segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sergio Cântara - Entrevista - 2017

Pioneiro arte-finalista e desenhista dos estúdios de Maurício de Sousa, entre 1964 e 1969, Sergio Cântara concedeu a entrevista a seguir em abril de 2017 por meio digital:

Sergio Cântara por Alvarez, 1967.

Luigi Rocco: Sergio, seu nome completo, quando e onde você nasceu?

Sergio Cântara: Sergio de Jesus Cântara. Eu nasci em São Paulo em 06/07/1947.

LR: Como se interessou pelo desenho? O que lia quando criança? Gostava de gibis e quadrinhos?

SC: Sempre gostei de desenhar desde muito pequeno. Li muito gibi na minha infância, Luluzinha, Bolinha, O Pato Donald, Mickey, Fantasma, Mandrake e muitos outros.

LR: Você teve algum estudo formal de desenho? Em qual escola?

SC: Estudei no Instituto Nobel de Tecnologia, lá, fiz o curso de desenho de propaganda.

LR: Em que bairro ficava? Em que ano foi?

SC: Essa escola ficava ao lado da biblioteca na pça. Bráulio Gomes. Nos anos 1963/1964.

LR: E como você começou profissionalmente? Qual foi o seu primeiro trabalho?

SC: Comecei profissionalmente trabalhando numa fabrica de flâmulas. Foi o meu primeiro trabalho. Eu tinha que tomar três conduções para chegar lá, e no final, trabalhei alguns meses e acabei não recebendo. Hehehe

LR: Como você ingressou nos estúdios de Maurício de Sousa? Em que ano?

O trabalho de Cântara já estava presente na MSP nos primeiros livros de Maurício, pela editora FTD, em 1965.

SC: Eu tinha um amigo que era dono de um estacionamento perto da Barão de Limeira, e que conhecia o Maurício. E por indicação dele fui contratado. 

Comecei a trabalhar no apartamento onde morava o Maurício, lá era o estúdio, e a equipe era formada assim: Paulo Hamasaki, Marcio, (irmão do Maurício), Pereira e eu.

LR: Nessa época, como era sua rotina de trabalho? Que atividades você exercia no estúdio?

SC: Eu fazia arte final. e modéstia a parte sempre tive muita velocidade com as penas "SPEEDBALL".

LR: Em que séries você trabalhou? Quantas tiras você finalizava diariamente?

Passatempo da MSP produzido por Cântara - Diário Popular, 1968.

SC: Na verdade trabalhei em todas, não lembro exatamente a quantidade de tiras, mas tinham também os tabloides para a Folhinha de São Paulo. A produção era grande, trabalhávamos muito. Mas eu gostava bastante.

LR: Em 1967 Maurício forneceu uma série de tiras para o jornal Última Hora, entre elas a série Mug e a série Caixa Alta, você chegou a trabalhar nesse material?

SC: Sim, trabalhei.

LR: O que você pode dizer sobre Dudu, Luscar, Herrero, Getulio Delphim, Vilmar e outros artistas que circularam pelos estúdios do Maurício nessa época?

SC: Tínhamos uma convivência muito legal, até hoje tenho o maior apreço por todos. Foi o Herrero que me levou para a Editora Abril. Quanto aos monstros sagrados que circularam pelo estúdio guardo uma ótima lembrança do Vilmar, pela humildade dele.

LR: Você sabe algo sobre um desenhista, aparentemente era espanhol, chamado Alvarez, que desenhou a série O Doutor?

SC: O Alvarez chegou a fazer um retrato meu, convivemos naquela época, mas infelizmente não sei nada sobre ele.

LR: Você lembra do Paulo Hamasaki nessa época? Pode falar um pouco sobre ele?

SC: Bom, eu convivi com o Paulo Hamasaki desde quando fui admitido até a minha saída do estúdio. Nunca tive problemas, embora ele fosse um pouco difícil, por conta da sua personalidade forte. Aprendi muita coisa com ele e éramos bons amigos. Acho que aquela tira "POLÍCIA FANTASMA" era material do Paulo Hamasaki!
Sergio Cântara e Paulo Hamasaki na Folhinha, 1967.

LR: E de um desenhista chamado Paulo Ernesto (Nesti), que andou pelos estúdios do Maurício nessa época, você lembra? Sabe dizer algo sobre ele?

SC: Paulo Ernesto? Engraçado, lembro dele como roteirista, se não me engano.

LR: Certo, naquela tira que eu te enviei da série Polícia Fantasma (imagem abaixo), no início da aventura, tem a assinatura dele...


SC: Pois é, lembro que fomos juntos ao DEIC para conseguir argumentos para uma série policial. Mas, não consigo associar o fato a esse material.

LR: Você se lembra do Apa (Benedito Aparecido da Silva)? Sabe algo sobre ele?

SC: Lembro sim. Trabalhamos juntos na Mauricio de Sousa. Ele era um ótimo ilustrador e ilustrou a revista da Jovem Guarda que acabou não saindo.  Não tive mais contato com ele, alguém que não me lembro agora falou que ele havia falecido.

LR: Até que ano você ficou na MSP. Por que saiu?

SC: Fiquei até o ano de 1969. Sai para ir trabalhar na editora Abril.

LR: Quais trabalhos você passou a desenvolver na editora Abril?

SC: Lá existia uma função que era chamada de "DECORADO". Nada mais era do que completar os desenhos das HQs que vinham dos EUA. Na editora Abril comecei como decorador, mas ao longo do tempo fiz muita coisa, até chegar na chefia de arte, sempre nas Infantis.

LR: Com que outros profissionais você se relacionava na editora?

SC: Lá trabalhei com muitos bons profissionais. Jorge Kato, Waldir Igayara, Izomar, Renato Canini, Rogério Borges, Paulo José, Henrique de Farias, Carlos Gomes de Freitas, Cezar Sandoval, Sergio Cafaro Furlani, Primaggio Mantovi e muitos outros artistas.

LR: Até quando você permaneceu na Abril?

SC: De 1969 até 1978. Depois voltei e fiquei até 1981.

LR: Que trabalhos você desenvolve atualmente?

SC: Atualmente tenho feito trabalhos esporádicos. Alguns quadros, algumas capas de livros e tatuagens. Mas os últimos trabalhos de ilustração foram para livros didáticos. Trabalhei bastante para a FTD, Moderna, e Scipione. 

Desenvolvi muitos trabalhos para uma editora do Rio Grande do Sul, a Edelbra. Trabalhei para eles por dezoito anos. Para a Edelbra o principal trabalho foi a coleção Lendas Brasileiras, onde fizemos 3D na mão. Esculpíamos os bonecos, os cenários e tudo era fotografado em estúdio. Fomos os pioneiros em executar esse tipo de ilustração aqui no Brasil.

LR: Em sua página do Facebook você postou algumas tiras de um personagem cabeludo, aparentemente um homem das cavernas (imagem abaixo). O que pode dizer sobre ela? Qual o nome da tira? Qual a proposta do personagem?


SC: Esse personagem eu criei faz muito tempo, mas infelizmente, ele junto com tantos outros estão engavetados. O nome dele é PS - Post Scriptum.
Nunca tive oportunidade de lançar nenhuma tira, e era o que eu mais queria ter feito.

LR: Ele chegou a ser publicado na revista Crás, ou estou enganado?

SC: Sim, consegui publicar em apenas uma edição da Crás.

Revista Crás nº 5, 1975.

LR: OK, Sergio. Muito obrigado pela paciência e atenção.

SC: Sem problema, estou a disposição. Grande abraço.

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