segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Cinthia - Notícias Populares - 1983

Criada por Paulo Yokota, Cinthia era publicada em 1983 no jornal Notícias Populares, SP.

Fotógrafa e especialista em artes marciais, Cinthia viajava o Brasil fotografando e combatendo pistoleiros, latifundiários desonestos e contrabandistas, sempre com a intenção de auxiliar seus amigos, geólogo, arqueólogos ou pesquisadores de várias áreas. Gorota livre, Cinthia não se furtava em viver aventuras amorosas com os mais diversos parceiros, desde que fossem gente honesta.

A heroína teve também suas aventuras publicadas no jornal Hora do Povo e na revista independente Historieta, a partir de sua décima edição, em 1992.

Yokota criou também para os jornais a heroína Quiodies.
Paulo Yokota em 1980 na revista Quadrinhos (edições Agraf).

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

João Durão - Notícias Populares - 1973

Criado em 1973 por Ailton Elias para o jornal Notícias Populares, João Durão é um detetive particular que resolve casos familiares, desviando-se espertamente, e às vezes na base da pancada, dos perigos da profissão.
Posteriormente, publicado na revista independente Historieta, o personagem foi sendo desenvolvido até se tornar uma espécie de James Bond dos trópicos, com direito a uma organização criminosa internacional, a Skorpio.
Em 1998, na revista Historieta nº 16 (edição independente), João Durão ganha uma companheira de aventuras, Maria Banto.
Em 2003, na revista Historieta nº 19, João Durão e Maria Banto enfrentam a Skorpio.
A História dos Quadrinhos, por Ailton Elias e Oscar Kern, Historieta nº 01 (5ª série), Gráfica e Editora Oliveira, 1977.

Sobre o autor: Ailton Elias Gonçalves nasceu no dia 22/09/1945 em Rio Grande, RS. Publicou seus primeiros trabalhos, O Homem Justo, de 1969, e A História dos Quadrinhos, com roteiros de Oscar Kern, na revista independente Historieta, editada pelo roteirista no início da década de 1970 ainda de maneira artesanal. A História dos Quadrinhos foi publicada também na revista UAU da editora M&C em 1973.
O Homem Justo, por Ailton Elias e Oscar Kern, Historieta nº 01 (5ª série), Gráfica e Editora Oliveira, 1977.

Largou o emprego de bancário no sul e mudou-se para S. Paulo na tentativa de entrar no mercado de quadrinhos. Em 1973 publicou as aventuras do detetive João Durão no jornal Notícias Populares. Nesse período tornou-se aluno de Ignácio Justo.

Ingressou na agência de propaganda ALMAP, seguindo a carreira de publicitário, apesar disso, continuou a produzir quadrinhos e criou A Brigada das Selvas, um patrulha amazônica, publicada pela primeira vez na revista Historieta nº 3 da GEO em 1980 e que chegou a ter revista própria pela Evictor Editora em 1984 e posteriormente, em 2010, pela editora Júpiter 2.

Para ler uma entrevista com Ailton Elias, clique aqui.
O origem do Homem Justo, por Ailton Elias e Oscar Kern, Historieta nº 02 (5ª série), Gráfica e Editora Oliveira, 1978.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Sítio do Picapau Amarelo - O Globo - 1978

Com a estreia da seriado televisivo baseado na obra de Monteiro Lobato em 1977, a editora Rio Gráfica, braço editorial da Rede Globo, lança a revista em quadrinhos do Sítio do Picapau Amarelo. Na sequencia, o jornal O Globo passa a publicar em seu suplemento dominical O Globinho, uma página colorida com os mesmos personagens: Pedrinho, Narizinho, a boneca Emília, Tia Nastácia, Vovó Benta, Visconde de Sabugosa, Marquês de Rabicó e todos os outros
As aventuras eram produzidas nos estúdios da Rio Gráfica por profissionais como Gustavo Machado, Itamar, Fernando Bonini, Antonino Homobono, Murilo Moutinho e Jordí, com Domingos Demasi e Xalberto nos textos.

Curiosamente, na década de 1980, a editora Círculo do Livro, de São Paulo, relançou a obra de Monteiro Lobato, mas produziu ilustrações com profissionais dos estúdios da editora Abril usando os model sheets das revistas da editora Rio Gráfica, como podemos ver nas ilustrações abaixo, e que foram produzidas por Eli Leon, Carlos Avalone, Michio Yamashita e Luiz Podavin, entre outros. 

Abaixo, duas páginas dominicais do Sítio do Picapau Amarelo desenhadas por Gustavo Machado para O Globo.


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Jordí - Entrevista - 2019

Jordí, artista espanhol radicado no Brasil, foi muito atuante na área dos quadrinhos do final da década de 1970 a meados da década seguinte. Produziu trabalhos para Os Trapalhões da Bloch, Sítio do Picapau Amarelo para a RGE, histórias de terror para a Vecchi, quadrinhos para a Grafipar e muito mais. 
Este depoimento/entrevista foi conduzido de modo presencial em outubro de 2019 na cidade de São Paulo, SP. Leiam a conheçam um pouco dessa trajetória incrível. Com vocês, Jordí!
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Jordí na revista Trapa Suat nº 2, editora Bloch, 1978.

Luigi Rocco: Jordí vamos começar. Nome, idade e local de nascimento?

Jordí: Bom, nasci em Barcelona, já faz 62 anos e meu nome é Jordí. Jordí é como todo mundo me conhece.

LR: E na Espanha, você lia quadrinhos? Você gostava de ler quadrinhos? O que você lia?

Jordí: Minha educação foi sempre quadrinhos. Adorava Tintim! Com Tintim fui lá pro Peru, conheci o fundo do mar, pra Lua. Realmente foi bem marcante. Asterix também era muito bom. E tinha... aqui vocês chamam Smurfs...

LR: Sim, era Strunfs, virou Smurfs.

Jordí: Aqui é Smurfs, né? Lá eram Pitufos. E foi uma época, em que o desenho era realmente muito importante. A fotografia não tinha desenvolvido tanto, não existia a rede, os filmes não eram em quantidade, como hoje, a televisão estava começando, então, as histórias em quadrinhos eram uma forma de você chegar em outros universos diferentes daqueles nos quais você vivia. Quadrinhos marcantes dessa época, pra mim, foi El Hombre Enmascarado, que aqui se chama Fantasma, eu adorava os desenhos de Wilson McCoy. Você se lembra dele? Aquele Fantasma que atirava e aparecia a trajetória da bala com pontinhos! As figuras eram todas gordinhas. Era maravilhoso. Não era igual ao Ray Moore, que tinha um clima assim todo meio cool. Ray Moore era como o Phil Davis do Mandrake. Era uma época de grandes desenhistas. Não eram os melhores da época mas eram espetaculares! E que chegavam perto de um garoto como eu, que estava muito menos preocupado em aprender coisas úteis (risos) e muito mais em me divertir e gozar com aqueles desenhos e histórias daquela época, que eram maravilhosos!

E foi uma coisa marcante para mim, porque eu queria viver apenas disso! Uma coisa muito especial dentro da minha vida. E fui contra meu pai, um pouco contra todos. Minha mãe não, porque minha mãe foi a minha maior incentivadora.

LR: E como é? Você se interessou pelo desenho por causa dos quadrinhos? Como foi isso?

Jordi: O que acontece foi o seguinte: eu não servia pra muita coisa. Não era muito atleta, não sabia cantar. Segundo minha mãe eu não servia pra nada (risos) além de desenhar. Meus desenhos eram bastante ruins, acho que como os de todos os meninos, mas minha mãe sempre acreditou que eu poderia viver disso, tanto que ela só me dava alguma trocado, quando eu limpava os vidros ou fazia outro “servicinho”. Era uma mulher especial, não sei, não tenho palavras, todas as mães são espetaculares, mas a minha, além e ter me trazido ao mundo e criado ela me encaminhou para o desenho. Foi ela inclusive, que vendeu meu primeiro desenho.

LR: Você chegou a publicar na Espanha?

Jordi: Publiquei, publiquei com 14 anos. Assim, primeiro eu comecei fazendo cópias: Luck Luke, Asterix, alguma coisa de faroeste e depois com 14 anos, lá existe uma feira todos os domingos, antes era mais quadrinhos, hoje tem tudo, tem mangá, tem jogos. Mas naquela época era mais quadrinhos, só livros velhos e quadrinhos praticamente, e eu frequentava todos os domingo, e lá conheci pessoas do ramo, que estavam começando e que gostavam de desenhos. Ia lá buscar quadrinhos de Big Ben Bolt do John Cullen Murphy, Nick  Holmes do Alex Raymond ou o coração de Juliet Jones do Stan Drake. E numa dessas manhãs conheci um pessoal... que me introduziu no ramo passando meu telefone para um pequeno editor que me procurou para ver se eu tinha interesse em fazer uns desenhos para uma revista em quadrinhos. Era do tipo bolsilivro, mas para ter um mínimo de qualidade ele orientava para fazer decalcando o trabalho de outros desenhistas. Aí eu pegava Arturo del Castillo, Víctor de la Fuente, López Espi, Breccia ou Jesus Blasco... e utilizava todos.
Trapa Suat nº 2, editora Bloch, 1978.

Claro, o personagem ficava de um jeito num quadrinho e diferente no outro (risos)! Porque na verdade eu não sabia o que era nem ritmo nem proporção ou outros elementos básicos. Mas fiz, e o cara comprou, não deve ter gostado muito, mas comprou, pagou e publicou. Eu tenho em Barcelona essa revista. A partir daí, tudo na minha vida foi me levando pra isso.

Depois comecei a trabalhar com design. Sempre gostei muito da área de design, publicidade. Era uma coisa que lidava com a criatividade, um pouco com a fuga da realidade e que era muito bem remunerada! Eu saí muito cedo de casa, com 15 anos eu já era independente praticamente. Claro, só fazia merda! (risos)

Mas no meio disso, o que aconteceu? Eu fui me forjando, a vida foi me forjando, como um sobrevivente do desenho. Era uma época em que o desenho era meio marginal. Naquela época tínhamos o Franco, lá (Francisco Franco, ditador espanhol, foi chefe de governo de 1938 a 1973)! Então eu comprava muitas revistas francesas, o Spirou, a Pilote, tive contato com o Giraud, Franquin, Peyo e Tabary entre outros que me levaram à descoberta dos clássicos como Milton Cannif, o Alex Raymond, o Frank Robbins. E na época, lá tampouco se publicava muita coisa, se publicava Hazañas Bélicas, que era de guerra, se publicava Hazañas del Oeste, se publicava Dani Futuro, que era de Carlos Giménez. E o meu primeiro contato profissional, assim, de trabalhar em uma empresa de desenho, foi a editorial Bruguera, que publicava Tio Vivo, Pulgarcito, DDT. Comecei lá com 15 anos, diagramando e montando. Pegávamos histórias do Ibañez, do Mortadelo e Salaminho, e cortávamos, montávamos, completávamos os quadros, mudávamos os balões, mudávamos formato. Alguma coisa de Capitán Trueno, Carpanta... Foi lá também que tive contato com o trabalho de Jordi Bernet e com alguns desenhistas da época que trabalhavam lá, como o Torregrosa e outros. Naquela época em Barcelona tinham duas grandes agências, que eram a Seleciones Ilustradas, que era coordenada pelo (Josep) Toutain, e a Bardon Art, tocada pelo (Jordí) Macabich.  Os dois eram desenhistas, mas acabaram fazendo todo esse meio de campo entre as editoras europeias e os desenhistas espanhois. Então eles iam lá, levavam algumas provas, pegavam os roteiros, traduziam os roteiros, escolhiam os desenhistas. Então eles tinham quartéis-generais onde o pessoal trabalhava lá mesmo. Eram estúdios onde você cruzava pessoas com já 30, 40, 45, 50 anos. Profissionais de alto gabarito com gente que estava começando nos quadrinhos. Cheguei a ajudar alguns deles. Não cheguei a trabalhar nesses estúdios. Cheguei a fazer um teste que não foi aprovado.
Trabalhos recentes de Jordí podem ser visualizados em suas páginas no Instagram e no Facebook (jordiatelier).

LR: E depois, o que aconteceu?

Jordi: Bom, dessa época até os 19 foi bastante agitada a minha vida. Eu era garoto, as namoradas, amigos roqueiros, a arte de alguma maneira, os quadrinhos, eram meus interesses. Numa dessas acabei realmente decidindo sair de lá. Tinha que fazer o serviço militar, que naquela época era obrigatório. Não quis fazer! E vim pra cá, para o Brasil, que me recebeu... na base da porrada! (risos)

LR: Ah, a hospitalidade brasileira!

Jordi: Não, na porrada falo da parte comercial! As pessoas se comportaram muito bem comigo, sempre! Mas claro, era muito difícil. Primeiro que eu não falava o idioma e nem tinha documentos de residência. Não poderia legalmente trabalhar, não conhecia ninguém. Então foi uma época em que, digamos, caiu a ficha! E depois tinha que sobreviver. Não queria voltar para a Espanha como fracassado. Naquela época aqui no Brasil tinha todos os super-heróis, que eram publicados pela Ebal ou pela Bloch, tinha o Tex, que era da Vecchi, depois tinha a Luluzinha, tinha o Bolinha e tinha o Fantasma, tinha o Pasquim, então tive contato com o Ziraldo. E foi lá no Rio que eu virei realmente profissional, que eu comecei a respirar desenho. Como não tinha amigos, precisava faturar, fiz uma experiência numa agência de publicidade, mas meu negócio era desenhar quadrinhos.

LR: E qual foi sua primeira experiência profissional com no Brasil?

Jordi: Então, eu trabalhei numa agência chamada A2, no Rio, mas foi um trabalho inexpressivo, fiz quatro coisas de assistência de arte e fiquei lá um par de meses. O primeiro contato que eu tive com desenho profissional aqui... bom, eu sempre desenhei, desenhava em casa, aliás, no quarto que alugava na casa das pessoas. O que estava acontecendo é que estava acabando meu dinheiro, eu não estava conseguindo entrar no mundo profissional. Mas, o que acontecia? Acontecia que estava como que num oceano nadando ali sozinho, não sabia para onde ia, mas a prancheta foi como que minha tábua de salvação. Porque eu percebi que a única coisa que poderia fazer, pra conseguir sobreviver, seria virar um bom profissional. E comecei a me dedicar. Eu sempre gostei de desenho, mas sabe como é que é. Todo mundo achava bonitinhos meus desenhos, minha mãe, meus amigos, minhas namoradas. Então, você acha que você é bom. Uma coisa é você fazer desenhos amadores e outra coisa é você estar no mercado. Eu estava concorrendo, queira ou não queira, com as editoras estrangeiras, com os melhores desenhistas do mundo que se publicavam aqui na época.

E aí tive a sorte de conseguir entrar na Casa do Desenho do Gian Calvi. Era carnaval, levava três dias sem comer, porque tinha acabado meu dinheiro, a única coisa que eu tinha era a esperança de arrumar um trabalho com Gian, que tinha marcado comigo na quarta-feira de cinzas.

Acordei às 6 da manhã, fui lá pra Paulo de Frontin, no Rio, que era onde estava a Casa do Desenho. Claro, não tinha ninguém, porque cheguei às 6 e meia. Lá pelas 8 e meia, apareceu com carro, eu fiquei na porta da garagem ali com minha pasta, e apareceu o Gian no carro, que eu não conhecia, tinha sido o Rodolfo da DPZ que tinha marcado com Gian. E aí conversamos, vi os desenhos dele, ele viu os meus, ele falou: Você desenha razoávelmente bem, mas a gente não precisa, de desenhista, ainda mais neste momento. E aí foi que eu realmente quase pulei no pescoço dele (risos). Eu falei: Eu sei que você não precisa, mas eu preciso! E aí falei 3 ou 4 coisas! Eu tinha descido quase já no fundo do poço! Não tinha opção!Precisava ir pra frente, mas pra baixo não podia ir. Tinha pagado o quarto onde morava já durante um mês. Não tinha fundos. Não passava esses problemas para os meus pais, pra minha mãe, pros meus irmãos. Eu era cabeçudo! Queria triunfar, aquela coisa. Eu falei pra ele: Olha, eu faço o que você precisar, lavo os pincéis, vou pegar café, varro o chão, tudo o que você precisar. E eu só preciso ganhar 500 reais, que é o aluguel do meu quarto. Aí o Gian foi espetacular, olhou pra mim e falou: Jordí, tá vendo aquela mesa, aquela prancheta lá? Eu falei: Tô! Então pode começar. Aí já fiquei lá. Fiquei um ano, um ano e meio lá, e consegui arrumar todos os meus documentos.
Zé da Ilha na revista Crazy nº 2, editora Bloch, 1976.

Comecei a fazer freelancer para o Edmundo Rodrigues da Bloch. Não sei se você conhece, acho que saíram dois números dessa revista, chamava Crazy, uma versão da MAD. E eu desenhava pra ele a última capa, que era o Zé da Ilha e ele me pedia coisas, me pediu piadinhas de terror, aí fiz algumas piadinhas de Frankenstein, de Drácula, mas continuava na agência.

Aí, logo depois fiquei sabendo, porque estava nas bancas, que estavam publicando o Picapau Amarelo, e que tinha um estúdio e tal. E aí me posicionei pra entrar nesse estúdio. Eles não sabiam, mas eu já estava posicionado pra entrar. (risos)

LR: E o estúdio era da Rio Gráfica?

Jordi: Era o estúdio da Rio Gráfica, na rua Itapiru, antes de ser editora Globo, porque Globo era uma editora do sul, a editora Globo, então eles não podiam ter o mesmo nome. E lá estava a Sonia Hirsch, que era coordenadora, Felipe Mello, Felipe Zanders, e lá conheci os grandes desenhistas da época pra mim, que eram grandes profissionais, lá da Rio Gráfica, e que hoje, os que estão vivos, se mantêm aí, o Gustavo, Gustavo Machado, o Itamar Gonçalves, eu sei que ele está como artista independente em Curitiba.

Então foi assim, também peguei na marra o trabalho. Eu estava na agência, mas aí a agência estava passando por um momento meio assim... apesar que chamava Casa do Desenho mas era uma agência de publicidade, estava mudando o dono. Aí chegou uma hora em que eu me posicionei do lado de um fotógrafo que estava brigando com o pessoal. Eu já estava meio cheio, já tinha os documentos, já tinha me mudado para um quarto melhor, um quarto muito legal, que era independente da casa, do lado da RioGrafica. E eu já estava decidido que iria entrar na Rio Gráfica, aí eu simplesmente discuti com o novo diretor da Casa do Desenho. O cara falou: Mas você está com o fotógrafo ou está com a gente? Aí eu falei: Olha, infelizmente eu estou com o fotógrafo! Mauro, se chamava! Porque eu gostava do cara e achava que os outros eram uns filhos da puta! Como eu não tinha nada a perder... Porque eu era sozinho, mas já tinha meus documentos, já tinha juntado uma grana fazendo freelancerzinhos, fiz umas histórias de terror que o Edmundo publicava a cores, aquelas cores horríveis que ele colocava naquele papel. Aí o que aconteceu? Fui lá na Rio Gráfica, e realmente foi um contato espetacular! Conheci o Antonino Homobono e o Fernando Bonini que já faleceram. Na Rio Gráfica também foi difícil conseguir entrar.

Fui um dia lá e consegui pegar um roteiro que já tinha sido ilustrado para fazer uma prova, e não queriam me dar! Tinha um jovem chamado Pimentel, ele era o coordenador do Sítio e da Vaca Voadora, e aí eu fui lá, ainda quando estava na agência, antes de ter essa briga, e peguei um roteiro de 7 páginas para fazer uma prova, que os caras não queriam de nenhuma maneira, eu falei: Porra, me dá aí um roteiro já desenhado só pra eu mostrar pra vocês que eu posso desenhar! Me deu o roteiro e eu fiquei a semana inteira em casa desenhando o roteiro de 6, 7 páginas. Era a Vaca Voadora? Acho que era o Sítio do Picapau Amarelo, já nem me lembro, só lembro dos personagens coadjuvantes, nos quais utilizei os Dalton, como referência, os Dalton do Morris. Eu adorava o desenho do Morris! Mas o dia em que eu cheguei lá para mostrar as provas, o cara não trabalhava mais lá! E eu já tinha saído da agência...!

LR: O Pimentel?

Jordi: O Pimentel não trabalhava mais lá! Aconteceram todas as coisas mais complicadas na minha vida! Só que estava o Norival, o Norival fazia carreira há 40 anos lá na Rio Gráfica. Um bigodinho assim e tal. Ele falou: olha, eu não posso fazer nada, eu não te pedi nada, não sei de nada! Eu tô aqui cheio de desenhistas, olha isso! Eu falei: porra! O cara quer me mandar embora daqui, com as páginas e tudo! Eu não podia voltar com um não! Aí falei pra ele: olha, Norival, a situação é essa! E expliquei pra ele. Falei: você não precisa me pagar, eu só preciso de uma oportunidade pra mostrar pra vocês que eu sou competente, que eu posso fazer o trabalho bem feito. E eu preciso! Estava confiando que o Pimentel ia ver os desenhos e acabei saindo da agência! Aí o cara ficou com um pouco de pena, e falou assim: Bom! Fica lá (risos).
Quadrinhos recentes de Jordí.

LR: Fica ali naquela prancheta!

Jordi: Fica naquela prancheta! E tinha um montão de pranchetas! Todos os caras que desenhavam a lápis tinham uma, tinha o Murilo Moutinho... Eram basicamente esses cinco desenhistas a lápis: Itamar, Fernando, Murilo, Gustavo e Antonino, que eram os fodões! Desenhistas a lápis! Desenhistas classe A! Depois fiquei sabendo que tinham várias classes. E claro, esse era o meu objetivo!

Depois tinham 15 finalistas! Era um mundo! O cara botava aqueles headphones, pegava nanquim, pegava as páginas... Eu lembro que passávamos do lado, com óculos escuros, e você olhava e você via que o cara estava dormindo, mas com o pincel entintado a um centímetro da página! (risos). O cara dormia ali, sentado! Ou seja, não tinha muito interesse profissional!

E éramos todos gente jovem! Ninguém estava muito preocupado com o desenho. O único que estava preocupado era eu, entendeu? Porque os caras já estava ali! Acontecesse o que acontecesse, já estavam lá! Uns tinham chegado para esse projeto, outros já estavam lá, desenhando Bolota, Tininha, Fantasma. O Walmir trabalhava lá. Que agora lançou um livro nessa editora de esboços, um sketchbook. Eu até tenho um desenho original do Walmir e tenho algumas caricaturas que o pessoal me fez na época. Tenho uma do Moutinho e uma do Gustavo. E tenho um desenho muito legal de uma mulher e de um cara, do Walmir. O cara desenhava com uma facilidade, aquela maestria do pincel. Basicamente foram esses os inícios.

E depois de 15 dias de ficar lá na mesa, eu dei um jeito de que me contratassem! (risos)

LR: Quem eram os roteiristas nessa época?

Jordi: Tinha o Felipe... tinha um que pensava que era o René Goscinny, como se chamava? Demasi! Domingos Demasi. Depois tinha o Felipe, era um nervosinho, não lembro dos nomes, mas lembro das figuras, porque passavam por ali. Tinha uma sala fechada com vidros, um aquário onde ficavam os diretores, o Felipe, o Demasi, os dois Felipes entre outros. Eu comecei a desenhar muito e fiquei amigo do Antonino. Enquanto o pessoal estava ali meio trabalhando e depois de tarde iam cair na gandaia e buscar garotinhas, eu saia e ia pra casa desenhar. Porque não tinha opção! Minha opção era ficar craque na época, era me dedicar, me dedicava doze horas por dia ao desenho, tinha um calo aqui (apontando a mão), do lápis! Acordava as sete da manhã e ia dormir meia-noite, desenhando o dia inteiro! Aí emplaquei!

LR: Depois de 15 dias desenhando...

Jordí: Depois de 15 dias! Teve um dia que chamei o Norival. Era sexta-feira, todo mundo tinha ido embora, olha, precisamos decidir hoje como vamos fazer. Minha pilha de desenhos tava desse tamanho (faz um gesto de uns 60 cm), e tinha outros que também queriam entrar lá, que já eram da própria Rio Gráfica, mas os caras faziam duas páginas, finalizadas, desenhando mal... E eu tinha uma puta pilha de desenhos, e claro, só copiava os feras, Fernando Bonini e tal... Os model sheets eram do Fernando, porque o Antonino, o Murilo, desenhavam melhor que o Fernando, só que o Fernando tinha aquele estilo Disney, e os caras adoravam. Ele era assistente do Primaggio, e ele saiu daqui de São Paulo pra ir pra Rio Gráfica, e o assistente dele era o Gustavo. Gustavo aprendeu muito com o Fernando. E eu aprendi muito com Gustavo e Fernando. As vezes pegava lay outs do Antonino... Porque tinha quatro fases, lay out, desenho a lápis, depois a finalização a nanquim e depois o colorido, eram coloridas as xerox com guache e depois eram aplicadas as retículas. Era feito tudo à mão, não tinha essa de computador.
Eu estou me estendendo um pouco porque essa é a parte mais emocionante! (risos).
Jordí retrata garotas de maneira muito especial.

LR: Fique à vontade!

Jordí: Porque eu não consigo esquecer, mudou minha vida de repente! E aí o que aconteceu? Aí começaram a aparecer livros da Bloch. A Bloch pegou a franquia do Sítio do Picapau pra fazer livros de texto, matemática, português e tal. Aí chamaram os feras, o Gustavo, o Fernando pra desenhar, só que esses caras não queriam desenhar mais, eles já estavam lotados, aí acabou sobrando pra mim! Acabaram sobrando para mim. Aí tive um outro contato na Bloch, que já era outro canal, uma moça chamada Cambraia, que era do departamento de livros didáticos e pedagógicos da Bloch. A Bloch, da revista Manchete, ali no Flamengo, aqueles prédios lá. Inclusive não me deixaram entrar uma vez, porque eu estava de camiseta e o Edmundo teve que me mandar uma camisa velha que ele tinha por lá, senão eu não entrava! (risos)

O Edmundo gostava de mim, não sei por que! Acho que ele ficava com pena! Porque eu era o cabeludo que aparecia por lá sem eira nem beira, do nada, pedindo trabalho! E o cara não sei por que gostou de mim! Deve ser por que eu cumpria os prazos!
O Sítio do Picapau Amarelo pela Bloch. Capa de Jordí, ilustrações de Gustavo Machado e Jordí. À direita: Jordí (de pé) e Antonino na Rio Gráfica.

E aí o que aconteceu. Como tinha muito freelancer da Bloch, no meio disso tudo também eu tive contato com o Otacílio (Ota), na Vecchi, comecei a fazer algumas histórias. Inclusive aí eu fiquei sabendo que o Ota é quem fazia os roteiros das histórias dos Trapalhões que eu desenhava pra Bloch. Ele e o Evaldo da Rio Gráfica. Eu conhecia o Evaldo (de Oliveira) como desenhista, mas ele escreveu os roteiros dos Trapalhões pra Bloch também!

Peguei algumas histórias pro Antonino fazer comigo. Claro, pra mim o Antonino era o máximo! Era um puta mestre do desenho. Eu diria que foi o melhor desenhista de quadrinhos que foi meu amigo! Aí fiz um par de roteiros e o Antonino adorou fazer parceria comigo! Por que o que aconteceu, o Antonino tinha vindo lá do Macapá, tinha alguns frelancers, já desenhava muito bem, e tinha aquele negócio do Picapau Amarelo. Mas ele estava de sacanagem lá, ele não tava a fim, ele gostava de desenho sério, não de desenho cômico! Ele não suportava aquela equipe ali da Globo, e depois ele era meio guerrilheiro, era de esquerda! Como eu. E tivemos uma identificação muito legal e fizemos um par de histórias. Inclusive são histórias que o Francisco Ucha quer publicar agora em formato de livro.

Aí entre os trapalhões, os livros didáticos e o que estava surgindo na Vecchi, eu já não dava mais vazão, já tinha muita coisa e faturava mas de que com meu salário na RGE, que tinha me contratado...!

Não te contei a história mas foi assim: Depois de 15 dias lá chegou sexta-feira! Aí de manhã peguei a minha pasta. Eu fazia os desenhos lá, na Rio Gráfica, depois chegava em casa e ficava copiando o Ziraldo, ou fazendo desenhos de políticos, ou fazia desenhos de terror o dia inteiro, só pensava nisso aí. E aí, cheguei com a pasta, peguei uma pilha de desenhos, desenhos que tinha trazido da Espanha, desenhos que tinha feito aqui, já com aquarela, já estava experimentando cores e tal, cheguei de manhã no aquário e falei: Olha, Felipe, você não me conhece, mas já deve ter me visto, porque estou sempre por aqui. E eu não falava com ninguém, só ficava ali numa mesa, tão pouco falava com ninguém, porque só queria desenvolver meus desenhos pra provar que era um bom negócio me contratar. E disse: olha, Felipe, desculpe estar te colocando nessa situação mas preciso de uma decisão, porque o outro, o Norival, cada vez que eu ia falar ele ia tomar um café! (risos) Era coordenador mas não queria tomar decisões, e o outro era chefe dele, que estava diretamente ligado ao Felipe Zander, que era chefe da Rio Gráfica. Aí, deixei ali a pasta. Ele falou: Tudo bem! Eu vou ver depois, vou ficar com ela. Aí passou o horário do almoço, chegou 6 horas, todo mundo já indo embora, chegando o horário, e eu ficando ali, olhando ali pra gaiola, estava a uns 100 metros da gaiola, e naquela gaiola não parava de entrar e sair gente e eu ali desenhando e olhando a gaiola, deram as 19h, eram as 20h e nada! E eu fui ficando o último ali, o único! E eu disse: só saio daqui quando me digam vá embora pra casa! De repente, tipo 15min pras 21h,o Felipe sai da gaiola com a minha pasta e pensei: Pô! Vai me mandar embora! Aí o cara fala: aguarda um momento que eu vou falar com o Zander pra ver esse teu negócio! Aí era nove, nove e quinze, nove e meia, aí dali a pouco volta o cara! Era baixinho, era moreno, fumava que nem um louco, aí disse: Olha! vamos te contratar! Só que... ele falou: Só que... como desenhista D...! Eu falei: Ah!!!!
No dia seguinte todo mundo começou a encarnar! Ah, Jordí agora é desenhista D... débil mental (risos). Porque... o Antonino era AA, o Fernando era AA, o Itamar era B+, o Murilo era B+, o Gustavo também, entendeu? E eu era o pior de todos! A ralé da ralé! E aí foi legal, fiquei uma ano super feliz.

E depois chegou uma hora que tinha muito freelancer: na Vecchi, eu já criava histórias de terror e tal, e ia muito bem com o Otacílio, fui numa festa na casa dele, fiquei alucinado quando vi a gibiteca dele!
Jordí no Almanaque Sobrenatural nº 6, editora Vecchi, 1981.

O cara era completamente doido! O cara ganhava grana! Ota era o editor da MAD! Não só da MAD, de Tex, Sobrenatural, Chacal, Spektro, Skorpio, um monte de revistas! Adorava ir lá naquele cubículo dele, adorava aquele cheiro de papel! Sempre tinha revistas importadas, e foi um contato legal. Não que fosse meu amigo nem nada, era uma relação comercial. era meu amigo porque acabou virando meu amigo. porque era maluco por quadrinhos, como eu.
Éramos colegas, apesar de que ele era meu chefe! No fundo estávamos ligados e eu estava desenhando os roteiros dele, dos Trapalhões, sem saber que eram dele. E aí o que aconteceu? Saí da Rio Gráfica e me estabeleci como freelancer. Fiquei 5 anos só desenhando quadrinhos!

LR: E aí você fazia pra Bloch...

Jordi: Pra Bloch, pra Vecchi... pra Bloch tinha bastante coisa!

LR: Pra Rio Gráfica?

Jordi: Não, pra Rio Gráfica parei quando saí. Parei porque meu trabalho era de fornecimento ali como funcionário, mas tinha essas duas que me enchiam de trabalho. Porque a Bloch tinha dois departamentos. Tinha o Edmundo de um lado que era esse seriado dos Trapalhões. Fazia em papel sulfite, eram histórias de 60, 70 páginas! Fiz umas 8 ou 10 histórias.
Jordí na revista Sexo em Quadrinhos nº 29, editora Grafipar, 1980.

LR: E pra Grafipar?

Jordi: Foram poucas, participei de um encontro de quadrinhistas da Grafipar em Curitiba, mas não fiz mais que meia-dúzia de histórias para a editora.

Aí peguei O Chacal na Vecchi. Na Vecchi eu já fazia muito quadrinho. Fiz um personagem que chamava Tony, o roqueiro diabólico, nas revistas de terror! Quem fazia o roteiro era a gente também, eu e Zezé, minha mulher. Era inspirado em um amigo que tínhamos, chamado Tony, que era roqueiro e aí bolamos esse Tony, o roqueiro diábolico e fizemos essas histórias. Saiam histórias de 6, 8 páginas nas revistas Sobrenatural e Spektro...
Jordí esteve presente na segunda reunião de desenhistas da editora Grafipar, Curitiba, abril de 1980 (foto cortesia de Sebastião Seabra).

Aí o que aconteceu foi o seguinte: Peguei O Chacal que me dava um trabalho do cão! Eram 80 páginas por mês! Saia uma vez por mês e eu fazia tudo! Quer dizer: acordava as 8 da manhã, ia dormir às 10 horas da noite, desenhando o dia inteiro! No início fazia bem caprichado, fazia os desenhos a lápis pra ganhar a concorrência. Porque teve uma concorrência com outros desenhistas! Participaram dois ou três desenhistas. Só que ninguém tinha estômago como eu! Eu era como um burro de carga, eu tinha aquela viseira! meu negócio era só aquilo, não pensava em outra coisa. Já estava casado, já estava direcionado. E aí fiz 8 ou 10 números do Chacal, fiz os Trapalhões, um montão de livros didáticos e aí foi acabando o trabalho. Por que? A Vecchi concordatou, começou primeiro a atrasar os pagamentos , aí já vi que o negócio ia mal. Na Bloch igual, começou a andar mal das pernas, começou a atrasar os pagamentos também. Aí acabei indo fazer... isso foi legal porque fiz uma mudança de estilo muito forte... Eu comecei com o desenho cômico porque era mais facil.Enquanto isso eu já estava me preparando pra fazer desenho sério. Aprimorando o desenho sério, trabalhando com o Antonino, trabalhando com revista de terror. Então, enquanto estava fazendo O Chacal, eu senti falta de dominar a pintura, a técnica da pintura! Não tinha muito ideia do que era a escala cromática, como se trabalhava com cor. Porque nunca estudei... bem, estudei muito, até hoje, estou cheio livros em casa, mas nunca fiz um curso formal. Bom, já fiz um curso com o Cárcamo, pra não dizer que nunca fiz. Três dias, de duas horas por dia! (risos)
Revista Chacal, editora Vecchi, 1981.

Bom, resumindo! Aí, me preparei pra pintar, de manhã desenhava e de tarde pintava, pintava meus filhos, pintava a cores e pintava com aguadas, aquarelas, o tom. Passei pro mundo do tom, saí da linha do desenho e fui pro mundo do tom e da cor e da construção da imagem. Aí, foi uma sorte tudo isso, porque eu levei praticamente um ano e meio, dois anos, pintando a óleo de tarde, todas as tardes saia pra pintar. Aí, acabou que eu ganhei uma medalha de ouro com um quadro de minha mulher, um quadro quase do tamanho real dela regando as plantas. Aí saímos do Rio e fomos pra Petrópolis. Moramos 4 anos lá. Porque tinha muito freelancer, não precisava da cidade. Não gostava do Rio, muito calor e tal. Então estava em Petrópolis e atendia as editoras do Rio. Mas era difícil, descia duas vezes por mês, mas era difícil, e tivemos os filhos, e as editoras começaram a falir, começaram a concordatar, e acabei pegando... Não sei se você lembra de uma editora chamada Monterrey?

LR: Monterrey? Fazia livros de bolso.

Jordi: Então, fazia livros de bolso! E o que aconteceu? O Antonio Ribeiro, que era o roteirista do Chacal vinha até Petrópolis, o Antonino também.Comíamos lá, ficávamos falando de quadrinhos, desenhando... O cara me apresentou o editor da Monterrey, era Sanches... Martinez... não me lembro! Só sei que eu fui lá pensando que ia comer o mundo ali, fazendo as capas. Aí fiz uma capa na aquarela, mas era pobre. Imagina, pintava as aquarelas em cima de eucatex pintado de branco! (risos) Era guache, não era aquarela! E guache vagabundo! O trabalho tava bem desenhado mas era pobre. Cheguei lá, o cara olhou... (balançando a cabeça) e disse: não está legal... Aí ele olhou pra mim, olhou pro lado, pra um armário, sabe esses armários de escritório, de metal? Que tinha ali do lado.
Capa para a coleção Oeste da editora Monterrey. Início da década de 1980.

LR: Sim, cinza...

Jordi: Verde escuro. Aí o cara levantou, foi até o armário, abriu o armário... e.. tinha centenas de capas! Naquele papel schoeller, montado! Aí ele pegou ali uma e falou: Olha! Dá uma olhada! Eram originais do Benício!!! Aí eu vi aquelas capas e falei: Caraca!!! Tô fudido! Aí falei: Vou tentar fazer! Encurtando, fui pra casa, fiz mais capas com guache, cheguei lá, e tava uma merda! Não podia comparar com Benício! O cara usava guaches Talens, sabia fazer, usava fotos, tinha tudo! Tudo o que ele precisava pra fazer! E sabia fazer, ainda por cima!

Mas foi assim. Aí levei mais uma ou duas vezes capas, e o cara olhava e nada! E eu já estava começando a ficar desesperado, porque a Vecchi não pagava, o outro não pagava... A família da minha mulher não tinha grana, e eu tampouco, vivíamos de aluguel, tínhamos dois filhos já. Aí um dia minha mulher me falou: Pô! Jordi, faz a óleo! Que é uma coisa que você domina. Aí fiz um assalto à diligência, a óleo, deste tamanho! Quando cheguei lá com o óleo, o cara falou: Ohhhh! Claro, nunca tinha um visto o óleo! Porque o Benício desenhava tudo assim pequenininho! Formatinhos, né? E aí ele começou a me contratar, comprou aquela, que ele pendurou ali, do lado, e eu comecei a fazer a óleo! Mas, claro, demorava a secar, e eu falei: Não, tenho que aprender a fazer guache. Mas aí já estava amigo do cara e falei: Não quer me emprestar umas capas dessas? Aí o cara me emprestou umas 20 capas! Logo que cheguei em casa: Ah, deixa ver! Fiquei cheirando, olhando com lupa, lambendo..e decidi tentar fazer igual... e acabei conseguindo fazer. Não igual, porque sou outra pessoa, mas comecei a dominar as transparências, os empastes, trabalhar com foto, composição, comecei a utilizar boas tintas e tal. Mas eram 50 reais por capa! Cheguei a fazer umas 50 capas!

Só que chegou uma hora que eu falei: Vou pra São Paulo. Vou pra São Paulo porque aqui tá uma merda! Quero ir lá, conhecer a editora Três, quero ver a Abril. Nunca tinha estado aqui. Tinha ficado por lá. Levava oito anos lá! Sete, oito anos! Aí vim pra cá e tive a sorte de encontrar o Rodolfo de novo. Rodolfo era o argentino que na época ele me marcou a entrevista com o Gian. O cara gostou de mim. Era um argentino artista, era o diretor de criação da DPZ no Rio. E aqui ele era diretor de criação da MPM. Aí, quando cheguemos na casa do Rodolfo no Pacaembu,alucinamos.O cara tinha uma sala onde ele pintava seus quadros a óleo tamanho gigante, tinha um videocassete, coisa que ninguém tinha na época, aquela janta farta e tal. Aí comentei que tinha marcado com o Petit e o Rodolfo falou: Pô, Jordi, se você é catalão o cara vai te dar o emprego! mas eu não ia querer um emprego, eu tava querendo era freelancer, uma coisa ou outra, eu queria ser é ilustrador. E aí, saímos de lá, tomamos um vinho, e eu me lembro que minha mulher, a Zezé, de noite antes de dormir, me falou: Jordi, amanhã não vai me perder o emprego, hein?(risos).

Tive que ir lá na DPZ e conquistar o emprego. Sendo que eu chego lá na DPZ com minha camiseta branca, o cabelo cortado num cara bem baratinho, aquela coisa pobre. Na DPZ era todo mundo rico! Tanto que quando eu entrei na sala do Petit, tinha um tapete branco dessa altura! Tapete branco, sim! A gente mal tinha tapete no banheiro. Aí falei com o Petit, e o cara muito esnobe: Mas não precisamos do que você faz! (risos) Aí no final, o cara já tinha levantado para que eu fosse embora, e eu ali sentado, fingia que não tava vendo nada. Falei: Olha, Petit, sei que pode parecer estranho, já tenho 27 anos, sei que já estou um pouco atrasado, e vocês são uns puta craques e tal, o que posso te dizer é que estou pronto para aprender, e tenho disposição para aprender. Não estou preocupado com salário, com nada. tenho disposição total de horário, e o cara viu que não poderia me mandar tipo: Vai, vai embora! Porque eu tocava o âmago dos caras! Eu sabia que era um bom negócio pros caras! Só que eles estão cheios de gente pra fazer bom negócio! Mas aí ele chamou o Brasílio Matsumoto. E eu me dei superbem com o Brasílio. Ele adorou meu trabalho. E falou que o Petit não queria me contratar, eu falei: Mas por que? Ele falou: Ele não deixou muito claro, mas eu acho que era por causa da idade. Eu tinha 27 e o Brasílio 25 e já era um puta craque! Desenhava coisas que eu não sei desenhar! Motos, animais, o cara é um monstro do desenho! Eu saí de lá e nem falei tchau pro Petit, só me despedi do Brasílio. Eu acompanhava a revista Propaganda, gostava de design, mas minha praia era outra, gostava de ilustração! Mas já tinha dois filhos, as editoras falindo, precisava entrar na publicidade. Já tinha trabalhado em Barcelona com um amigo meu que montou um estúdio de design. Ele tinha um estúdio e eu passei a ajudar ele e aprendi muita coisa. Aí eu me lembro que estava voltando pra Petrópolis, umas 7 horas da noite e liguei para o Brasilio ..da estrada..! E me disse: Jordi, vamos te contratar! pode vir na segunda. Aí minha vida mudou da noite pro dia.

Aí comecei a fazer freelancers pra própria DPZ, ilustrações pra Johnson's, pra Estrela, pra Nestlé. Eu chegava antes de todo mundo e quando o Brasílio chegava eu já tinha resolvido dois ou três jobs para ele, que era diretor de arte e chefe do estúdio e ao mesmo tempo ele criava, fazia dupla com o Stalimir Vieira! O primeiro foi um cartaz de ponto de venda para a Nestlé que eu fiz o rafe ele olhou e disse: Tá perfeito! Era uma campanha que tinha um forte-apache, depois ainda fiz um logotipo forte-apache ilustrado que ficou lindo, o Brasílio me deu uns toques e tal. Aí comecei a anunciar na Talento (guia de ilustradores). Tive um convite pra montar a área de criação de uma agência, a PSR.Depois de dois anos essa agência ficou pequena pra mim, porque eu tinha muito potencial de trabalho, de desenho. E abri uma em casa, peguei como clientes a Ecodata, o Tastings... Depois de um tempo a agência tinha tomado conta do apartamento!
Jordí no anuário Talento, 1990.

LR: Como chamava sua agência?

Jordi: Ingrupo Propaganda. Primeiro Ingrupo Design e Comunicação e depois virou Ingrupo Propaganda.

Começaram a aparecer clientes. A Sony, Citigroup, Fórmica... Nós levamos a Farmais, zero a 750 lojas! Tambem lançamos 5 ou 6 shoppings para a Savoy. Ficamos especializados em franquia: A Bit Company e a Monkey entre outras.

Até que eu tive um problema de saúde e fui me desmotivando do dia a dia publicitário. A Ingrupo nunca chegou a ficar muito grande, chegou a ter 35 funcionários, mas nós tínhamos um negócio especial: Dois turnos, não fechávamos! Durante 5 anos, dia e noite, sábado e domingo! Não tínhamos um custo muito alto e tínhamos uma estrutura muito ágil. O desenho sempre foi o diferencial na nossa agência, porque sempre foi muito fácil pra mim. Não só o desenho, mas a imagem. Aí começamos a trabalhar com as fotos digitais, muito photoshop, fazíamos desenhos, alguns photoshopados, de perspectiva, fazíamos perspectivas de shopping desse tamanho, fazíamos coisa que só quem dominava a imagem, o desenho, conseguia fazer.

Aí depois de 20 anos de agência vendi e abri um atelier e passei a me dedicar só a arte.


LR: Sua agência é ativa ainda?

Jordi: Sim, mas eu vendi, foi comprada por um pessoal que foi criado na agência. 

Aí me aposentei, fui morar em Barcelona e me dediquei só a arte. Fiquei quase 10 anos em Barcelona. Aluguei um apartamento lá e vinha aqui de férias, de vez em quando, de dois em dois anos, de três em três anos, depois um pouco mais.Em Barcelona tem uns lugares com oficinas de gravura, de escultura, de desenho, com sessão de modelo vivo das oito da manhã às nove da noite. Fiquei durante todo esse tempo só fazendo isso. Nesse meio tempo redescobri a grande arte, e aí comecei a ir a todos os museus, comecei a copiar os clássicos, Velázquez, El Greco, Daumier, Van Dick. Comecei a descobrir os fodões, o Vermeer, Bruegel. As minhas férias era ir, por exemplo, pra Viena e ficar em frente ao museu principal. Pra Madrid fui 5 vezes, já ficava no hotel NH em frente ao museu do Prado. Acordava as oito da manhã, ia pro Prado, ia pra casa, tirava uma sonequinha, voltava pro Prado, aí ficava 8 dias. Três pro Prado, três pro Rainha Sofia e dois pro Thyssen. Então, tomei um puta banho de arte. Só me dediquei a isso. Comecei a fazer desenho do natural e depois comecei a fazer caricaturas, que eu sempre gostei também.
E aí foi isso. Depois me cansei de ficar por lá e voltei para o Brasil.Agora, me comporto como profissional, se eu não desenhar cinco horas por dia hoje me sinto mal!

LR: E você não tem saudade da tela, da tinta, do pincel?

Jordí: Não, porque o digital foi uma revolução na minha vida! Hoje eu tenho um quarto lotado de telas a óleo grandes, carvões grandes, tudo trabalho que eu fiz aqui com modelos a óleo, pasteis, aquarelas. Tenho ali tudo guardado. Esculturas! Fiz muita escultura, também me ajudou bastante! Mas chegou uma hora que a coisa muito realista, muito fotográfica deixou de me interessar.
Hoje estou num ponto em que quase já nem esboço... A não ser que esteja fazendo um trabalho um pouco mais comprometido e tal. Vou fazendo direto e o que sai já fica.

LR: Excelente! Obrigado.

Jordi: Abraços, agora vou pintar!

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Machado, o cortante - Correio do Estado - 1992

Criado pelo cartunista Juska (Francisco Juska Filho), Machado, o cortante, foi publicada no Correio do Estado, de Campo Grande, MS, em 1992, além de muitos outros jornais pelo Brasil, com distribuição da agência Pacatatu

Como podemos perceber pela imagem, a série apresentava vários outros personagens.

Sobre Juska: "JUSKA - Brasil (1956)

Francisco Juska Filho nasceu em 1º de setembro, em Santo Angelo, no Rio Grande do Sul. Como cartunista, teve trabalhos publicados na revista Carrinho e nos jornais O Pasquim e Entrelinhas.

Foi coautor dos livros QI 14 e Tubarão parte II. Participou de várias exposições de humor, e a partir de 1989, tornou-se editor e colaborador de Megazine (depois do segundo número Mega Quadrinhos). Sempre com roteiros de Flavio Braga, realizou histórias de excelente nível, onde mistura o cotidiano da classe média com situações eróticas às vezes mórbidas.

Alguns títulos: Sob medida, Bodinho vai ao paraiso, Dulce, Verinha-Verão, Pausa, Oskar Galhão, Os dissolutos, Midia terminal e Deus é de direita. Depois de 1990: Transpirando na Charge (Ed. Fotoletras, 1992) e E nas coxilhas não vai nada? (Câmara Rio-grandense do Livro, 1997) — nesse último, contou com roteiro de Julio Z. Vieira. Colaborou ainda nos álbuns coletivos Separatismo — corta essa! (L&PM, 1993), Humor nunca dantes navegado (Secretaria da Cultura RS/Grafar RS, 2000) e Edição de risco (Ed. Tinta China, 2005)".
Enciclopédia dos Quadrinhos - Goida e André Kleinert, L&PM, 2014

Juska na revista Mega Quadrinhos, 1989.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

José Lanzellotti - 1926-1992

A reportagem a seguir foi publicada na revista Manchete de 12 de junho de 1971 (nº 999) e fala sobre a carreira do grande ilustrador e quadrinhista José lanzellotti. Em seguida poderemos ler uma pequena biografia elaborada por Jussara Lanzelloti, sua filha. Aproveitem!
À esquerda, página de Raimundo, o cangaceiro, nº 2, editora Pan Juvenil, 1966. À direita, ilustração de Lanzellotti para o livro A Técnica do Desenho, de Jayme Cortez, editora Bentivegna.

JOSÉ LANZELLOTTI PERCORREU TODO O INTERIOR DO BRASIL E FEZ UM RIQUÍSSIMO LEVANTAMENTO DE TIPOS, COSTUMES E OBJETOS DE ARTE POPULAR.

O DEBRET DO SÉCULO 20

José Lanzellotti é um artista singular. Nascido em São Paulo, descobriu ainda adolescente a sua vocação de pintor. Era essa, como ainda hoje, uma época de muitos ismos, todos internacionais: cubismo, abstracionismo, concretismo. Desprezando as figuras, os pintores se refugiavam na geometria, ou então realizavam obras baseadas unicamente na imaginação. Lanzellotti, tão humilde quanto obstinado, preferiu pintar a realidade. Para fazê-lo, tornou-se uma espécie de pioneiro dos hippies. Mochila às costas, viajou a pé, de jangada, carro de boi e trem. Assim correu o Brasil de ponta a ponta, evitando as grandes capitais. Nas pequenas cidades do interior e nas aldeias indígenas, foi construindo uma fabulosa coleção de pranchas nas quais, a nanquim e a cores, aparece reconstituído em seus mínimos detalhes o Brasil autêntico, com as roupas típicas do povo, suas armas e utensílios indígenas, as festas folclóricas.

O resultado de todos êsses anos de pesquisa e trabalho tem grande valor artístico e também científico, pois representa o mais completo levantamento etnológico e de costumes de nosso país, neste século. Uma única vez Lanzellotti se apresentou ao público, em exposição organizada em São Paulo pelo escritor Afonso Schmidt. Encantado com os desenhos-documentários, Schmidt definiu Lanzellotti numa frase que dá bem a idéia do valor de seus trabalhos: “Ele é o Debret do Século 20.” Agora, suas pranchas serão divulgadas em luxuoso álbum patrocinado pelo Conselho Estadual de Cultura de São Paulo. Um público constatará, desta forma, que Lanzellotti conseguiu tornar verdadeira a frase de Monteiro Lobato, que adotou por lema: "A arte, quanto mais nacional, mais internacional se torna".
Acima: José Lanzellotti em seu estúdio, vaqueiro nordestino em jaleco e gaúcho com poncho de verão.

José Lanzellotti estava com 17 anos em 1949, quando foi organizada uma expedição ao Roncador-Xingu, chefiada pelo Dr. Silvio Greco, um médico que ia ao encontro dos Irmãos Villas-Boas. Do grupo faziam parte engenheiros, médicos, sanitaristas e fotógrafos. Faltava um desenhista. Por intermédio do fotógrafo João Ficker. Lanzellotti conseguiu o lugar de documentarista. A viagem foi fascinante. Com o bico-de-pena, ele transportou para pranchas a estrutura da arquitetura das malocas indígenas, os traços e a arte da cerâmica, da escultura, as armas e utensílios fabricados pela técnica milenar dos índios. Desse material, parte se perdeu num naufrágio, lá mesmo no Xingu, e o resto ficou com o chefe da expedição. Entretanto, alguns esboços em papel de seda ficaram com o autor.

Depois dessa primeira viagem, Lanzellotti ficou convencido de que era possível realizar a mais completa documentação etnológica e de costumes do Brasil. Com essa decisão, saiu pelo país, mochila às costas. Pacientemente estudou as manifestações artísticas do povo, seus costumes, e as diversas peculiaridades regionais. Procedia como Villa-Lobos, que convivia com índios e caboclos para aprender, deles, a arte tropicalista autêntica, sem as deformações cosmopolitas da arte das grandes cidades.

Um dia o dinheiro acabou e ele teve que parar. Faminto e em andrajos, veio viajando por favor até chegar ao Rio, onde conheceu o Professor Darci Ribeiro, do Museu do Índio. Este, após examinar os trabalhos do documentarista, declarou que era excepcional a qualidade das pranchas. Alguns dias depois, no entanto, numa , crítica objetiva e honesta, lembrou a Lanzellotti que há grande diferença entre o documentário e a arte. Na arte, o que é exótico se mistura com o que vem do gôsto estético do criador, enquanto o documentário exige que o artista se submeta a um critério científico rigoroso. O Professor Ribeiro ensinou a Lanzellotti um método para a realização de seu trabalho, dando-lhe livros de etnologia e folclore para que pudesse aprofundar mais seus estudos e observações.
Acima: índio da região sul de Mato Grosso e a jangada nordestina.

Nessa ocasião, Lanzellotti expôs os seus desenhos-documentários na antiga Galeria Lotis Seavers, de São Paulo. O objetivo da exposição era chamar a atenção das autoridades para seus trabalhos, a fim de completar uma pesquisa sistemática em todo o país, coisa que somente poderia fazer com ajuda financeira. Todos os que viram a exposição, a começar pelo escritor Afonso Schmidt, foram unânimes em reconhecer na obra de Lanzellotti o equivalente da obra de Debret no século 20. Os mínimos detalhes dos trajes, técnicas artesanais, artes, folclore, danças, costumes e até alimentos ou técnicas de preparação de alimentos estavam definidos nos traços finos de nanquim, documentando um Brasil dos nossos tempos como nenhum outro artista conseguiu fazer.

Apesar de ter vendido todas as pranchas que expôs e apesar dos esforços de Afonso Schmidt, o artista não conseguiu impressionar nenhum gabinete governamental. Contudo, o Professor Darci Ribeiro veio mais uma vez em seu auxílio. Graças a ele, Lanzellotti conseguiu recursos para pesquisar e, tendo acesso ao Museu do Índio, pode documentar todas as peças ali existentes, como arte plumária, armas, cerâmica etc. Mais tarde, o Professor Herbert Baldun lhe franqueou o Museu do Ipiranga, de São Paulo, de que era diretor. Para que o artista complementasse o trabalho iniciado no Museu do Índio, foi designada a etnóloga Vilma Chiara para orientá-lo.

Em 1956, Lanzellotti se casou e teve que abandonar as viagens para sustentar a família. Assim terminava a sua grande aventura pelas estradas do Brasil. Recentemente, parte de suas pranchas foram adquiridas pelo Conselho Estadual de Cultura de São Paulo. Elas serão publicadas em luxuoso álbum que terá texto do Professor Maynard de Araújo. De qualquer forma, ele conseguiu aquilo que pretendia desde jovem, isto é, ter uma visão nacional da arte. Além dos documentários, ele é também pioneiro das histórias em quadrinho em nosso país, tendo criado o personagem Raimundo, o Cangaceiro, que acabou sendo transformado em figura mitológica no sertão, a ponto de Vitalino reproduzi-lo em bonequinhos de barro que se vendiam rápidamente na feira popular de Caruaru, Pernambuco.

Com extraordinária riqueza de detalhes, José Lanzellotti reconstituiu o Brasil de hoje. Suas pranchas representam uma vasta coleção na qual esse Brasil aparece em nítidas imagens. Ele fez o levantamento dos objetos (esculturas, máscaras, cerâmica) fabricados por tribos indígenas. Fixou também, em cores, alguns exemplos da técnica popular, como a jangada nordestina, a casa sobre palafitas da região amazônica e a barcaça com carranca da região do rio São Francisco. Do Brasil humano também nos dá retratos fidelíssimos, mostrando o tipo físico e os trajes típicos do gaúcho, do vaqueiro nordestino, do cangaceiro, da baiana com tabuleiro etc. Ainda que sua obra seja considerada simplesmente fabulosa, ele lamenta não ter podido (faltou dinheiro) fazer o levantamento sistemático e completo do Brasil inteiro. Mas, em suas andanças, observou pacientemente os diferentes Brasis que se apresentam em pelo menos dez estados. Tal como Debret, sua obra tem valor artístico, histórico, etnológico e folclórico. Sua curiosidade, transformada em pranchas coloridas, abrangeu, em cada cultura visitada, das danças aos rituais religiosos, da arquitetura primitiva à cerâmica utilitária.

Os tipos físicos e os trajes típicos das diversas regiões brasileiras foram também reproduzidos com rigor científico. Lanzellotti vai ter sua obra reproduzida em luxuoso álbum que está sendo feito em São Paulo.
À direita, model-sheet para o filme animado Canta Brasil, reproduzido no livro Anos 50 - 50 anos, de Álvaro de Moya, editora Opera Graphica, 2001. À direita, página de Lanzellotti para a revista Curupira nº 1 da editora Bentivegna, 1967.

Um pouco sobre a vida de José Lanzellotti:

Lanzellotti, filho de Bartholomeu Lanzellotti e Filomena Lanzellotti. Nascido em 21 de julho de 1926 na cidade de São Paulo-capital. Viajou por todo o Brasil em pesquisas folclóricas e das raízes culturais do nosso povo. Em 1949 (19 anos) fez parte da expedição Roncador-Xingu, com os irmãos Villas-Boas, de onde resultaram vários trabalhos de análise e documentação da cultura indígena.

Autor de diversos livros sobre etnologia. Desenhista, pintor, escultor, cenógrafo, figurinista de teatro, cinema e televisão, trabalhou e colaborou em diversas editoras. Participou também de exposições de pintura.

Seu nome consta dos melhores dicionários de artistas plásticos, assim como: 
  • Dicionário do MEC em 4 volumes;
  • Dicionário de Roberto Pontual;
  • Dicionário de Pedro M. Bardi;
  • Mestres da Ilustração de Jayme Cortez;
  • The Word encyclopedia of Comic - Maurice Horn, 1977;
  • História de Los Comics - fascículo 44 - texto de Álvaro de Moya - Toutain Editores, 1982;
  • Enciclopédia dos Quadrinhos - Goida - L&PM Editores.

Dentre suas realizações podemos mencionar:
  • Índios e arte indígena - Documentário de etnologia com 150 desenhos em cores;
  • O roteiro do filme Canta Brasil (desenho animado);
  • Oeste abandonado, documentário da vida cabocla desenhada em cores com 100 pranchas;
  • Trajes típicos do Brasil, documentário em cores com 120 pranchas;
  • Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro, com 640 desenhos em preto e branco;
  • Ilustrou o Atlas de Educação Moral e Cívica do Ministério da Educação e Cultura - Jarbas Passarinho.

Lanzellotti se apresentou ao público, em exposições organizada em São Paulo pelo escritor Afonso Schmidt. Expôs os seus desenhos, documentários na antiga Galeria Lotis Seavers, de São Paulo.

E além dos documentários, ele era pioneiro das histórias em quadrinhos em nosso país, tendo criado o personagem Raimundo, o cangaceiro, que acabou sendo transformado em figura mitológica no sertão, a ponto de Vitalino reproduzi-lo em bonequinhos de barro que se vendiam rapidamente na feira popular de Caruaru, Pernambuco.

Participou em abril/2000 (já falecido) da exposição Senhores da Terra no Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuire da cidade de Tupã.

Para Lanzellotti, seu trabalho mais importante, foram as ilustrações do Livro Brasil, histórias costumes e lendas, da Editora Três. Foi quando Lanzellotti teve o maior desgosto de sua vida e nunca mais quiz pintar ou desenhar. O editor Domingo Alzugaray, em uma das edições, resolveu tirar as assinaturas e o nome de Lanzellotti como ilustrador. Lanzellotti recorreu, mas foi injustiçado. Foi o fim da vida como artista para o nosso tão querido Lanzellotti, que tanto trouxe cultura para o nosso Brasil.

Em 1992, José Lanzellotti foi assassinado dentro de sua própria residência em São Paulo.