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sexta-feira, 17 de junho de 2022

Chiquinha - 1991

Em 9 de novembro de 1991 estreava na Folhinha, suplemento infantil da Folha de S. Paulo, a personagem Chiquinha, criação de Miguel Paiva.

Com um estilo de desenho já conhecido em trabalhos como Radical Chic e Gatão de Meia Idade, Chiquinha era voltada ao público infantil, leitor da Folhinha.

No sábado de estreia foi publicada a seguinte entrevista apresentando a personagem:

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Folhinha ganha a tira da Chiquinha

MÔNICA BONVICINO - Editora da Folhinha

A Folhinha ganha hoje a tira “Chiquinha”. É criação de Miguel Paiva, 41, que faz também “'Radical Chic”, história publicada na "Revista d”, aos domingos, na Folha. Miguel é carioca e vive de fazer histórias em quadrinhos. Entre crianças, é conhecido na Itália. Publicou de 1974 a 1980 a história “Capitão Eco contra o Doutor Polu”, na revista “Corriere dei Piccoli”. Veja como é Chiquinha.

Folhinha - Chiquinha é briguenta?

Miguel - Vai brigar com o irmão porque ele vai querer mandar. Menino acha que já nasceu com poder.

Folhinha - Gosta de estudar?

Miguel - Não tem problemas porque é esperta, mas não é super estudiosa. Sabe que deve aprender algumas coisas, do contrário não “vai conseguir impor sua vontade".

Folhinha - O que ela mais gosta?

Miguel - Quadrinhos, rock, e curtir as coisas que a fazem pensar.

Folhinha - Ela tem namorado?

Miguel - Se fosse escolher um menino para aprontar no shopping, ia querer sair com Geraldinho, não sairia com um menino tão maluquinho quanto o Menino Maluquinho. Ela acha Geraldinho neurótico mas gosta dele. Talvez até se case com o Menino Maluquinho, mas curte com Geraldinho.

Folhinha - Do que ela brinca?

Miguel - De caubói, astronauta, porque meninos e meninas têm “direito de brincar do que quiserem, podem ser xerifes e os donos do mundo". Chiquinha se acha bonita, brinca de boneca, mãezinha, mas tenta realizar sonhos de criança, como ser corredora de Fórmula 1.

Folhinha - Chiquinha apronta?

Miguel - Ela é só uma menina que faz o que sente que é gostoso. Por sorte, tem dois pais legais, que não estragam a festa dela.

Folhinha - Por que você gosta de criar personagens mulheres?

Miguel - O mundo das mulheres é misterioso. Gosto de descobrir o jeito feminino das coisas. Os homens criam barreiras para a gente descobrir como eles são.

As tiras de Chiquinha foram reunidas em 4 livros da editora Rovelle a partir de 2014.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Dr. Fred - 1977



Em 1977 o cartunista Miguel Paiva passou a publicar no Jornal do Brasil (RJ) as tiras do Dr. Fred, numa clara alusão ao "pai" da psicanálise, Sigmund Freud (1856 – 1939).

Com um traço intermediário entre seu início de carreira e aquele que viria a lhe consagrar em séries como Radical Chic e Gatão de Meia Idade, Miguel fazia humor com o mundo da terapia e da psicanálise mostrando o Dr. Fred, um psicólogo que estava mais interessado em sua conta bancária do que em tratar seus pacientes.

Para saber mais sobre Miguel Paiva clique aqui.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Guta - Capricho - 1987

Na década de 1980 a revista Capricho da editora Abril mudou sua linha editorial. Deixou para trás as fotonovelas e passou a ser uma revista de comportamento, moda e beleza dirigida ao público feminino jovem, adotando inclusive o slogan "a revista da gatinha".


Mirando esse público adolescente, o cartunista Miguel Paiva criou a personagem Guta, uma menina de dezessete anos às voltas com os dilemas das garotas da sua idade. Inicialmente a seção chamava-se Meu Diário, passando posteriormente a assumir o nome de sua personagem principal.
Abaixo uma entrevista concedida pelo artista à revista em Abril em 1987.

LINHA DIRETA COM MIGUEL PAIVA

Ele é um dos mais brilhantes desenhistas de humor deste país. Colabora com inúmeras revistas, entre elas Capricho. Neste bate-papo você finalmente vai conhe­cer o pai da Guta, que assina o seu divertido diário na nossa última página:

Capricho - Há quanto tempo você trabalha com cartum?

Miguel Paiva em O Cruzeiro - 1967

Miguel Paiva - Já faz vinte anos. Co­mecei muito cedo, com 17 anos, por volta de 1966, 67, colaborando no Jor­nal dos Sports do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que ganhei dinheiro por alguma coisa que fiz. Fiquei fascina­do. Logo percebi que não era um cartunista típico, mas um desenhista de humor, e que essa atividade estava as­sociada em mim a outras formas de expressão, como escrever para teatro e letras para música.

C - Você costuma trabalhar em casa?

MP - Sempre trabalhei em casa. Não sei o que é trabalhar fora e receber um hollerith no fim do mês. Tenho uma ligação muito forte com as coisas da casa, dos mó­veis à organização das tarefas e cuida­dos com os filhos. Em casa nunca houve aquele negócio de dizer "meu marido é muito bom, ele me ajuda muito". Minha mulher trabalha fora e nós dividimos tudo. Agora, é claro que o trabalho não pode ser prejudica­do. Em casa todos já se acostumaram a isso.

Jornal dos Sports - 1967

C - Quantos filhos você tem? 

MP - Três, Diego, de 11 anos, Adol­fo, de 9, e Vítor, de 4. Sempre quise­mos ter uma filha mas não pintou. Nossa relação com os meninos é tão forte, tão mágica, que não importa se eles são filhos ou filhas. 

C - Então a Guta é a filha que você não teve. Como é sua relação com ela? 

MP - E complicadíssima. Ela é real­mente a filha que eu gostaria de ter. Claro que não com essa idade, pois não sou tão velho assim. Eu gostaria de mostrar a Guta absolutamente li­bertária, fazendo o que bem entendes­se. Mas seria uma coisa irreal, porque as coisas não acontecem assim.

C - Fale dela ... 

MP - Ela sabe a crise que esta viven­do. Da dificuldade de romper com a estrutura antiga dos relacionamen­tos com os pais, namorado etc. Ao mesmo tempo se vê em ciladas tre­mendas, porque ainda não sabe quais os instrumentos que pode usar para conseguir o que deseja. Mas a Guta tem a capacidade de perceber o mundo em que pisa e eu espero que os jovens desenvolvam cada vez mais essa capacidade. 

C - O que o "pai" de uma adoles­cente espera dos jovens? 

MP - Olha, eu não espero nada. Não concordo com a responsabili­dade que querem jogar sobre as cos­tas deles. A responsabilidade do mundo que está aí é das gerações mais velhas. O jovem precisa se construir, viver essa coisa extrema­mente prazerosa que é a juventude, para mais tarde poder enfrentar os problemas do mundo.

C - Você largou os estudos antes de completar o segundo grau. Como sua família reagiu a isso?

MP - Nunca cultivei o mito do diploma. Abandonei o Clássico pela metade e não me arrependo. A fa­mília até que reagiu bem. Viram que eu estava tão determinado a seguir o caminho que escolhi, que acabaram me dando força. 

C - Não era a "rebeldia da juventu­de" de que falam? 

MP - Não, é claro que não. Existia um esforço meu em direção a um objetivo. E se há esse esforço é ine­vitável que se consiga o que quer. Com o incentivo dos pais fica mais fácil, e os meus perceberam que é bobagem querer programar a vida dos filhos. 

C - Como foi o adolescente Miguel Paiva? 

MP - Eu fui um adolescente com extremas dificuldades de expressão. Fazia análise, era gago. Um drama, porque sua sobrevivência nesta fase depende da sua capacidade de expressão. Acredito até que a minha necessidade de escrever, de dese­nhar, tenha vindo daí. 

C - Há uma enorme quantidade de rádios antigos espalhados por sua casa. E alguma espécie de paixão? 

MP - Sem dúvida. Malu, minha mu­lher, tem uma espécie de loja de an­tiguidades - um modernário - e numa de suas andanças achou esta coleção de rádios. São mais de 150 e a maioria funciona perfeitamente. 

C - De onde vem essa paixão? 

MP - Não sei ao certo, mas antiga­mente o rádio tinha uma força mui­to grande na vida das pessoas. Elas se sentavam em volta dele e o olhavam, imaginando as cenas que estavam sendo descritas. Por isso têm linhas tão bonitas. 

C - E O que você está achando do Brasil em tempos de Constituinte? 

MP - O Brasil, na realidade, são dois: o Brasil partidário, do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Reci­fe, supostamente real, e um outro país, imenso, que morre de fome. A gente passa a vida inteira tentando se convencer de que esse outro país não existe. Mas a verdade é que nenhuma solução virá enquanto esse Brasil não for levado em conta.

Entrevista a Milton Belintani Filho
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Sobre Miguel Paiva a Enciclopédia dos Quadrinhos de Goida e André Kleinert (L&PM - 2011) esclarece:

PAIVA, Miguel Brasil (1950) 

O carioca Miguel Paiva é mais um dos casos em que o artista primeiro se consagra no exterior para depois ganhar espaço maior aqui. Profissional do cartum desde os dezessete anos (publicou seus primeiros trabalhos no Jornal dos Sports), passou pelo O Pasquim (1969-1973), Última Hora e Sta­lus. 

Como a barra andava pesada naquela época, mudou-se para a Itália, mais particularmente Milão, onde permaneceu até 1983. Foi lá que criou a sua primeira série de quadrinhos, "Madame Mistério", publica da na revista Linus. 

O Casanova de Miguel Paiva.

Também participou da edição coletiva de As memórias de Casanova, ao lado de artistas de renome, como Guido Crepax, Dino Bataglia, Altan e Oski (publicada no Brasil pela coleção "Quadrinhos L&PM"). 

No seu re­tomo, passou a desenhar em tiras diárias, a partir  dos argumentos de Luis Femando Veríssimo, As aventuras de Ed Mort. Essas deram, em coletâneas formato álbum, quatro títulos - Procurando o Silva, Disneyworld Blues, Com a mão no milhão e Conexão nazista (todos igualmente da coleção "Quadrinhos L&PM"). Mantendo intensa atividade gráfica e de cartuns além da criação de quadrinhos, Miguel Paiva criou, para a revista isto É, as páginas semanais de Happy Days (crônica de uma família de classe média, empobrecida, que vai perdendo seus sonhos por causa dos contínuos pacotes e deteriorização do poder aquisitivo).  

Mais tarde, para a revista Domingo, do Jornal do Brasil,  criou Radical Chic, irônica e divertida sátira sobre uma típica mulher urbana de trinta anos (que se auto denomina, "sou um pupurri de emoções"). Radical Chic também ganhou álbum na coleção "Quadrinhos L&PM". Junto com Júlio José Chiavenatto, Miguel Paiva criou para a Editora Brasiliense, na série "Redescobrindo o Brasil", o álbum Olha lá o Brasil! Na Itália, as histórias de Ed Mort foram traduzi das em revistas e já ganharam um álbum. Paiva participou também das revistas Inter Quadrinhos e, principalmente Bundas (1999-2000). Nessa, criou mais dois personagens antológicos, Charlote, a emergente (quase quarenta páginas), e Betão, o futuro da nação (vinte páginas). 

Antes disso, tinha desenhado Gatão de meia idade, cujas tiras ganharam dois álbuns pela Editora Objetiva em 1995/96. Pela mesma editora saiu ainda em 1995, o Almanaque Radical Chic. Ainda dela tivemos o livro chamado Livro de pensamentos da Radical Chic (Penso, logo mudo de ideia!) editado pela Record, em 2001. Mais recentemente pela Cia. Editora Nacional, saíram mais três álbuns da Radical Chic e também três do Gatão de meia idade, inclusive um volume com as primeiras tiras do personagem. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Radical Chic - Jornal do Brasil - 1984



Criada para Revista de Domingo do Jornal do Brasil por Miguel Paiva em 1984, Radical Chic representava a mulher moderna e descolada dos anos 1980, com todos os seus problemas, dilemas e motivações. 

No princípio, Radical Chic era um nome genérico para histórias de várias mulheres, com aparências diversas. A personagem de cabelos curtos e vermelhos só foi se delineando com o passar das publicações.

A série teve uma longa carreira editorial, saindo em várias publicações, como os jornais O Globo, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo e nas revistas femininas Claudia e Nova, da editora Abril.

Foi encarnada na TV pela atriz Andréa Beltrão e publicada em livro pelas editoras L&PM, Record, Objetiva e Companhia Editora Nacional.

Por ocasião da estreia de Radical Chic na revista Nova (editora Abril) em fevereiro de 1990, o cartunista concedeu a seguinte entrevista:

Radical na revista Claudia nº 282

NOVA conversa com Miguel Paiva, o pai e amante da Radical Chic.

Por Catarina Arimatéia

A ruiva espevitada que há um mês começou a frequentar a última página de NOVA tem um carioca de 40 anos em sua vida: o artista gráfico, cartunista, ilustrador e músico bissexto Miguel Paiva. 

Radical Chic nasceu em 1984, na re­vista Domingo do Jornal do Brasil. Imediatamente "ganhou" os leitores por sua coragem, franqueza, indis­farçável cinismo, amargo senso de realidade e, claro, muito bom hu­mor. Seu criador jura que não se ins­pirou em ninguém: "Eu me inspirei numa idade: 30 anos, época extraor­dinária na vida das pessoas, quando se assumem posições críticas e mu­danças radicais". 

O currículo de Miguel Paiva mostra que, ele próprio, sempre assumiu posições críticas. E até bem antes dos 30. Com 17 anos, depois de edi­tar a página de humor no jornal do Colégio Aplicação, onde estudava, foi trabalhar no estúdio do já ve­terano Ziraldo. Logo conseguiu publicar seu primeiro cartum profissional no Jornal dos Sports: um carro do DOPS com latinhas amarradas atrás e o cartaz recém-cas­sados ... "Uma época du­ra, mas você nem imagi­na o quanto era boa se formos comparar com o que veio depois, com o AI5." 

Miguel Paiva em O Cruzeiro - 1967

Por essa época, Miguel foi contratado pelo jor­nal mais combativo da­quele tempo: O Pas­quim. Ficou quatro anos, de 1969 a 1973, fazendo ilustra­ções. Foi censurado, preso "para averiguações", fichado e teve o pas­saporte apreendido. Quando o recu­perou, decidiu fazer as malas. Passou seis anos em Milão - seu filho mais velho, hoje com 13 anos, nasceu lá. Voltou em 1983 ... com 30 anos. "To­mei grandes decisões - uma delas, parar de fumar." Descasou-se um ano depois, casou-se novamente e veio para São Paulo, onde mora há seis anos com a mulher Malu e o fi­lho de 6 anos. 

Apesar de filha única, Radical Chic tem "irmãos" famo­sos. Como a família de Happy Days, outra criação de Miguel Pai­va, publicada anos atrás na revista Isto É. Outro "irmão" de Radical é o Ed Mort, personagem de Miguel e Luís Femando Veríssi­mo, que vive suas aventuras no Jor­nal do Brasil e O Estado de S. Paulo. No ano passado, Radical Chic ga­nhou um livro (de luxo!) só para ela! 

P. Quem é Radical Chic? 

R. Uma mulher urbana de 30 anos vivendo despudoradamente todas as crises. Trinta anos é a idade da se­gunda sabedoria. A primeira vai dos 20 anos aos 30, quando você acha que sabe tudo e vai revolu­cionar o mundo. Aos 30, que­remos fazer uma revisão com­pleta do que pensávamos antes. Quem está casado, se separa. Quem está solteiro, se casa. Quem faz análise, pára. Quem nunca fez, começa. É a fase em que você assu­me mudanças radicais na vida. 

P. A virada aos 30 também acontece com os homens?

R. Mas a mulher vive toda essa "efervescência" inte­rior de uma maneira muito mais rica. Ela sabe convi­ver melhor com suas an­gústias e contradições. 
Para o homem, é bem di­fícil admitir as próprias contradições, pois há um "papel social" a desem­penhar e ele não conse­gue se desvincular do julgamento externo, aquela coisa de "o que os outros vão pensar de mim?" Já as mulheres entram de ca­beça e não têm o pudor de se reconhecerem em crise. Não existe a preocupação social de não se mostrarem fracas ou inferiores. Assim, acabam tornando-se muito mais sagazes e críticas em relação a elas mesmas. A Radical é forte por­que as mulheres se identificam com ela - mesmo que algumas não te­nham sua coragem nem espaço para colocar todas as emoções para fora. Ela se mostra, se expõe exagerada­mente. Faz, diz e vive exatamente co­mo cada mulher gostaria de ser em al­gum momento da vida.

P. É seu tipo ideal?

R. A Radical é uma pessoa com quem gosto muito de conviver. É meu caso, minha amante, aquela com quem mantenho uma relação secreta.

P. De onde você tira as situações vividas por ela? 

R. Em primeiro lugar, conversando com as pessoas. E vou anotando todas as idéias em um livrinho. Há al­guns amigos que me inspiram muito, contando casos e situações. Como Lúcia Sweet, produtora e uma "loco­motiva social" do Rio de Janeiro. Arthur Ferrari, que foi um dos sócios da Mr. Wonderful (grife masculina de roupas), é outro. Várias tiras que fiz são histórias dele. É verdade que aca­bo transformando um pouco ... Ah, nada como a vida não real. Você já imaginou se a gente pudesse viver com um roteirista de lado escrevendo nossa vida, uma bela trilha sonora acompanhando e a possibilidade de escolher os coadjuvantes? Seria uma maravilha. E com um personagem te­mos essas liberdades. Mas, além de conversas, também observo muito o que acontece a minha volta. Certa vez, estava em uma exposição de de­sign no Rio de Janeiro e vi uma moça se despedindo dos amigos e falando: 
"Você vai para casa, não vai? E você também, não é? Todo mundo está in­do para casa, não é mesmo? Bom, en­tão, tchau. É bom que vão mesmo porque não quero descobrir amanhã que vocês foram se divertir e eu fui embora ... " Uma coisa tão absurda! Tão radical chic! Peguei literalmente o fato - não mexi em nada - e transformei em uma tirada.

P. Há quem ache  a Radical um bocado amarga.

R. Dois amigos já me disseram que ela era infeliz - fiquei um tanto perturbado. Pode ser que seja difícil para ela se realizar sentimentalmente, mas isso é mesmo muito difícil. Não acho que seja infeliz. Afinal, tem um cinismo muito grande para analisar tudo e consegue, mesmo assim, aproveitar a vida. Ela se conscientiza da impossi­bilidade das coisas depois de realizá­-las, não antes. Primeiro, vive. Depois julga a experiência. Infeliz é quem corta a possibilidade - ou a impossi­bilidade - antes.

P. No trabalho, quando aconteceu sua entrada no chamado "universo feminino"?

R. Logo que voltei da Itália, comecei a trabalhar no Instituto de Ação Cul­tural, no Rio de Janeiro. Já havia tra­balhado com eles em Milão - é um instituto nascido em Genebra e man­tido por fundações. Na Itália, eu esta­va envolvido com educação de adul­tos. No Rio, fiquei diretamente liga­do ao Projeto Mulher, que lidava com a educação de mulheres em várias áreas: saúde, sexualidade, socie­dade. Aí, entrei com tudo na desco­berta da linguagem feminina. Havia mulheres incríveis colaborando com a gente, uma delas Marina Colasanti. Acabei fazendo parte de um grupo de reflexão feminina - como criava as ilustrações para elas, também partici­pava das conversas, o que era até im­portante, já que dava um ponto de vista masculino. Para mim, foi um momento de crescimento fantástico.

P. O que é o humor para você?

R. É a atitude de questionar a própria seriedade e as pessoas que se levam a sério. Aqueles que se levam muito a sério são uns chatos - eu os detesto, e a Radical Chic pensa exatamente como eu. A partir do momento que você se leva a sério demais, perde o jogo de cintura e a capacidade de transformar situações. Já tecnicamen­te, o humor precisa ser sempre sur­preendente. Uma pulga atrás da ore­lha. Uma coceira em um ponto que você mal pode alcançar com a mão­mas, quando consegue se coçar, o re­sultado é um imenso prazer. O humor nem precisa ser brilhante, filosófico ou genial. Imprescindível é revelar coisas em um momento que você não está esperando. Como a Radical Chic vive fazendo.


A Ficha de Radical Chic
  • IDADE: 30 anos. 
  • ALTURA: 1,72 m. 
  • PESO: Variável, está sempre come­çando dieta. Na segunda-feira, tem 59 kg. Na sexta, 4 menos. 
  • OLHOS: Castanho-escuros. 
  • CABELOS: Ruivos. 
  • ESTADO CIVIL: Solteira. Gosta muito de dar. .. e receber. 
  • NATURALIDADE: Nasceu prematura em plena Via Dutra, entre Rio e São Paulo. 
  • FILlAÇÃO: Pai gaúcho e mãe mineira. 
  • IRMÃOS: É filha única. 
  • CORES PREFERIDAS: Lilás e azul. 
  • PROFISSÃO: Uma agitadora cultural. Produtora também, mas anda meio desempregada. Costuma fa­zer "bicos chiques" em moda, show business e todos os bochi­chos quentes. 
  • A GRANDE PAIXÃO: Não viveu ainda. 
  • EX-NAMORADOS: Muitos. 
  • ATOR PREFERIDO: Peter Coyotte. 
  • ATRIZ: Kathleen Turner. 
  • ÍDOLO: Não tem. É o tipo de mulher que "no segundo dia", como diz seu criador, "já iria começar a achar algum defeito nele". 
  • PERFUME: De dia, o cheiro da pele. À noite, uma pitada de First, só uma leve insinuação. 
  • HOBBIES: Jogar conversa fora, fre­quentar bares em que os garçons não se metam na vida dela, fazer gi­nástica - mas não aeróbica, prefe­re uma mistura de ioga com alonga­mento, "coisa mais serena, de gen­te civilizada". 
  • HÁBITOS ALIMENTARES: É a favor de um mínimo de vida sadia, mas não faz o gênero naturete. Come arroz integral, só que não dispensa carnes. 
  • BEBIDAS: Enquanto o sol não se põe, um vinho branco ou um martini seco. À noite, Jack Da­niel's. Ah, sim: ela se angustia muito com a noite. Às vezes tem certeza de que alguma coisa mui­to importante está acontecendo ­e que não foi convidada. 
  • MEDOS: Um só - envelhecer. 
  • TRAUMAS: Queria ser muito mais alta e muito mais magra.

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Apresentação do livro Romeus e Julietas, editora Melhoramentos, 1988.

Miguel Paiva Ponce de Leon é carioca da Fonte da Saudade, o que significa ter vindo ao mundo num dos mais privilegiados lugares do planeta. 

Para quem não sabe, a Fonte da Saudade fica à beira da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, ao pé do morro do Corcovado, do morro Dois Irmãos e da pedra da Gávea, cartão­postal do Brasil, que exporta sua imagem para o mundo. 

Jornal dos Sports - 1967

Sempre ligado ao desenho e à produção editorial, Miguel Paiva vem de uma família de publicitários. Ainda adolescente, começou a trabalhar as suas charges e histórias em quadrinhos. Ingressou no Pasquim em 1969, onde permaneceu até 1974, quan­do a situação político-social do país não estava para peixe miúdo, era império de tubarões, com os quais ele não tinha nada a ver. Assim, fez as malas e acabou na Europa. 

Morou vários anos na Itália, época em que criou vários per­sonagens infantis. Sua maior atuação se deu no Corriere dei Picoli, suplemento infantil do Corriere della Sera, jornal de grande prestígio junto aos italianos. 

Voltando à pátria amada, Miguel Paiva fez de tudo, sempre muito bem-sucedido como profissional. É diretor de arte de al­gumas publicações. 

Apaixonado pela figura da mulher, ele a retrata de forma genial em sátiras de tiras curtas ou longas nas variantes do comportamento social segundo as tendências da época, e é o pai intelectual de algumas figuras marcantes. 

Assim, em 1984, nasceu a Radical Chic, na revista Domingo do Jornal do Brasil, R. J., rainha dos conflitos da emancipação feminina. 

Happy Days é outro momento feliz da sua criação e é publi­cado na revista Isto É. 

Meu diário (Guta) é outra abordagem onde ele escreve, em forma de diário, as agruras de uma adolescente de dezessete anos. 

Brincando e rabiscando, usando e abusando de seu traço rico e irreverente, Miguel Paiva segue castigando os costumes pelo riso.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Gatão de Meia Idade - O Estado de São Paulo - 1994



Criado pelo cartunista Miguel Paiva em 1994 o Gatão de Meia Idade foi inspirado em pessoas que preferem viver sozinhas e conta as peripécias do descasado que vive tentando se relacionar bem com as mulheres.

Segundo o autor ele "quis fazer um personagem que já tivesse sido casado e agora estivesse solto no mundo. Os personagens solitários são mais interessantes. Eles vivem a vida integralmente, sem dividir com ninguém".

O Gatão de Meia Idade foi vivido no cinema (2006) pelo ator Alexandre Borges e publicado em livro pelas editoras Objetiva (1995) e Companhia Editora Nacional (2008).






sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ed Mort

Ed Mort é um personagem criado por Luís Fernando Veríssimo (1936-2025) em 1979 como paródia das histórias norte-americanas de detetives, principalmente as de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. É um detetive particular trapalhão e sempre sem dinheiro, que se mete em todo o tipo de encrencas. Ele divide seu espaço - um escritório em Copacabana, que ele chama apenas de "escri" porque é muito pequeno - com 117 baratas e um rato albino chamado Voltaire.

Suas 17 histórias estão compiladas nos livros Ed Mort e Outras Histórias (1979) e Sexo na Cabeça (1980), publicados pela L&PM, e em Ed Mort: Todas as Histórias (2011), da editora Objetiva. O personagem também foi adaptado peça de teatro, especial de TV e para o cinema.
Ed Mort foi publicado em tiras de jornal nos anos 1980, com texto de Veríssimo e desenhos de Miguel Paiva (criador da Radical Chic e do Gatão de Meia Idade). As tiras eram seriadas e cada história completa foi lançada em compilações pela L&PM:
  • Ed Mort em Procurando o Silva (1985)
  • Ed Mort em Disneyworld Blues (1987)
  • Ed Mort em Com a Mão no Milhão (1988)
  • Ed Mort em Conexão Nazista (1989)
  • Ed Mort em O Sequestro do Zagueiro Central (1990)
Ed Mort tinha também suas páginas dominicais, publicadas em cores no suplemento O Globinho do jornal O Globo, essa de 1988.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Marimbondo - Diário Popular - 1988

Aventuras de um super-herói atrapalhado, Marimbondo era publicada em capítulos no jornal Diário Popular no ano de 1988, com desenhos primorosos, foi uma criação do cartunista Affonso Abreu.

Affonso, nascido em 1964, já é falecido. Começou em 1983 no Diário do Grande ABC e passou a trabalhar em pequenas agências de publicidade daquela região. Depois fez alguns trabalhos para a Editora 3, quando em 1985 foi contratado pela Gazeta Mercantil publicando uma charge diária.
O desenhista teve trabalhos publicados na revista italiana Venerdi em 1990 e também na revista inglesa The True. Em 1992 fez parte da Mostra Paulista da 1ª Bienal Internacional de Quadrinhos em uma exposição junto a outros quadrinhistas brasileiros que publicaram no exterior como Luiz Gê, Miguel Paiva e Angeli.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Capitão Eco - Jornal do Brasil - 1972


Com certeza um dos primeiros personagens a tratar da causa ecológica no Brasil, Capitão Eco foi elaborado por Miguel Paiva e surgiu no Caderno I, suplemento infantil de Jornal do Brasil logo em seu primeiro número, em julho de 1972, circulando semanalmente.

Posteriormente foi publicado na famosa revista infantil italiana Corriere dei Piccoli e em 1975 na revista Crás da editora Abril.

Sempre combatendo o sinistro Doutor Polu, defendia o meio ambiente com muita graça e humor.





Capitão Eco na revista italiana Corriere dei Piccoli.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Happy Days - Jornal da República - 1979



Happy Days mostrava o lado obscuro de uma família padrão, dessas de comercial de margarina, com um núcleo familiar típico: pai, mãe e dois filhos.

Elaborada pelo cartunista Miguel Paiva, com um humor ácido e certeiro, sobreviveu até o fechamento do jornal, quando foi transferida para a revista Isto É, da editora Três, onde permaneceu durante toda a primeira metade dos anos 1980, em um espaço colorido de duas colunas e depois página inteira.