político da  Folha da Tarde, hoje Nicoliélo também é contratado do Cartoonists & Writers Syndicate de Nova lorque, que distribui seus cartuns e charges políticas internacionais para 150 jornais do mundo inteiro".

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Xuxinha e Guto - 2007

Em 1995 o desenhista e produtor argentino Isaac Huna (1960), ou Isaac Hunt, morando no Brasil desde 1987, soube que a apresentadora Xuxa Meneghel e a Marlene Mattos (produtora e empresária de Xuxa) tinham o objetivo de criar um canal infantil. Achou a ideia interessante e pensou em criar a Turma da Xuxinha, enviou a proposta para elas, que foi aprovada. 

Depois do primeiro contato com Marlene, não demorou muito para Isaac ser contratado para desenvolver a Xuxinha. O desenho contava a história da anjinha Xuxinha, inspirada em Xuxa, que se transformava em uma menina para viver ao lado da apresentadora e seus amigos. A ideia era que o personagem ganhasse vida própria e fosse independente da Xuxa. A a animação durou do fim dos anos 1990 até o início dos anos 2000 e teve mascotes e vários produtos lançados, além livros e uma revista em quadrinhos em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil: As Aventuras da Turma da Xuxinha pela Gráfica e Editora Burti, ano 2000, com pelo menos seis números lançados, com roteiros de Dejair da Mata, desenhos de J. Isaac Huna e arte-final de Edde Wagner, José Wilson Magalhães, Omar Viñole, Cleber Salles, Daniel de Souza Maitto, Marcos Rouman e ligados à linha de papéis higiênicos Baruel. 

Ao todo, Isaac trabalhou por cinco anos com a Xuxa Produções.

Isaac Huna (Hunt) na revista V.V. nº 03, editora Clefor, 1990.

Em 2007 a personagem voltou com o visual levemente modificado em livros de passatempos, merchandising em produtos de higiene da linha Baruel e sua própria série de tiras batizada com Xuxinha e Guto e publicada no Diário de S. Paulo.

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Maria da Graça Xuxa Meneghel (1963) já vinha de uma carreira vitoriosa como modelo quando recebeu o convite para apresenta o Clube da Criança em 1983, aos vinte anos, convidada pelo diretor Maurício Sherman, na extinta Rede Manchete. Em junho de 1986 estreava o Xou da Xuxa, na TV Globo, um programa diário com o seu nome e que foi exibido por 6,5 anos de segunda a sábado nas manhãs da emissora, transformando a então modelo num fenômeno de mídia, com dezenas de discos lançados e produtos dos mais variados ramos, todos com sua imagem.


Acima, Revista da Xuxa nº 34, editora Globo, 1991.

Em dezembro de 1988 Xuxa ganha revista em quadrinhos própria pela editora Globo, que sobrevive até 1993 com 69 números e 8 almanaques. Os desenhos inicialmente eram de Gustavo Machado e a arte-final de Henrique Farias mas boa parte das edições ficaram a cargo do AW Arte e Studio, no qual colaboravam Sergio Raul Morettini, Cosme José da Silva e Eduardo Vetillo.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Velta - 1973

Criada por Emir Ribeiro para os quadros de um jornal de parede do Colégio Estadual de Jaguaribe, João Pessoa (PB) em 1973 e alavancada para as páginas dos jornais paraibanos A União e O Norte em 1975, Velta é uma das maiores representantes do gênero super-heróis no Brasil.

Katia Maria Farias Lins, em uma viagem com colegas de escola, salva a vida de um ser extraterreno que em agradecimento confere a ela o poder de se transformar em uma gigantesca loura apta a emitir raios elétricos por qualquer parte de seu corpo. Surge Velta!

Emir é um batalhador incansável em prol de seus trabalhos e do quadrinho nacional, continua sua luta até os dias de hoje e procura ocupar todos os espaços que encontra, promovendo seus personagens e revista independentes, comerciais, fanzines, livros e qualquer que o permita. Velta teve título próprio na coleção Graphic Talents nº 12 da editora Escala em 2003. A heroína protagonizou inclusive em 2015 uma aventura onde encontra o veterano super-herói brasileiro Raio Negro, criado por Gedeone Malagola.

Em 1988, Velta fez parte também da iniciativa Contra Ataque, com a história Tentativa de Fuga. Foi uma ação de curta duração capitaneada pelo cartunista e fotógrafo potiguar Adrovando Claro de Oliveira, que visava distribuir tiras de artistas nordestinos para jornais de todo país. Dessa empreitada participaram, além de Emir e do próprio Adrovando, os quadrinhistas Laércio Cavalcante, Carlos Alberto e Marcos Garcia.

Toda essa epopeia e contada na reportagem/entrevista produzida pela editora Press em meados da década de 1980 e reproduzida a seguir:

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Meu nome completo é Emir Lima Ribeiro. Sou filho de um advogado e professor de história (se bem que o velho não gosta da profissão) e minha mãe só trabalha mesmo em casa. Sou casado com uma farmacêutica que nunca conseguiu um emprego mesmo após cinco anos de formada. Temos dois filhos: Emir II e Deivid, que nasceu em fevereiro de 1987. Acho que não sou um mau sujeito apesar da cara de pedra e sinceridade extremas. Gosto de honestidade (até certo ponto) e pontualidade. Não gosto de gente que não cumpre o que diz, de formalidades e de fumaça de cigarros.

Minhas atividades quadrinhísticas começaram muito cedo! Tudo por influência dos recém-lançados heróis Marvel na TV. Algum tempo depois saiam suas revistas pela Ebal. E foi depois delas, aos oito anos, que fiz minha primeira HQ: “THOR contra SOLAR, O HOMEM ÁTOMO (personagem da Gold Key lançado pela Ebal em 1966).

Meu personagem próprio só viria em 1969: era o Sabido, na linha de humor. Sabido sairia mais tarde em tiras de jornais e nas revistas que editei.

1972: estava numa fase de apreciar pinturas a óleo. Pintava sobre cartões. Um dia, deu-me na telha “inventar” umas super-heroínas. No fim do ano fiz uma morena de uniforme verde que alongava braços e pernas - era a fêmea do Homem-Borracha - a Garota de Borracha. 

No começo de 1973 pintei uma lourona sobre uma motocicleta vermelha. Seus cabelos eram enormes e suas roupas um tanto avançadas pura a época: uma tanga azul presa a um cinto vermelho, um espécie de bustiê negro semiaberto (folgado para suas formas) e botas marrons. Dei a ela o nome de Welta.

No início do ano letivo de 1973, surgiu entre professores do meu colégio, a ideia de criar um jornal mural, como atividade extraclasse para os alunos. Depois de muitas discussões sobre o assunto, acabei sendo escolhido editor. "O Comunicador' foi o nome escolhido por votação em todo o Colégio Estadual de Jaguaribe. Foi nesse jornal que lancei Welta em páginas coloridas a lápis, uma vez por semana. O pessoal gostou e foram saindo mais histórias. E com elas as modificações decorrentes da evolução natural : as botas da loura passaram de marrons para vermelhas, a fim de combinar com o cinto; sua tanga passa de azul para verde (pois vi que as cores estavam quase iguais às da bandeira dos Estados Unidos). Seus poderes, antes indefinidos foram se fixando na capacidade de emitir disparos de energia. Welta tinha uma identidade secreta: nome que por sinal eu evitava usar , pois "identidade secreta" lembrava sempre os heróis norte-americanos. Quando não era uma loura de 2,20 m de altura, a heroína era uma morena chamada Kate Feels (um nome brasileiro me era bem estranho para uma heroína na época). O pai de Kate era un sujeito retrógrado e de ideias antiquadas, quase sempre atrapalhando suas ações como Welta. Ele não sabia do segredo da filha. Não sabia que num acampamento com a turma do colégio, numa zona verde perto da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte - MG, Kate salvara a vida de um extraterreno, que em gratidão, a expôs aos raios de uma máquina que amplificava a força mental de uma pessoa a níveis inimagináveis por segundos. Durante estes segundos, tudo que a pessoa pensasse se realizaria. Kate quis ser uma heroína.


Acima, Velta em O Pirralho nº 138, ano III, A União, 1979.

1975: dois anos depois de criada, Welta tinha duas simultâneas chances de publicação em dois jornais locais de circulação estadual. Em "A União", Tônho, responsável pela produção diária de tiras com seu vampiro humorístico "O Conde", se afastava temporariamente. Barreto Neto, o Diretor Técnico do jornal e apaixonado por quadrinhos, o substituiu por Welta numa série de 30 tiras, na histórias "A Ameaça Noturna". A série iniciou-se numa sexta-feira, em 1º de agosto de 1975. Enquanto isso, "O Norte" publicava, em seu suplemento dominical, coordenado pelo veterano Deodato Borges, através da sessão "Mande seu desenho", Welta na HQ "Sem Energia" - era o dia 03 de agosto de 1975. Mas havia uma diferença: em "A União", eu era pago pelo trabalho, conseguindo até, posteriormente fixar o ganho em um salário mínimo mensal.

Em 1976 saia minha segunda história em "O Norte": "Surge a Nova", lançando uma nova heroína. Nova, uma androide com cérebro e coração humanos quis tirar o “lugar” de Welta como maior das heroínas brasileiras. Nova era produto do gênio de um cientista polonês, que usara os órgãos de uma moça condenada pelo câncer para ativar um corpo androide que ele construíra.

"Surge a Nova" foi o encerramento de minhas colaborações em "O Norte”, uma vez que, ao exigir pagamento pelas próximas produções à diretoria do jornal, tive o pedido negado.

E no mesmo ano, "A União" lançava seu suplemento de quadrinhos "O Pirralho", e Welta passava a ter páginas dominicais coloridas, além das tiras diárias, onde se alternava com NOVA (que iniciou a série de tiras em 7 de setembro de 1976), o indígena ITABIRA (que estreara em 1975, após a primeira série de tiras de Welta) e O DESCONHECIDO (que era lançado no suplemento numa HQ conjunta com a loura). Itabira era um indígena, chefe da nação Tabajara, criado em 1975, em parceria com meu pai, Emilson Ribeiro. Foi a partir dele que idealizamos A HISTÓRIA DA PARAÍBA EM QUADRINHOS, visto que se tratava de um personagem que vivia na época do Brasil Colônia. O mais incomum, no entanto, foi o lançamento de uma personagem de terror nas tiras do jornal: era MICHELLE, A VAMPIRA, que estreou em 1º de novembro de 1977. E o mais incrível é que Michelle aparecia quase sempre nua e praticando inclusive sexo insinuado com algumas de suas vítimas - tudo isso em um jornal do estado e numa época de repressão a tudo.

Em 1978, mesmo continuando no jornal, lancei minha primeira revista, em parceria com meu irmão Mirson - era a 10-ABAFO, com predominância de humor. 

Welta aparecia como convidada especial na história "Tentativa de fuga". Outro fato incrível foi a revista ter sido impressa grátis, na gráfica da Universidade Federal da Paraíba, por determinação do então diretor, Francisco Pontes, outro  fanático por quadrinhos. Os números seguintes, até o 5 contaram com a ajuda de Pontes, em diminuição gradativa, enquanto a revista se firmava. No nº 2, o nome 10-ABAFO (pequeno) apresentava Welta (grande), contando sua origem e a do indígena Itabira. Só no nº 6, a edição de 1º aniversário, a revista passou a se chamar 'WELTA" e passa a ser inteiramente dela.

Publicada em jornais e revistas, Welta foi amadurecendo cada vez mais, e já no nº 2, com capa colorida, apresentava uma novidade: Kate passava a ser um apelido carinhoso de Katia Maria Farias Lins. Era o início do abrasileiramento progressivo da da personagem. O nº 4 da revista (dezembro de 1979) já diminuiu muito o uso do apelido, Kátia era bem mais usado, até que por fim, tornou-se único.

O fato mais desestimulante foi ocorrido por ocasião do lançamento da WELTA nº 6 (edição de 1º aniversário). Até então eu conseguira distribuir as anteriores tanto no estado de Pernambuco como no do Rio Grande do Norte através de destes estados com os pacotes com os exemplares. Quando fui distribuir a nº 6, a Distribuidora de Pernambuco se recusou a receber as revistas. Em Natal, a distribuidora foi comprada por outra do Rio e teve ordens de só trabalhar com publicações de grandes editoras. Foi uma dupla “quebrada de cara". Fiquei só com a Paraíba, que mesmo assim, tinha no chefe da distribuidora local uma figura não muito simpática. Eu acabaria vendendo minhas edições exclusivamente pelo correio para interessados no gênero.

Em janeiro de 1980 sai o último nº do suplemento "O Pirralho", deixando inacabada a história "Feliz Natal, se conseguir viver...". Era uma nova diretoria que chegava ao "União" que extinguiu também as tiras diárias e dispensou todos os desenhistas da área sob alegação de contenção de despesas, sem falar que "quadrinhos não vendem jornais".

No mês seguinte, o jornal "O Correio da Paraíba", também de circulação estadual, lançava seu suplemento "O Guri", tendo a frente da iniciativa a figura de Deodato Borges. Recomeçava a história de Welta interrompida em "O Pirralho". Infelizmente, o suplemento só durou seis números, deixando a HQ inacabada novamente. Esta só saiu completa na revista gaúcha HISTORIETA, de Oscar Kern. Na ocasião em que saiu em HISTORIETA, Welta já iniciara sua escalada a nível nacional, tendo saído em inúmeros fanzines, revistas alternativas e informativos, sob a forma de histórias, contos, capas, portfólios e artigos.  Até hoje, quase todo fanzine que surge publica algo sobre ela.

Nesse meio tempo eu tentava a sorte nas grandes editoras. Enviei trabalhos para praticamente todas elas. Da maioria nunca tive nem resposta, e quando tinha, era a costumeira "não publicamos material nacional". 

Em 1983, a loura completou dez anos de criação. E, com muito sacrifício, consigo editar um álbum em formatão com 52 páginas. Nele é apresentada a verdadeira origem de Welta: o extraterreno que a transformou volta para pedir sua ajuda contra a invasão de seu planeta por vizinhos humanoides de mais de dois metros de altura. Viajando ate lá na espaçonave do ser, Welta descobre ter sido usada por este como cobaia para testar a perigosa máquina que ampliava a força mental, e se transformara na enorme loura, forçada hipnoticamente pelo ser. Pois seu tipo físico ficara igual ao das mulheres do planeta invasor. Ou seja, além de cobaia de experiência, o ser a queria usar como espiã e arma de guerra. Ela se irrita e castiga o extraterreno, e, no final da aventura, passa a refletir sobre tudo o que aconteceu. Outra história do álbum mostra o que teria acontecido se Katia tivesse se transformado numa preta e não numa loura. Aí tem início uma nova série com MYRA, uma Welta de uma realidade alternativa, apresentada como uma mulher brasileiríssima. Era mais uma fase de abrasileiramento.

Tudo continua no suplemento "Leve Metal" da revista "Presença Literária", publicada pela Secretaria de Educaçao da Paraíba. O nº 3, de outubro/novembro/dezembro de 1984, continua do ponto onde parou a edição "Dez anos de Welta", onde Katia resolve abolir seu símbolo parecido com a letra "W", do qual tirara seu nome (uma vez que tal símbolo pertencia ao governo do planeta do ser que a usou). Na história, ela apresenta um novo logotipo e anuncia que seu nome a partir de então será escrito como foi pronunciado - ou seja - VELTA . O assunto principal do roteiro gira em torno de uma crítica ao Sistema Financeiro de Habitação da época, continuando uma linha iniciada na revista "Gran Circus", também patrocinada pela SEC, através da Oficina Literária. A HQ em questão, "Fome", mostra a loura ajudando um ladrão numa história humana e reflexiva, bastante elogiada pela critica. "Leve Metal" nº 4 continua a saga de MYRA (a Velta preta da realidade alternativa), em outra história de cunho critico e humano intitulada "Pau de Arara". Era minha intenção continuar intercalando Velta e Myra na "Leve Metal", no entanto a revista principal foi cancelada por problemas políticos (uma constante no estado da Paraíba).

1985: era o ano do 400º aniversário da Paraíba, e eu fui apresentar o projeto da HISTÓRIA DA PARAÍBA EM QUADRINHOS à Comissão Organizadora das Comemorações do evento. Surpreendentemente, fico sabendo que outra pessoa havia sido contratada para projeto idêntico. Constrangedoramente, descubro tratar-se de uma, dupla de velhos "amigos" meus, que, como tais, já sabiam da existência do trabalho desenvolvido por mim e meu pai, mas mesmo assim trocaram a amizade por alguns milhões de cruzeiros. Nosso trabalho foi publicado no jornal "O NORTE" no dia 05 de agosto, parcialmente.

Em 1985, começo a trabalhar para a PRESS EDITORIAL e estreio na revista COISAS ERÓTICAS nº 4, com minha personagem "Fátima, a Mutante", uma transmorfa, filha de uma extraterrena com um assaltante. A recepção do público leitor é excelente e Franco Rosa, o editor, me pede mais personagens, usando neles, além do roteiro, doses de sexo explícito e temas fortes. Fátima foi criada originalmente em 1981 e iria ser submetida à Grafipar, a editora paranaense que explodira no mundo dos quadrinhos só publicando material nacional. Antes de Fátima chegar lá, a editora faliu. Ela ficou, então engavetada. 

Também pela PRESS, "ressuscito" Michelle, a Vampira, que estreou na revista VAMPIRO nº 5. As histórias publicadas em tiras no jornal "A União" são reformuladas e redesenhadas. Em agosto de 1986 volto a publicar independentemente: lanço o MINIZINE, um fanzine em tamanho 1/4 de folha ofício, cuja série foi começada em 1983 (quando a loura ainda usava O nome com "W"). Na ocasião eu havia conseguido fotolitar seis números da série e aguardava condições para a impressão, que só muito tempo depois surgiram. O seriado continua do ponto onde termina a história da revista HQ, de Deodato Filho - onde seu personagem O NINJA foi lançado numa história conjunta com a heroína loura. O Minizine apresenta uma saga da luta entre a heroína e VERA, A CAMALEOA, que é meia-irmã de Fátima, a mutante, também transmorfa.

E finalmente Velta sai nas bancas de todo Brasil pela Press Editorial. Infelizmente na linha erótica. Há alguns anos eu havia produzido, a título de experiência, duas HQs eróticas com a lourona, e as distribui entre amigos. Franco de Rosa, o editor da Press, as viu e me pediu para refazer uma delas, que saiu no especial "SACANAGENS COM VELTA - AS HISTÓRIAS SECRETAS". Não era, na verdade, o que eu pretendia para ela. Pois Velta foi concebida para a linha de ação e aventura, e era assim que eu gostaria de mantê-la.

Para um futuro breve, vou produzir uma série com a androide Nova, que deverá estrear na revista "ANDROIDE", pela Press, sob editoria de Ofeliano de Almeida. A continuar assim, é provável que outros e outras personagens de minha autoria sejam relançados(as), desta feita em revistas de circulação nacional. Para atualizar as séries, é possível que muitos conceitos e fatos constantes nos roteiros originalmente publicados em jornais, fanzines e revistas alternativas, venham a ser alterados, também para não confundir os novos leitores. Os antigos, entretanto, sabem de toda esta odisseia...

A notícia mais recente a respeito da Velta foi o comentário elogioso feito na revista INCRÍVEL HULK nº 39, da Editora Abril, ao responder uma carta minha. Velta já consegue então, despertar a atenção das grandes editoras. O que não era sem tempo, pois há centenas de fãs dela espalhados por todo o país. Muitos destes me escrevem se dizendo até perdidamente apaixonados por ela. Alegro-me muito ao saber como minha personagem consegue despertar tais emoções nos leitores. É gratificante vê-la tratada como uma pessoa que EXISTE. Faz sentir que minha criação é uma pessoa viva.

Até o fechamento desta matéria, na Bahia, começa a funcionar o "CLUBE DA VELTA", idealizado pelo fanzineiro Gonçalo Silva Jr., que terá um fanzine oficial, com a lourona como tema principal. Gonçalo irá arregimentar associados que receberão até carteirinhas de sócio, com direito a revistas e tudo o mais. A ideia visa divulgar a HQ nacional e captar leitores novos, ainda com a visão restrita para os quadrinhos importados dos Estados Unidos.


Acima, Velta em 10-Abafo nº 01.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Garibaldo - 1980

Enquanto cumpre seus afazeres na limpeza pública, Garibaldo, um gari, comenta de forma irônica os problemas sociais do brasil e do mundo. 

Publicado na revista Maria nº 07, de Henrique Magalhães, editora Marca de Fantasia, setembro de 1980, é uma criação de Marcos Nicolau.

Acima, quadrinhos de Marcos Nicolau, na sequência: As Cobras, em O Norte (1975) e Borges, o rato de biblioteca, na revista de cultura LER, editada de 1991 a 1995.

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Sobre o autor, o editor e cartunista Henrique Magalhães escreveu: Marcos Nicolau é professor do Curso de Comunicação Social da UFPB, autor de livros de ficção, dissertação e ensaios sobre criatividade. Foi coordenador da Gibiteca Henfil - fundada por Henrique Magalhães e seu atual coordenador -, oportunidade em que ministrou cursos de quadrinhos. Seus trabalhos recentes na área  foram as publicações das tirinhas do personagem Borges, o rato de biblioteca, na Revista de Cultura LER (1991/95), da qual foi um dos editores. Atuou na imprensa e no rádio paraibano de 1975 a 1990. Sobre sua atividade no gênero quadrinhos, é o seu primeiro mestre, Deodato Borges, quem relata suas origens, em artigo publicado no jornal Correio da Paraíba, nos anos 1980:

“Em 1975, chefiando o Departamento de Arte de O Norte, embora já contasse com os serviços profissionais de Richard Muniz, eu sentia necessidade de ampliar o setor de produção artística a fim de atender ao inesperado crescimento do jornal na área de publicidade. Muito verde ainda, nos seus 17 anos, Marcos Nicolau apareceu, candidatando-se ao emprego, trazendo apenas como referências, a força do seu desenho e o seu comportamento exemplar. Em bem pouco tempo ele já dominava com perfeição o desenho publicitário e divulgava, no suplemento infanto-juvenil (O Norte Em Quadrinhos), alguns dos seus personagens, como As Cobras, tira que alcançou um grande sucesso.

Em 1976, classificou-se em 5º lugar no Concurso Nacional de Humor, realizado na Paraíba, passando, a partir de 1978, a estudar o cangaço no Nordeste, especializando-se no assunto e publicando várias Histórias em Quadrinhos no gênero, algumas delas, inclusive, em parceria com Emir Ribeiro e Deodato Filho. No período 1979/1980, Marcos lá estava, no Correio da Paraíba, divulgando as suas charges. Trabalhou ainda nos jornais O Momento e O Furo - este, uma espécie de Pasquim paraibano que teve curta existência”.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Maria - 1975

Maria surge em 9 de julho de 1975 por criação do cartunista e professor universitário paraibano, na época ainda estudante de arquitetura, Henrique Magalhães, sendo publicada diariamente ou em suplementos nos jornais de João Pessoa (PB) e região. Nesse período a obra é basicamente uma sátira de costumes, com piadas a respeito da busca por um marido de nossa personagem solteirona. Com o tempo o humor torna-se mais crítico, questionando passagens políticas e a própria situação do quadrinho nacional perante a invasão do material estrangeiro nas bancas.

Em 1984, Maria, que "vinha progressivamente transgredindo os limites da habitual crítica político-social que fazia nos quadrinhos diários", dá a sua grande virada. No álbum "A maior das subversões", a personagem assume sua paixão pela amiga Pombinha e passa a tratar das causas de gênero. Desde então, sempre com humor e delicadeza, Maria torna-se uma espécie de porta-voz das causas LGBTQIA+.

Maria teve várias revistas e álbuns editados, na maioria das vezes pela editora de Magalhães, a Marca de Fantasia.

Para saber mais sobre Maria clique aqui.

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Sobre o autorHenrique Paiva de Magalhães (João Pessoa, 17 de agosto de 1957) é professor da Universidade Federal da Paraíba, doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII, desenhista, editor e pesquisador de história em quadrinhos brasileiro. Nascido em João Pessoa, Paraíba, em 17 de agosto de 1957, Henrique é o primeiro de seis filhos de Ulrico José de Magalhães e de Maria Darcy Paiva de Magalhães.

Em 1975, criou a personagem de quadrinhos Maria, que tinha caráter político e contestador. Também começou a desenvolver diversos fanzines. Em 1983, formou-se em 

Comunicação Social na Universidade Federal da Paraíba, entre 1985 e 1988, publicou o fanzine Marca de Fantasia, ainda na década de 1980, coordenou o suplemento "Leve Metal" da revista "Presença Literária", com trabalhos de quadrinista paraibanos, em 1990, criou a Gibiteca Henfil, como parte do projeto de extensão do Departamento de Comunicação da UFPB, no mesmo ano apresentou a tese de mestrado Os fanzines de histórias em quadrinhos: o espaço crítico dos quadrinhos brasileiros na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 1993, parte da tese foi publicada no livro O que é fanzine, parte da coleção Primeiros Passos. Em 1995, fundou a editora Marca de Fantasia com a intenção de publicar quadrinhos e livros teóricos sobre o tema. 

Em 1996, apresentou a tese de doutorado Bande Dessinée: rénovation culturelle et presse alternative na Universidade Paris VII, na França.

Em 2010, ganhou o Prêmio Ângelo Agostini na categoria "Mestre do quadrinho nacional".

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Joseph Abourbih (editora Noblet) - Entrevista - 1992

Entrevista realizada em 03/09/1992 pelo jornalista Worney Almeida de Souza (WAZ) com Joseph Abourbih, então dono da editora Noblet. 

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WAZ - Seu Joseph, eu queria que o senhor me falasse como é que começou a editora? 

Joseph Abourbih - A editora eu comecei para lançar livros para livraria. Então fiz dois ou três, mas a venda era muito difícil, muito complicada, por isso passei direitinho para a história em quadrinhos. 

WAZ - Você começou com aquele livro, era o Conde de Monte Cristo, né? Pequenininho assim? Era um pocket, né? 

Joseph Abourbih - Não, não. Era grande. Era um livro para livraria. Só que eu fiz isso e sofri tanto que eu percebi que nesse negócio precisa cerca de 50 mil títulos para que a livraria te pegue. Me dá um desse, dois desse, três desse... Era preciso fazer um múltiplo de despesa para vender dois ou três livros de vez em quando para cada livraria. É um ramo muito difícil, em princípio. 

WAZ - Em que ano foi isso, Joseph? 

Joseph Abourbih - 1972... 72? Não, 68, 1968, sim! Bom, depois, como eu estava na França e conhecia gente da produtora do Akim, eles me deram o direito de publicar isso. Eu publiquei, só que eu parei agora (em 1991) porque não vendia mais, não sei porquê. Não vendia mais. Eu vendia muito pouco, não justifica. E depois bolamos um atrás do outro. Hoje estou com 12 publicações. 6 ou 7 livros infantis. E... 6 semanais agora, 2 edições, a primeira, depois a segunda, quer dizer o lançamento e depois o relançamento a partir do número 1. O caso da publicação não é difícil, mas é um problema que depende de muito trabalho, muito trabalhoso, muito demais trabalhoso. 

WAZ - Eu lembro que em 1974, me lembro que o senhor trabalhava com o Paulo Hamasaki!

Joseph Abourbih - Ah, todos eles. Paulo Hamasaki, Gilberto Firmino (falecido em abril de 2024), Tony Fernandes, Wanderley Felipe. Todos eles aprenderam aqui, mas... Eles saíram lá, trabalhando, eu estou muito satisfeito por eles. Muito satisfeito por eles.

WAZ - É que ele me mostrou no começo de 1975, o senhor publicava aquele Espoleta, né? 

Joseph Abourbih - O Espoleta, é!

WAZ - Mas era colorido, né? Como era isso?

Joseph Abourbih - Sabe, é triste, o problema é que você vai na cegueira, você vai lá, entra, faz uma publicação. Tira 30 mil, 40 mil, uns 5 mil ou mais. Você, quando você sabe que ela vai, precisa chegar no número 4. Para que a gente feche o número 1, precisa de 4 meses. Até, então, 3, 4 publicações que custam uma nota cada uma para viver ou morrer. Então, o problema é que a gente faça de um jeito diferente. 

WAZ - E qual que é a média de tiragem que o senhor tem atualmente? 

Joseph Abourbih - Bom, agora entre 20 e 35 mil. 

WAZ - O senhor já teve tiragens maiores? 

Joseph Abourbih - Sabe, o negócio de tiragem é muito relativo. A tiragem de uma revista depende de quanto você quer gastar. Vou te contar como eu entrei na editora Abril, que eles quando começaram pra vender as próprias revistas, não acertavam nem bem distribuir as revistas deles. Fizeram o primeiro e até agora são eles. Eles souberam que eu tinha esse famoso Akim, e fui lá nessa temporada, trabalhava com a Chinaglia, e me pedia de cada vez que lançava, me pediam 22 mil, o senhor me manda 20, o senhor me manda 18, o senhor me manda 12, o senhor me manda 16, o senhor me manda 14 mil, aqui vemos o modelo. Então fui na editora Abril, na distribuidora Abril, e conversei com eles. Ah, senhor Joseph, nós estamos interessados em lançar sua revista. É verdade, é verdade. Só que nós precisamos de 60 mil exemplares. Eu falei para eles, vocês querem mandar à falência direitinho. Porque de 15 mil, você quer 60? Ah! Não se preocupa, senhor Joseph. Faça 60 mil. Minha gráfica que é onde eu imprimo não tem condição de fazer 60 mil exemplares. E eu em parte não tive medo, e de fato fiz 60 mil, o mesmo número venderam 38 mil, só dos 60 mil, só que estava em... no meu escritório, a editora, ela me encontrou lá, um escritório igual a esse. Então, me entusiasmei, 38 mil exemplares, nesse tempo lá, anos 1970, muito, muito, muito dinheiro e muito interessante também. E daí começamos!

WAZ - Mas que época foi isso? 

Joseph Abourbih - Em que saiu? Quanto tempo? Mais ou menos, assim... 1975... Entende? E de fato, eles me imprimiram 60 mil, eles mesmos fizeram a revisão, imprimiram 60 mil exemplares e conseguiram me vender 38 mil, o que era, nesta temporada, um sucesso enorme. E de lá, larguei a Chinaglia. Deve ser em 1972... Até agora só com a editora, a distribuidora Dinap.

WAZ - O senhor tem os títulos infantis, assim, de atividade infantil. 

Joseph Abourbih - Tem cinco!

WAZ - Tem eles há muitos anos, né? 

Joseph Abourbih - Certo.

WAZ - Então eles têm uma... a numeração deles é bem antiga, assim. 

Joseph Abourbih - É antiga, sim. 

WAZ - Então, o senhor acha que tem... o pessoal gosta muito do material assim? 

Joseph Abourbih - Sabe como é? No total, a gente tem lá o mais importante. Bom, eu faço cinco tipos diferentes de publicações. E o infantil tem mais saída em geral, mas só que eu faço várias coisas. Tem Prezinho, tem Para Colorir, tem Luz e Cores, tem Magia das Cores, tem Festinha. Jardim da Infância, seis ou sete desse tipo de revista a gente lança mensalmente e então a gente se mantém, não sei se dá lucro ou prejuízo, mas não fica milionário com isso. 

WAZ - E o senhor começou... primeiro o senhor falou que trabalhava só com livros, né? 

Joseph Abourbih - Comecei com livros, livros para livraria. 

WAZ - E depois com quadrinhos, qual foi a primeira revista em quadrinhos? 

Joseph Abourbih - Foi Akim (1971). 

WAZ - O Akim mesmo? 

Joseph Abourbih - Akim, aliás, ele parou também na França. Os franceses pararam. Eu tinha a condição de continuar ainda por algum tempo, mais 12 ou 14 meses, mas eu julguei mais fácil. Pararam, pararam. Não adianta começar e depois ver se vende ou não.

WAZ - O senhor lançou algumas revistas assim bem interessantes, tipo a Vampirella, o senhor lançou. Como é que era aquele tempo? 

Joseph Abourbih - Nessa temporada, comprei os direitos da América do Norte, era a temporada desse tipo de material, se vendia mais ou menos bem. Tentei, acho o número 2, o 3, o 4, e depois parei porque não dá. Tem outra também, não me lembro o nome, tipo crime, tudo isso que chamavam lá. Tipo jornal, a metade do tamanho. 

WAZ - Ah, eu me lembro. Mas aquele era... é, isso eu me lembro. Era vermelho e preto, né?

Joseph Abourbih - Vermelho e preto.

WAZ - É, me lembro. 

Joseph Abourbih - Essa lá. Não me lembro nem bem o nome (Policia Magazine). 

WAZ - Esse material todo era produção externa, assim? Quer dizer, o pessoal... Os estúdios produziam e vendiam pro senhor? Porque o Paulo Hamasaki, por exemplo, ele trabalhou muitos anos aqui, né? 

Joseph Abourbih - Ele aprendeu aqui. Paulo Hamasaki, que eu gosto muito dele, é um rapaz sério, trabalhador. E... aprendeu aqui mesmo. Agora ele está lá, pertinho. Não sei se você sabe onde é. 

WAZ - É, tem uma editora, ele montou a editora dele, né? 

Joseph Abourbih - Montou a editora dele, certamente. 

WAZ - E o Sexyman, como é que começou?

Joseph Abourbih - Sexyman é uma revista que eu tirei da França. Comecei brincando e continuou. 

WAZ - Na França o tamanho original é esse mesmo?

Joseph Abourbih - É!

WAZ - E lá pelo número 24 começou o material nacional, né? 

Joseph Abourbih - Fiz alguma coisa de material nacional porque eles pararam. E agora tem material nacional. Tem material nacional e compro alguns direitos italianos.

WAZ - Mas 90% é nacional, né?

Joseph Abourbih - 90 não diria, mas 70%, de vez em quando é italiano!

WAZ - E essa ideia de fazer segunda edição, os leitores pedem assim? 

Joseph Abourbih - Pedem um pouquinho e depois quando a revista está lá, ao invés de aumentar a tiragem, prefiro fazer duas, para começar a partir do número um. 

WAZ - O pessoal é receptivo assim? Porque também tem colecionador, né? O pessoal coleciona. 

Joseph Abourbih - Sim, perde uma e encontra.

WAZ - E o material de contos? 

Joseph Abourbih - Esse material é produzido nacional. Recebemos algumas coisas do francês também, da França. 

WAZ - E quem que faz? Tem algum? 

Joseph Abourbih - Tem, cinco ou seis contistas fazem na sua casa.

WAZ - Dá para o senhor falar assim alguns? Os mais frequentes assim?

Joseph Abourbih - Tem Caio Concílio, Júlio Gomes, Paulo Monsalva, Luiz Antonio Aguiar, Júlio Emílio Braz. Esses lá. 

WAZ - O senhor encomenda... O senhor encomenda os contos, o pessoal produz... 

Joseph Abourbih - Sim.

WAZ - E aí o senhor faz a diagramação e a montagem das revistas aqui mesmo? 

Joseph Abourbih - Tudo isso é...

WAZ - E esse... o senhor lançou faz, eu acho, há uns 4 anos, né? O sistema de assinaturas, né? Como é que é? Do Sexyman, do Akim, o senhor tinha assinatura. 

Joseph Abourbih - Certo, certo. 

WAZ - E como é que é? Foi boa ideia? É bom pra divulgação? 

Joseph Abourbih - Sabe, eu vou te confessar uma coisa certa. Porque a gente, eu pessoalmente... Eu pessoalmente tenho 12 publicações e as 12 publicações tem uma que dá num mês, outra que não dá outro mês. E a luta é assim que é, para chegar nisso. 

WAZ - Mas o senhor acha que o sistema de assinatura assim é interessante?

Joseph Abourbih - Eu não sei, eu não sei. Eles pagam, digamos, pela assinatura toda 25 mil cruzeiros. Eu calculo que o selo custa 200 cruzeiros. E você paga no décimo mês 2500 cruzeiros, o preço da revista com os selos. Você envia todas essas revistas com um número só que a gente manda. 

WAZ - Interessante. E a gráfica? Você tem a gráfica desde quando começou a editora ou a gráfica é anterior? 

Joseph Abourbih - Eu sofria muito com as gráficas. Então a gente fazia OK. Mandava, dava, fazia tudo pela gráfica. Depois percebi que onde eles têm muito problema é no acabamento. A dobra, o refile, o grampear e tudo isso. Resolvi fazer só o acabamento. Peguei uma dúzia de moças lá embaixo, mandava imprimir fora, cortava, preparava a revista aqui. Depois, comprei uma máquina, duas máquinas. Até quatro ou cinco máquinas. Até que fiz isso aí. 

WAZ - Em quanto tempo o senhor montou a gráfica?

Joseph Abourbih -  15, 18 anos. 

WAZ - E então a editora sempre foi aqui na (rua) Almeida Torres? 

Joseph Abourbih - Estava no centro. Na Praça da República. Depois transferi aqui. Tinha um pequeno lugar, não sei quando. Depois passei... Tinha um pequeno lugar lá embaixo. Depois fiquei com tudo isso. Porque eu dono lá foi embora. Aquele que estava aí também não quis ficar, foi embora.

WAZ - E o seu produz também pra terceiros, né?

Joseph Abourbih - Dificilmente, porque eu... Eu prefiro trabalhar para mim. Claro, de vez em quando eu encontro um amigo sério, correto, que paga direito, eu faço, claro. Mas não sou obrigado, não estou esperando um serviço do terceiros.

WAZ - O senhor lançou agora uma revista, a Luz e Cores, é o mais recente lançamento, né? Como está indo a revista? É infantil?

Joseph Abourbih - É infantil, tipo Para Colorir. E tem uma outra, a Magia das Cores, é outra lá. Mas tem três para colorir. A criança pega o lápis e colore!

WAZ - E quem está produzindo?

Joseph Abourbih - Cada desenhista me faz uma. É um ponto de vista diferente.

WAZ - Quem são eles?

Joseph Abourbih - (Sergio) Militélo, não sei se você conhece, Adriana e a terceira é uma moça também, Tina...

WAZ - E as capas, agora o senhor está produzindo capas com fotos, a Sexyman por exemplo, o senhor acha que atrai mais o leitor as fotos do que a ilustração?

Joseph Abourbih - Não, eu fui obrigado porque o grande problema são os desenhistas, que são difíceis de encontrar, então a gente tem a obrigação de usar esse tipo de desenho para as capas. Eu percebi que eu não tinha mais condições, aquele que desenhava isso me fazia uma capa que eu não gostava. E eu pensava em colocar um cromo (foto geralmente fornecida em formato de slides 35mm), que dava melhor aspecto. Atrai mais, acho que atrai não, atrai. O ramo inteiro é um ramo onde você chuta. Dá, dá, não dá, não dá! Claro que você se previne para não perder muito dinheiro também! Eu tenho mais de um milhão de exemplares aqui de devolução, um milhão!

WAZ - Mas aí o senhor trabalha com esse encalhe!

Joseph Abourbih - É muito difícil trabalhar com isso!

WAZ - Mas o senhor faz pacote de promoção?

Joseph Abourbih - Claro, se eu não faço isso vou à falência! Essa é uma ajuda para pagar parte do preço do papel, que hoje em dia vale uma nota. O papel normal hoje, o offset, você conhece, vale 5.500, 6.000 mil cruzeiros o quilo, e o cuchê vale 11.000, 12.000 cruzeiros o quilo.

WAZ - Quer dizer, aqui o senhor produz desde a diagramação da revista, o fotolito, sai tudo daqui.

Joseph Abourbih - Sai tudo.

WAZ - E o senhor distribui pela Dinap... Antes de montar a Noblet o senhor já mexia com material gráfico?

Joseph Abourbih - Eu trabalhei 20 anos em uma editora onde eu aprendi esse negócio.

WAZ - Que editora?

Joseph Abourbih - Na minha terra, o Egito. Eu fazia sete publicações semanais, fazia sete publicações toda semana. Entrava de manhã, 8 horas e saia 11 horas, meia-noite e a edição era sempre assim. E depois fiquei tão cansado que disse, eu vou sair, vender publicidade, eu não quero mais fazer isso, e de fato quando eu fui vender publicidade eu ganhava muito bem. E quando eu estava em Paris tinha lá um amigo que ele mexe com isso, e eu fui falar com ele. Me demiti lá, devagarinho, e cheguei aqui em São Paulo. 

WAZ - E no Egito o senhor fazia material em quadrinhos?

Joseph Abourbih - Não, não, nessa temporada no Egito não tinha história em quadrinhos, são revistas de atualidades, femininas. Montava sete revistas toda semana, entrava de manhã, sete e meia, oito, saia onze horas, mas aprendi todos os truques.

WAZ - E como chamavam as revistas?

Joseph Abourbih - Amimen (?), Omosaulo (?)... faz trinta anos!!!

WAZ - E depois do Egito o senhor foi pra Paris?

Joseph Abourbih - Fui terminar em Paris!

WAZ - Ficou muito tempo lá?

Joseph Abourbih - Não, vinha para cá, fiz um negócio que não era do ramo editorial, então perdi 40 mil dólares, fiquei tão chateado que deixei o dinheiro lá... meu último pagamento meu sócio me deu 2.800, suei para pegar. Não me deram nem 5.000 dólares, perdi tudo. Fiquei tão chateado que fui viver na França. E lá na França recomecei de novo! Mas também na França era isso!

WAZ - Em que época mais ou menos o senhor chegou na França?

Joseph Abourbih - De 1960 a 1967. 1968 já não estava mais lá...

WAZ - 1968 o senhor já estava no Brasil?

Joseph Abourbih - Eu cheguei no Brasil em 1958, me instalei, entrei em sociedade com um amigo meu, velho amigo meu. Mas não deu, as coisas ficaram mal que perdemos muito dinheiro. Fiquei tão chateado que não conseguia mais viver aqui mesmo, eu perdi tudo, fui na França e também perdi dinheiro. Falei: Puxa! O Brasil é mais fácil, eu vou voltar para o Brasil!

WAZ - O que o senhor acha do mercado agora? O senhor acha que ele tende a crescer?

Joseph Abourbih - Está em dificuldades. Tende a crescer normal, o que é mais grave é que você tem um mês bom, dois meses maus, um mês mau, dois meses bons... e a grande dificuldade é o dinheiro, que não entra fácil!

WAZ - Tá bom!

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Acima, registro da primeira entrada de Joseph no Brasil.

Joseph Abourbih (ou Youseph Bekhor Abourbih), nasceu em 14 de fevereiro de 1915, no Cairo, Egito. Chegou ao Brasil em 01 de julho de 1958 na condição de apátrida, vindo de Paris. Voltou para a França duas vezes entre 1960 e 1965. Retornou ao nosso país em 31 de julho desse mesmo ano, onde se estabeleceu definitivamente, fundou a editora Noblet em 1968 e onde veio a falecer em 07 de julho de 2010.