quarta-feira, 2 de julho de 2014

Carrapicho - Projeto Tiras - Ed. Abril - 1979

Por Carlos Avalone


"Em 1978 a Abril implantou o Projeto Tiras, um ousado e ambicioso sistema de distribuição de tiras diárias para jornais de todo o país, com participação majoritária de quadrinistas ligados à editora, dirigido por Ruy Perotti e coordenado por Wagner Augusto. Tendo 11 autores e um editor, nunca tinha sido feito nada parecido no Brasil até então. O desafio era instituir um sistema comercial de produção e distribuição de tiras semelhente ao americano, um King Features Syndicate tropical, com o suporte da poderosa Editora Abril. Dentro desse Projeto criei tiras do Carrapicho que foram publicadas diariamente por dezenas de jornais de todo o país durante mais de um ano. Em 1981 o Carrapicho saiu também aos domingos na Folhinha, suplemento infantil dominical da Folha de S. Paulo. Com a interrupção do Projeto Tiras da Abril eu ainda consegui manter a distribuição das tiras por minha conta por cerca de dois anos. Mas sem ter uma adequada estrutura de operação empresarial eu não consegui manter o esquema."

"O cangaceiro Carrapicho representa o ápice da minha atividade como autor de quadrinhos. Ele é o justiceiro de Vila Pedregulho, imaginariamente localizada no nordeste brasileiro. Vive perseguido pelo poderoso Coroné Cascalho, um dominador político e econômico da região. Donzela Muriçoca é a moça  cobiçada pelo coroné, mas ela quer mesmo casar é com o Carrapicho, que não quer saber de conversa. Outros personagens completam o universo: os assistentes de cangaceiro Folha Seca e Faísca, o Padre Pedroca e ainda o  Cabo Firmino, que é o braço direito do Doutor Delegado. Eu procurei dar às histórias do cangaceiro Carrapicho um cunho cômico apoiado no universo sertanejo e no cangaço do nordeste brasileiro. Apesar de estrutura regional, as aventuras do personagem transcendem o espaço geográfico e se tornam universais pelo tratamento dado às suas relações com o meio-ambiente e com a sociedade local. Embora à vontade no uso de uma linguagem carregada de neologismos e expressões regionais, tentei com o Carrapicho zelar pela correção ortográfica e gramatical nos diálogos e nos enunciados. Algumas vezes, porém, convenientemente brinquei com a gramática em nome do humor."

Os textos acima foram extraidos do blog do próprio Avalone.

Para o nosso blog, Avalone deu o seguinte depoimento: "Legal o post. Naquela época era muito difícil entrar no mercado editorial. Na maioria dos casos o quadrinista que morava fora do eixo Rio/SP tinha que se mudar para cá. Apenas uma minoria sortuda conseguia publicar um gibi com distribuição nacional. E quando você conseguia entrar numa editora, era possível viver de quadrinho, autoral ou licenciado. Eu tive essa sorte tanto com um quanto com o outro.
Hoje em dia não existe mais um mercado de quadrinhos como naquela época. E é mais difícil viver de quadrinhos, tanto de autoral como de licenciado. Mas o mercado hoje é mais democrático. Qualquer quadrinista consegue publicar de forma independente e vender pela web, no formato digital ou no impresso, inclusive para os outros países.
Estamos numa agitada fase de transição do impresso para o digital. Quando esse redemoinho da transição se acalmar o mercado vai ficar bom outra vez.
Obrigado pelo post no seu blog. Fico feliz em ver que minha atividade como quadrinista rende alguns parágrafos no história da HQ nacional."

Abração.

Avalone

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