sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Flávio Colin - Entrevista - 1989

Entrevista publicada na revista paranaense Nicolau, em 1989.

Flávio Colin: a vida na ponta do lápis

O traçado perfeito. A pureza do preto e branco. Artista e profissional. Coração andarilho. Flávio Colin retorna à Curitiba. Desejo seu. Sorte nossa. O traço, a arte, a mágica.

Colin é muito provavelmente, o mais importante quadrinista brasileiro. Enquanto a maioria dos nossos autores alardeia sofisticadas "influências", ele não assume senão uma remota estima pelo claro/escuro de Milton Canif nos inícios de sua carreira, influência já amplamente superada. 

Seu desenho é inconfundível, visto em qualquer gibi do mundo: nada de "influências", só o tratamento firme e limpo das linhas, a composição elaborada e realista dos quadrinhos, sem a preguiça de desenhar fundo, que é uma das características do gibi produzido no Brasil.

Além das histórias e séries mencionadas na trevista, Colin produziu - já em Curitiba - vários trabalhos documentais importantes: Universidade dos Bairros, História de Curitiba em Quadrinhos, A Guerra dos Farrapos, para a L&PM e O Continente do Rio Grande, para a Ipiranga.

Hotel do Terror nº 01 - Ota Comix, 1994.

Colin é desses gnomos benfazejos em extinção: onde ele põe a mão, cria uma obra de arte. Desde as historinhas pseudo-terror até os épicos históricos. Não se fazem mais desses autores que curtem se afundar em pesquisas, em vez de produzir histórias "in­críveis, piradíssimas".

Esta entrevista, realizada durante uma reunião que objetivava reativar a revista Casa de Tolerância, contou com a participação de Key Imaguire Júnior, Edson José Cortiano, Cláudio Seto, Humberto Boguszewski e Luís Bellenda.

Nicolau: Pelo que eu senti agora, você tem uma certa influência do Milton Caniff. Então eu queria saber como é que você começou a curtir quadrinho e quem te influenciou.

Colin: Entre o Alex Raymond e o Milton Caniff, eu preferia o Caniff, porque ele era mais desenhista. Você olhava um quadrinho do Caniff e ele tinha três, quatro, planos, o que era difícil de encontrar num desenho do Raymond, que trabalhava muito em cima da figura humana. E o Caniff não, ele botava um chinesinho lá (no fundo) de um aeroporto daqueles e o Terry, em primeiro plano. E ele não usava meio tom, coisa que eu sempre achei um recurso, uma regra meio baixa. Acho que história em quadrinhos é preto e branco. Então, por aí, pode ser que eu tenha sofrido uma influência do Caniff maior que a dos outros. Eu quero contar um caso de quando eu entrei na Rio Gráfica. Eu não sabia desenhar nuvem, que é um troço difícil de fazer: há uma diferença entre nuvem e poeira; então você desenha ou uma ou outra, não pode confundir. Tinha um desenhista da Rio Gráfica, o Gutemberg Monteiro, que era o papa da época. Eu não gostava do desenho do Goott, porque ele, por sua vez, tinha uma influência exagerada de um outro cara (um desenhista famoso, cujo nome agora não me lembro), que era um copista, e eu não admito copismo. Mas eu não sabia fazer nuvem, e então ia safadamente na mesa dos outros desenhistas para ver.

HQ é preto e branco, influência de Milton Caniff

E o Goott tinha uma solução pra nuvem. Eu não usei a solução dele, mas aprendi com ele como fazer. Porque o diabo é o seguinte: nós somos todos autodidatas, então você aprende olhando. Você não aprende numa aula, com professor e técnica. Ainda mais lá por 1953, 1954: não dava pra ter professor de nada.

Nicolau: Que outras influências você apontaria na sua carreira?

Colin: A de um amigo argentino, que fugiu das peripécias do Perón. Veio um bando de argentinos pro Brasil, excelentes gráficos e artistas, que se piraram com a derrocada do Perón. Meu amigo era o Guillermo Ares. Ele não era um grande desenhista, brilhante, criativo, mas como tinha aquela escola argentina, sabia muito de técnica, e eu aprendi com ele também. Por exemplo, aprendi a fazer uma mão. O dese­nho dele era até feio. Posso mostrar uma enciclopédia que era feita na Rio Gráfica e tem os meus primeiros desenhos e também os do Guillermo Ares, onde dá pra ver que usei a técnica dele. Eu sou um fã do claro/es­curo, acho que na história em quadrinhos, usar o meio tom, a retícula é um recurso. Não quero xingar quem usa. Quando usa, está bem usado, mas pra mim é uma aberração, eu não uso. Uma coisa curiosa, todo mundo diz: você tem uma certa influên­cia do Milton Caniff, e eu digo: é possível, devido à admiração que eu tinha pela sua colocação em preto e branco... e depois, era uma aula de desenho.

Nicolau: Você tem o Anjo, o Vizunga, o Nicanor de agora. É isso? Ou tem outros personagens?

Vizunga, Folha de S. Paulo - 1965.

Colin: Sim, tem o Vigilante Rodoviário, que foi feito e o Jayme Cortez deixou morrer, porque é incompetente, besta. O Jayme Cortez tinha uma mina de ouro e deixou morrer por... não vou dizer incompe­tência, que o cara não merece isso, mas deixou aquilo avacalhar e perdeu a mina de ouro. Então tinha o Vigilante Rodoviário, que era uma série de televisão, e a respeito dele tem uma coisa curiosa: o Shimamoto, que eu considero o melhor quadrinho (é um cara que faz exatamente aquilo que eu acho que um desenhista de histórias em quadrinhos deve fazer: ele manda pras bananas a anatomia - não que ele fuja do negócio - mas ele deforma, ele constrói), chegou e disse: Colin, você faz aquele cachorro do Vigilante Rodoviário, eu não sei desenhar bicho e você faz isso bem. Realmente eu desenho, e eu gostava de desenhar o Vigilante por isso: tinha o cachorro, era interes­sante... mas infelizmente, como tudo nesse país...

Almanaque Vigilante Rodoviário, editora Outubro - 1964.

vale deformar, construir, não copiar anatomia

Nicolau: O Cortez e aquele outro argentino, o Zalla, vieram nessa corrente que você mencionou? 

Colin: Não, o Cortez é anterior ao Zalla. O Cortez, é português de Lisboa, é alfacinha - e é mais antigo que a Sé de Braga, é um artista muito antigo...

Nicolau: Era esse o adjetivo que você estava procurando: ele é português...

Colin: É, o Jayme era isso mesmo, era o que eu queria dizer. O Cortez é um cara meio maroto em relação aos outros profissionais; disso não há dúvida. Realmente, ele publica álbuns, e eu devo algumas promoções a meu respeito ao Cortez. Afinal, neste Brasil, foi o único que fez a porra dum álbum de ilustradores, depois mais ninguém. Então o português tem que ter um mérito e eu não posso lhe negar isso. De sorte que também não posso avacalhar com o cara: se eu caí na última página do álbum dele, não foi porque ele quis, foi porque eu mandei o material atrasado, essa é a verdade.

A Técnica do Desenho, editora Bentivegna, década de 1960.

Nicolau: Entrou o Vizunga lá, né?

Colin: Entrou o Vizunga, entrou o que eu tinha, e eu não tinha nada, eu nunca tenho nada, sou um desperuchado. O cara me pede um desenho e vai esperar quinze dias até eu fazer um? Então não foi culpa do Cortez, eu é que não tinha material pra dar pra ele, vamos deixar isso bem claro...

Nicolau: Esse que você está falando é o Mestres da Ilustração?

Colin: É, acho que é.

Nicolau: Ele tem três: o Mestres da Ilustração, a Técnica do Desenho e o Ma­nual do Ilustrador.

bom é quem investe nas H.Q. ao invés de numa fábrica 

Colin: Isso é dele, né? Para o Manual do Ilustrador eu ainda tinha alguma coisa pra dar pra ele, aquelas histórias de far-west que eu fazia e alguns personagens, mas para o outro..., aí eu já não tinha mais nada; mandei uns negócios de última hora, ele teve até que repetir a página, ampliar, fez uma mágica. O Cortez tinha a Editora Outubro, que naquela época pra nós significava mais ou menos o que seria a Grafipar, a salvação da lavoura, né? Mas acabou tudo em uísque e Rum Merino. Agora, o Zalla é recente; eu não o conheço pessoalmente, mas soube que ele herdou uma grana e como é um excelente desenhista, resolveu abrir uma editora, investiu o dinheiro dele nisso, e vai levando. Talvez esta seja a razão de eu até hoje trabalhar pra ele a preço de miséria: eu gosto do cara que poderia investir numa fábrica de desentortar banana, num negócio qualquer de open-market, mas jogou em cima das histórias em quadrinhos. Eu colaboro com ele até hoje, não pelo que ele paga, e sim pelo que representa. Mas é muito posterior ao Cortez, eu já tinha deixado de fazer o Anjo.

Nicolau: Quanto tempo durou o Anjo? 

Colin: Na minha mão, uns dois ou três anos.

O Anjo nº 20, editora Rio Gráfica - RGE.

Nicolau: Na tua mão como? A gente sempre associa o Anjo com você, tem mais alguém?

Colin: Depois o Kid (Juarez Odilon) fez, o Valmir Amaral continuou fazendo.

Nicolau: O Vizunga você já disse que durou pouco, também. O Vizunga ficou interessante por causa daquela história do Maurício de Sousa distribuir. Como foi isso, exatamente?

Colin: Foi o seguinte: depois do Anjo, eu fazia, em São Paulo, aquelas histórias de terror que, aliás, às vezes tinham textos ótimos. Um dia o Maurício chegou lá em casa e disse: Flávio, eu estou na Folha de São Paulo e quero lançar umas tiras lá; você não quer fazer uma? Nós vamos distribuir pro Brasil inteiro, vai ter royalties, Nessa voz de royalties, eu disse que fazia e bolei o Vizunga. Aí mandei quinze tiras pra ele levar ao jomal e ver se agradava. Fiquei na expectativa do resultado pra ver se o jornal comprava aquilo ou não. Só que recebo um telefonema dizendo: as tiras estão rodando, manda brasa. Pô, quinze tiras não é nada, a uma por dia, dá duas semanas. Aí me vi louco, pari aquele Vizunga de tudo quanto era jeito, sempre na expectativa de que aquele negócio rendesse royalties, viesse pra cá, pra Porto Alegre, Manaus, Belo Horizonte: royalties brasileiros... Mas não deu nada, o negócio ficou ali na Folha. O Maurício tirava a parte dele e me pagava o restante. E aquela era uma história que levava pesquisa, dava trabalho, porque eu fazia com um amor desgraçado; era a minha pai­xão. Era uma coisa que eu gostava, era didática. 

o Vizunga era a maneira de passar o pouco que sei 

Eu acho que na nossa história em qua­drinhos - e acho que vou morrer com essa mágoa -, a gente não pode passar nada do que está aí. A história em quadrinhos é um veículo espetacular pra você passar as coisas, mas nesse país não dá. Você imprime o óbvio: pornografia, erotismo, terror (um terror de merda, que não assusta ninguém), mas as coisas que a gente tem - folclore, fauna, cultura -, nada disso a gente consegue passar. Isso morre e a nossa história em quadrinhos fica sem esse conteúdo; sem essa mensagem. Fica aquele troço chato,seco, didático, quando a gente podia transformar nossas coisas numa tremenda história em quadrinhos. Não falta episódio, não falta nada. Isso me irrita, porra. E o Vizunga, eu ia usar pra passar História, eu ia usar pra passar tudo nele, através das caçadas. Ia botar o Vizunga tomando caldo com um índio, ia botar no tempo dos bandeirantes. O Vizunga era isso: a maneim que eu tinha de passar o pouco que eu sei. Mas nessa época eu fui pra McCann. Ganhei um concurso lá e os caras me chamaram. Eu ganhava mais fazendo story-board que história em quadrinhos, daí acabou o Vizunga.

Nicolau: Mas o Vizunga teve uma longa história...

Colin: Eu não sei se ele chegou a quatrocentas, mas a trezentas e tantas tiras chegou. Eu queria fazer um anti-herói, tanto que o Vizunga era um cara careca com uma barbicha, e minha intenção era contar uma históna, parasse onde parasse. Quem quiser suspense, que vá ler Fantasma e Mandrake. 

Quem entendeu onde parou o papo, compra outrra porque quer a continuação daquilo. Vou me preocupar com o suspense pra quê? É uma conversa, tanto que o Vizunga era dividido em duas características, em dois níveis: ele era acadêmico, quando explicava que estava na África, na Índia ou no Brasil (em que cidade, qual a população), e quando ele começava a contar a caçada ou a pesca­ria, a coisa virava cartum, uma sátira a caça­dor e pescador ("peguei um peixe deste ta­manho"; "matei um veado de quarenta chifres"). Era pra dar chance a "a pegada do elefante era do tamanho dessa sala" que era o que divertia.

deve-se informar nas H.Q., não se limitar a aventuras

Nicolau: Mas as informações que passava eram corretas?

Colin: Claro, a informação que ele dava era correta, porque eu comprei mapa da Índia, da África, do mundo inteiro. Aleghanis, nos Estados Unidos, Montanhas Ro­chosas, Punjab, o negócio era nessa base. Porque eu acho que isso é que é válido na história em quadrinhos: é você informar, não só fazer uma porra de uma aventura, ou um protesto. Você tem que informar, essa é a razão da história em quadrinhos. O americano nos encheu o saco de way of life pra ter essa porcaria. Antes da televisão e do cinema ele já estava mandando brasa em cima da gente: então você conhece todas as tribos americanas, todos os cow-boys da vida e não é através de cinema, é através de história em quadrinhos. E por que nós, que somos um país continental, não podemos fazer essa coisa? Vender chimarrão pro paraense e vender tucupi pro gaúcho? É isso que temos que fazer. Estamos nos desconhencendo, e não é jornal, é história em quadrinhos que faz isso, mesmo falando de África, de Índia, de Canadá. Mas o Vizunga era um cara milionário, que vivia na beira da praia, que tava contando a história dele pra uma platéia de jovens. Como era o Vizunga, nenhuma editora comprou. Não campraram nem o Carga Pesada, que era um negócio de televisão, mascado, pronto, feito: os caras mandaram capar. Então, como o Maurício deu tira, foi tira. Tira é um negócio engraçado, grave: pra quem gosta da fruta, tem que encarar. Não é o ideal, fazer tira. O ideal é fazer uma revista. O Vizunga era pra ser uma revista, tipo Anjo. Mas quem compra? A Folha compra tiras? Tiras... 


Universidade dos Bairros nº 02 - Fundação Cultural de Curitiba - 1985.

O ideal não é fazer tira. O ideal é fazer uma revista 

Nicolau: Você já falou numa porção de gente, mas quem você acha que são os melhores autores (brasileiros)?

Colin: Olha, vou dizer uma coisa: eu poderia citar muita gente, mas infelizmente eu separo o artista do profissional. Quando eu falo num artista, eu gosto que ele seja um profissional. Artista tem aos montes, profissionais é que são poucos. Artista profissional mesmo tem muito pouco no Brasil. Eu não quero ofender nem omitir ninguém. Não vou dizer que são os meus preferidos, mas são os que eu conheço. Tem aqui o meu amigo, o professor Seto, tem o Shimamoto... 

Nicolau:  Mas só tem japonês?!... 

Colin:  É, por enquanto estamos no Japão. O Shimamoto é uma máquina de fazer quadrinhos. E aquele menino que eu admiro muito, o Mozart Couto, um cara que tem um traço que está muito perdido nesse Brasil. Pra absorver o Mozart Couto, tinha que ter uma editora. Tem o Valmir, da Rio Gráfica e o Kid, dos mais antigos. Dos novos tem muita gente boa: aqui o mestre Cortiano e esse pessoal. Mas da velha guarda mesmo, está lá o Valmir, o Shimamoto, ­os outros sumiram, porque é muito difícil, no Brasil. Eu poderia citar o Watson tam­bém, mas é um artista, não é um profis­sional. O profissional é o cara que realmente encara o trabalho que está fazendo. O Wat­son tem lá o traço dele, tirou não sei de quem, fez não sei o quê, é habilidoso, mas é aquele cara que fica lambendo uma história em quadrinhos, uma página, outra... Isso é muito bonito, dá um efeito magnífico, mas não é aquele sujeito... Então o difícil no quadrinho é isso, e estou citando esses camaradas de primeira hora. Poderia citar o Ziraldo, que fez o Pererê, e o Estevão, que era um profissional. E esse era bom: ele fazia aquilo na marreta, metia o cacete, era um cara! E sumiu, porque é aquela história: a gente não tem estrutura. Um Carlos Estevão na Europa... 

profissional é aquele que encara o trabalho que faz 

Nicolau: Essa geração do Nico Rosso, Colonnese, o Jayme Cortez, esse pessoal - bem, do Cortez você já falou -, o Edmundo Rodrigues, tudo isso chega a formar uma época no quadrinho brasileiro, né?

Colin: Realmente, formar, forma. Com perdão da má palavra, Edmundo Rodrigues forma uma... também faz parte do folclore, não vou dizer que não. Agora, infelizmente, nós somos uma geração perdida, porque com exceção da minha parte, talen­tos maravilhosos foram jogados pro espaço, por influência das multinacionais, dos copy­rights da vida. Nos sufocaram, e eu fico revoltado quando vejo esses caras. Veja o Nico Rosso, um homem antigo e está lá firme.

A gente tem que respeitar um cara desses, mas quem é Nico Rosso? Taí pra nós, que conhecemos o assunto, mas esse cara devia ser um expoente e não é. Porque nunca de­ram pro Nico Rosso o valor que ele tinha, nunca lhe deram o que fazer. Isso é um crime que se comete contra uma geração, contra uma inteligência. Além do fato de a gente ser miseravelmente autodidata, ainda por cima os desgraçados não nos imprimem. De repente, numa história, você nunca sabe o que fica pra você. É muito cômodo você ter um personagm, o Mandrake, por exemplo, é seu e você bota ele onde quiser. E nós, que ficamos desenhando texto dos outros? Um bola um negócio na idade Média, outro bola um troço na China... te vira, cabôco! E você tem que desenhar aquilo na China, porque tem um desgraçado dum leitor chato que diz: isso é no Japão, esse cara aqui não é chinês, é japonês. Você tem que pesquisar, porque o cara te sacaneia depois, não quer nem saber. Ser desenhisla de qua­drinho não é mole: você tem que ter referen­cias de Idade Média, de tudo. Eu, por exem­plo, desenhava o Sepé, lá no Rio Grande. Isso é importante, e a gente nunca fala. Pra mim foi muito importanle desenhar o Sepé pro Brizola.

Sepé nº 01 - CETPA - 1962.

para desenhar texto dos outros precisa se virar 

Nicolau: Mas como é isso, que a gente nunca ouviu falar? Todo mundo sabe como é a história do Sepé, mas você fez uma quadrinização disso?

Colin: Não, é o seguinte: o Zé Geraldo conseguiu chegar no Brizola e botar o problema do quadrinho na frente dele. Disse: olha, ninguém imprime, ninguém publica.... e o Brizola comprou a briga. Tinha aquele movimento do Jânio, formem aí como a Ordem dos Advogados... Mas o Jânio pediu o boné, tirou a escada e deixou todo mundo pcndurado na brocha. O Jango não ia comprar isso, que a cabeça dele era outra. Sobrou o Brizola. Então ele fez uma cooperativa no Rio Grande do Sul, chamava-se CETPA (Cooperativa Editora e de Trabalho de Porto Alegre), e lançou aigumas revistas, tudo com desenho e argumento brasileiros. Lançou o Aba Larga, que era aquela polícia montada do Rio Grande e quem fazia era o Getúlio Delphim, lançou o Saindenberg. Tinha umas quatro revistas, cujos nomes me fogem. E o Sepé, que era eu quem faria. Quem escrevia o Sepé era um professor de história lá do Rio Grande do Sul. O Sepé é um personagem folclórico. Em princípio foi revista, mas sabotaram, esconderam as revistas todas, tanto que eu tenho um numero só. Esconderam nas bancas, porque era um negócio de coo­perativa, de comunistas, então não dava. Meteram lá pra trás, escamotearam o troço... Depois só em tira num jornal de lá, não tomei conhecimento. Mas isso foi importante. Na época não fui pra lá porque era casado, e tinha família no Rio de Janeiro, mas o Shimamoto e o Getúlio, que eram solteiros,  foram. Fiquei mandando as tiras do Rio pra lá. Fui o único da patota que não foi para Porto Alegre. É mais fácil ir um cara só do que carregar a tralha. Eu recebia o texto do professor e fazia como a Grafipar: desenhava e mandava. E eu adorava aquele troço! Se bem que, claro, o cara, como professor de história - não que fosse verborrágico, mas ele queria passar alguma coisa. O Sepé fazia discursos do alto da coxilha e de repente não tinha espaço no quadrinho pra botar o Sepé... era tudo balão. Era um drama desgraçado pra botar a cara do Sepé a cavalo. Não cabia o Sepé, que dirá o cavalo... Porque o cara dava uma aula de justiça social lá naquela porra... Convencer o professor de que aquilo não era uma aula de história, era uma história em quadrinhos... Mas a coisa funcionou até que, infelizmente, veio a "Redentora" e acabou o papo.

Brizola comprou a briga e lançou H.Q. brasileiras

Nicolau: Só pra constar: o Shima diz que o Brizola alugou um andar pra turma, um ficava numa puta salona: o Shima numa, onde só tinha a prancheta dele, o Getúlio Delphim, numa outra... 

Colin: Mas era mesmo, era pra botar pra quebrar, porque aí é que está o interessante do negócio. Por isso que eu sou Brizola e votei nele - e, talvez tenha que transferir o meu titulo pra cá, se eu ficar em Curitiba (e gostaria muito de ficar, porque adoro Curitiba), se não eu volto pra lá e voto nele outra vez. Pelo seguinte, ele é um desinformado a respeito do assunto, mas quem não é? Pelo menos ele botou um salão: sei lá o que o cara precisa, eu não entendo, é melhor botar no salão que confinar no galinheiro, bota logo numa sala, sei lá o que o cara quer...

Nicolau: Essa história termina mais ou menos assim: dois anos atrás, na Grafipar, estávamos dando uma estudada nesse problema de cooperativa e encontramos uma nota num fanzine do Rio Grande do Sul, a Historieta, o cara metendo a boca no Brizola porque ele proibiu a entrada de Batman e Super-homem naquele Estado, naquele período. Bem feito que foi expulso do país, um troço mais ou menos assim. Como a gente que trabalhava na Grafipar conhece o funcionamento do mercado das dis­tribuidoras, fica fácil saber que se o Brizola não deixava entrar quadrinho da Ebal, da Abril, da Rio Gráfica no Rio Grande do Sul, está na cara que os quadrinhos dessa cooperativa não iam entrar nunca no resto do Brasil, que existe uma máfia aí.

Colin: Isso que o Seto falou agora foi a razão do fracasso. Isso eu aceito, é uma explicação inteligente. Não como aquele cara que tem lá no Rio Grande do Sul, aquele alemão que faz aquela revista (Historieta), o (Oscar) Kern. Porra, um dia eu recebo uma revista do Kern sacaneando o Sepé. Eu li aquele troço e escrevi uma carta pra ele esculhambando: Olhaqui, rapaz, eu fiz o Sepé com muito orgulho, porque de repente peguei um troço brasileiro pra fazer. Fiz com muito orgulho e lamento que o esquema e o status tenham acabado com a cooperativa. Uma carreira perdida. Aí ele mandou: Carreira perdida por quê? Não entendi! Carreira perdida porque você não pode combater o distribuidor, a multinacional, aquilo que o Seto falou muito bem, no raio das bancas. Não há força pra isso. Agora, daí menosprezar o trabalho como o Kern estava querendo fazer... Depois ainda andou publicando lá: Colin diz que fez o Sepé com 'muito orgulho', botou o muito orgulho entre aspas. Não sei porque entre aspas, eu falei no duro mesmo, não tinha nada entre aspas. Fiz porque o negócio era mesmo bacana. Aí, não vão me interpretar mal, fiquei chateado com o alemão, que vá tomar banho. Quis reeditar o Vizunga, eu disse: Vá editar o Vizunga na Baviera.

Nicolau: Acho que se devia colocar isso cronologicamente. Na verdade, o Colin falou em quinze anos de quadrinhos, e tudo misturado. Podia dar umas referências aí pra gente se situar.

Enciclopédia em Quadrinhos nº 5, RGE - 1956.

Colin: Primeiro, eu fiz a Enciclopédia em Quadrinhos. Daí me ofereceram pra fazer o Anjo. Então parti pras histórias do Jayme Cortez na Editora Outubro, em São Paulo, eram as histórias de terror. O Anjo foi de 1958, 1959, até sessenta e poucos. Daí já misturei com São Paulo, com a Editora Outubro, onde eu fiz terror e o Vigilante Rodoviário. Mas tem um lance antes: era uma revista de um cara chamado Ilo Iloy Lundi; sobre os pracinhas da FEB. Era da época do Anjo, um pouco antes. Eram histó­rias de sargentos e tenentes, que contavam suas experiências de guerra. Aquilo era "de­cupado" em quadrinhos e a gente ilustrava. Eu tenho essa revista lá em casa, é FEB, um negócio assim. Eu fazia ilustração pro Globo também. Depois veio o Como Fazer Histórias Infantis pra Vecchi. Depois acho que veio o problema da CETPA lá no Rio Grande do Sul, o Sepé, o Vizunga e aí acabou. Entrei pra publicidade e morreu o assunto. Surgiu então a Grafipar. Essa é mais ou menos a cronologia do negócio.

Coleção de Aventuras - Força Expedicionária Brasileira, editora Garimar - 1958.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Livraria Gibi - 1969


A Livraria Gibi foi, provavelmente, a primeira gibiteria do Brasil, inaugurada em 1969 por Ademário de Mattos. Teve vários endereços, todos em São Paulo - Capital, mas o primeiro deles foi na rua Conselheiro Crispiniano.

Ademário, amante dos quadrinhos, tinha um escritório de despachante, começou comercializando seus próprios gibis mas frequentemente levantava um empréstimo bancário, comprava o acervo de algum colecionador e vendia picado em seu estabelecimento. Em 1980, passando por dificuldades financeiras, José Mojica Marins, o Zé do Caixão, encarregou Ademário, já em seu terceiro endereço, na rua Xavier de Toledo, de vender sua coleção!

A livraria foi importantíssima para o desenvolvimento do cenário dos quadrinhos no Brasil, aglutinando em suas dependências, além de colecionadores, artistas e estudiosos da 9ª arte.

Além de revistas antigas tinha também fanzines, como o Pica-Pau de Armando Sgarbi e a lendária revista Balão, de onde surgiram nomes como Luiz Gê, os irmãos Caruso, Laerte e Angeli e o que havia de mais moderno no mercado internacional dos quadrinhos, que naquele momento passava por um a grande efervescência, com os álbuns adultos europeus, o resgate de clássicos do passado, das décadas de 1930 e 1940 e a aceitação dos quadrinhos como uma nova e importante linguagem de comunicação.

Em 1970, os originais da primeira aventura de Flash Gordon estavam desaparecidos. Durante o Congresso Internacional de Histórias em Quadrinhos realizado no MASP - Museu de Arte de São Paulo, Ademário surgiu com um exemplar do álbum do herói publicado pelo Suplemento Juvenil em 1937. A publicação foi rapidamente adquirida por Claude Moliterni, que participava do evento, e serviu de base para todas as publicações europeias da aventura que foram editadas em seguida.

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Em 1971 a Ebal publicou na contra capa da revista Mindinho nº 23 o seguinte texto: 


"Cercado por livros raros do Fantasma, Flash Gordon, Príncipe Valente; cartazes de Super-Homem, recortes de tudo quanto é publicação de histórias-em-quadrinhos e um álbum raro, da Década de Ouro, O Guarani, publicado pelo Correio Universal, aparece nesta foto o Ademário de Mattos, proprietário da Livraria do Gibi, em São Paulo. Essa livraria está localizada na rua Conselheiro Crispiniano, 404, sala 502, bem no centro da paulicéia e vende tudo quanto é edição antiga de Suplemento Juvenil, O Globo Juvenil, Mirim, Gibi, Gazetinha, O Lobinho etc. Ademário foi o homem que apareceu no dia do encerramento do Congresso Internacional de Histórias-em-Quadrinhos e mostrou aos estrangeiros uma “avis rara": um exemplar autêntico e completo da primeira história de Flash Gordon no Planeta Mongo, publicada em 1937 pelo Suplemento Juvenil. Preço pedido pelo Ademário: 120 dólares americanos. E, imediatamente, o exemplar foi adquirido por Claude Moliterni, conforme a fotografia abaixo, vendo-se no grupo, entre outros, o Professor Alvaro de Moya, Rinaldo Traini (organizador dos congressos de Lucca), Rodolfo Zalla (desenhista de histórias-em-quadrinhos) e Floriano Hermeto de Almeida Filho (desenhista de O Judoka)".

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A revista Bondinho também fez em 1971 a seguinte matéria: 

"A Casa do Gibi

Em 1969, Ademário de Mattos cansou de sua profissão de despachante policial, e transformou a sua pequena sala, na rua Conselheiro Crispiniano (404-502), em uma livraria especializada em histórias em quadrinhos, a Livraria do Gibi.

As revistas não são baratas mas são raras e o freguês não precisa ser um freguês. Quem não pode pagar 10, 20, 50 ou 300 Cr, pode simplesmente conversar com seu Ademário e ficar lendo ali mesmo. Ele conhece como ninguém (porque gosta dos quadrinhos, mesmo, e não é apenas um "teóríco") a história da HQ no Brasil.

Os Suplementos com as histórias famosas começaram a aparecer no Brasil na década de 30. Em 14/3/34, o jornal "A Nação“ lançou o “Suplemento Juvenil“, aos domingos, com histórias de Lee Falk, Phil Davis, Alex Raymond e outros. No 150º número, deixou de ser um dos suplementos para ser uma edição trissemanal, vendida separadamente.

Mais tarde, o mesmo grupo lançou o “Suplemento Juvenil Mensal“ e “O Lobinho". "No "Lobinho", estavam o Tarzan, de Hal Foster; Joe Sopapo, de Ham Fisher; os Escoteiros Heróicos, de Ray Powers; Ana, A Pequena Orfã, de Harold Gray; Buck Rogers, de Dick Calkins e nas edições mais recentes, O Espírito.

Nos fins de 1939, o “Globo Juvenil" ganhou os direitos autorais de todos os personagens do “Suplemento Juvenil", e o Consórcio Suplementos Nacionais Ltda. teve de transferir os personagens de “O Lobinho" para o “Suplemento Juvenil” (a vendagem era maior). No dia 17 de novembro de 1939, em seu 950º número "O Lobinho" deixou de circular.

Na Casa do Gibi o preço do Lobinho é 30 Cr$ e do Suplemento Juvenil - com histórias em série - é de 10 Cr$. No final do último capítulo, era lançado o álbum com a história completa - o Suplemento Juvenil, Edição Especial. O primeiro álbum foi "Flash Gordon no Planeta Mongo", de Alex Raymond, desenhada em 34, publicado no Brasil em 37, e vendida por 300 réis. Seu preço atual, na Casa do Gibi: 400 Cr$. Outra história de Alex Raymond, Jim das Selvas, publicada em 37, está à venda por 300 Cr$. O mesmo preço “A Viagem ao País de Savessá", de Mandrake (Lee Falk e PhilDavis). Seu Ademárío tem, ainda, a segunda história do Fantasma, “Os Piratas do Céu" - do tempo em que a patrulha da selva de Bengala não confiava no herói. É de 1937, preço: 100 Cr$. Outros álbuns: “As Três Aventuras de Bill, o Agente X-9”, de Alex Raymond: 200 Cr$.

A partir de 1939, e por toda a década de quarenta, as edições do Globo Juvenil reúnem quase todos os grandes heróis (preço atual: 10 Cr$)".

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Em 1974 Sebastião Seabra ilustrou a capa do Boletim/Convite para a inauguração do novo endereço da livraria.

Quando se mudou para um novo endereço, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, a livraria lançou um fanzine/convite com o seguinte texto: 

"A livraria Gibi cresceu!

Raro é o leitor ou connaisseur de quadrinhos que nunca tenha entrado na livraria Gibi, até poucos dias atrás uma modesta sala no 6º andar do Edificio Rex... um esconderijo onde muitos sotãos, muitos porões, muitas arcas deixaram aparecer os seus tesouros. Tesouros que levaram o incansável Ademário, a viagens de centenas de quilômetros para trazê-los à luz. E agora a Livraria Gibi cresceu. Motivada por uma necessidade muito grande: o crescente número de interessados e a diversificação destes.

Nos primeiros tempos de 1970, quando a Livraria Gíbi e os interessados tiveram seus primeiros encontros, assim como ela se encontrava, era o bastante. Foram os saudosistas os primeiros a aparecerem. Buscavam as raridades maravilhosas dos anos dourados que foram o fim da década de 30 e o início da de 40. Mas com o tempo, muitos apareceram em busca das reedições americanas, dos livros sobre seriados, dos livros de sonhos de Hollywood dos posters dos heróis, dos posters feitos por traços famosos como o de Frazetta e até dos cobiçados undergrounds americanos. E para atender a tudo e a todos só havia uma solução: A Livraria Gibi precisava crescer e por isto ela cresceu.

No dia 10 de Janeiro a Livraria Gibi abrirá pela primeira vez,as portas do seu novo endereço para receber os amigos e clientes em um coquetel, nesta opurtunidade os presentes poderão se encontrar com os tesouros escolhidos para esta reabertura, querem uma amostra? Mirins encadernados do nº 16 ao 599: (comuns sexta-ferinos e mensais de 37 a 42) Gazeta Juvenil nº 1 a 15; Gibi e Globo Juvenil (mensais 43 a 45); Suplemento e Globo Juvenil (semanais de 37 a 49); Seleção Colorida nº 1 a 17.

Todos os heróis vão estar presentes podem ter certeza: Pato Donald, Brucutu, Príncipe Valente, Ferdinando, Jim Gordon, Nick Holmes, Fantasma, Mandrake, Raio, Pequeno Sheriff, Flash Gordon, Capitão César, Brick Bradford,

Também não foram eaquecidas as revistas que fizeram e contam a história e a moda das anos dourados: Cruzeiro, Cena Muda, Fon-Fon, Mundo Ilustrado, A Noite Ilustrada, A Cigarra, A Carioca, A Careta,

E pare Contentar os Fãs das edições americanas do Spirit, da Vampirella, das edições Famosas, dos undergrounds, dos posters, dos livros de cinema, a Livraria Gibi tornou-se importadora: (portanto o que não for encontrado lá e só falar com o Ademário que logo logo tem...)".

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A seguir, alguns depoimentos de frequentadores da livraria:

"Conheci o Clube do Gibi através do Franco de Rosa, a livraria ficava na Rua Conselheiro Crispiniano, não lembro o numero nem o andar, o proprietário era o Ademário um conhecedor e hábil comerciante de revistas em quadrinhos nacionais antigos, depois a livraria se transferiu para a Rua Brigadeiro Luiz Antônio na galeria do cine Paulistano próximo a Avenida Paulista nesta época o Ademário tinha se associado ao Piter, com a dissolução da sociedade a livraria se mudou para a Rua Xavier de Toledo. A Livraria sempre foi frequentada por aspirantes a desenhistas em quadrinhos e mestres como o Maurício de Sousa, Jayme Cortez e Gedeone Malagola

Foi uma época muito boa em que conheci o tradutor das publicações Disney da editora Abril o José Fioroni Rodriguez, Sergio Pereira (colecionador), Sebastião Seabra (desenhista do Capitão Caatinga e inúmeras publicações da Grafipar), Reinaldo de Oliveira um dos responsáveis pela primeira exposição de quadrinhos no Brasil juntamente com o Álvaro Moya (ocasionalmente frequentava a livraria) e muitos outros colecionadores como Valdo Vieira (dono da maior coleção de quadrinhos nacionais que conheci até os anos 1980, segundo a lenda ele tinha em sua coleção o Action Comics com a primeira aparição do Superman, além do maior acervo do que havia sido publicado no Brasil) o Otacílio Costa d'Assunção Barros da revista Mad da editora Vecchi. 

A livraria me permitiu fazer ótimas amizades e tomar conhecimento dos inícios das publicações em quadrinhos no Brasil.

Abraço".

Giovanni Danilo Voltolini - pesquisador e tradutor de quadrinhos


*Agradecimentos ao amigo João Antonio Buhrer pelo envio das imagens e a todos que gentilmente deram seus depoimentos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Benedito Veloso - Entrevista - 2018

Entrevista realizada com o jornalista e roteirista Benedito Veloso em setembro de 2018. Veloso roteirizou aventuras para a série Vizunga e também para o personagem Zé Carioca, de Walt Disney. Aproveitem esta rara oportunidade!

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Revista Intervalo nº 01 - editora Abril - 1963

Luigi Rocco: Quando e onde nasceu?

Benedito Veloso: Nasci em 1939 na cidade de Tambaú, interior de São Paulo, mas muito cedo me mudei para a capital, para o bairro de Vila Mariana.

LR: Qual a sua formação?

Veloso: Sou formado em desenho comercial.

LR: Como se interessou pela área de comunicações?

Veloso: Naquela época, o convívio social era muito intenso, a cidade era menor e as pessoas se conheciam. esse convívio com os amigos facilitou meu interesse por essa área.

LR: Em entrevista ao jornalista Rodrigo Romero, você declarou ter produzido roteiros para histórias do personagem Zé Carioca. Como foi isso?

Veloso: Todo esse convívio social, que me levou a fazer o curso de desenho comercial, muitos amigos fizeram esse curso, também me levou a ingressar na editora Abril.

LR: Em que ano?

Veloso: Humm... Isso foi em 1960. Naquele tempo não era necessário o diploma de jornalista. Você passava por um período de experiência de 2 anos e depois podia ser efetivado como jornalista.

Revista Intervalo - 1963

LR: Em qual redação você começou?

Veloso: Entrei na redação das revistas femininas. Em 1963 fui fazer a revista Intervalo, que era uma espécie de guia da televisão, uma revista em formatinho com matérias sobre celebridades da música e da TV e também com a programação dos poucos canais que existiam. Surgiu pra fazer concorrência com uma outra revista chamada 7 Dias na TV (editora Empress). 7 Dias na TV vendia muito mais que a Intervalo, mas com o tempo, aparentemente por um acordo entre as duas editoras, essa outra revista deixou de ser editada e passou a fornecer material para a Intervalo.

O primeiro número da Intervalo, o número zero, por assim dizer (edição "première"), foi distribuído de graça, encartado nas outras revistas da editora: Capricho, Claudia, Ilusão etc. Eu fiz uma charge onde um leitor vai até a banca, compra a revista Claudia, destaca a Intervalo e joga a Claudia fora. A charge foi um sucesso dentro da redação. Alessandro Porro, que era o meu editor, gostou tanto e levou pra mostrar pro Luís Carta, editor da Claudia e irmão de Mino Carta, pra tirar uma onda com a cara dele! Por conta disso, passei a fazer uma charge semanal na Intervalo. Aparecia na última página da revista por muitos anos!

LR: Como o Zé Carioca aparece nessa história?

Veloso: Eu trabalhava no grupo das (revistas) femininas, mas as outras redações eram perto umas das outras. As histórias Disney eram todas importadas, nós só fazíamos a tradução, adaptações dos espaços dos balões e as legendas, mas não haviam histórias estrangeiras do Zé Carioca, então passou a ser necessário produzir essas histórias por aqui mesmo. O Zé era um personagem brasileiro e estava fazendo muito sucesso, então me convidaram pra escrever roteiros para o personagem, mas eu sempre fiz esses roteiros em caráter de freelancer, não era contratado da redação das infantis. Era um trabalho que me divertia muito, era uma espécie de hobby remunerado! Nessa época havia muita carência de mão-de-obra nessa área, o profissional era bastante disputado, então fazíamos freelancer para a própria editora.

LR: Quantos roteiros você produziu para o Zé Carioca?

Veloso: Não sei com certeza... Vamos fechar em dez, mas foram bem mais que isso! Eu não guardei nenhum desse material. Sabe como é, você fica achando que sempre estarão disponíveis nos arquivos da editora, o tempo vai passando e isso tudo vai se perdendo.

LR: Eram histórias longas ou de uma página?

Veloso: Longas! Histórias longas.

LR: Você lembra o título de alguma delas?

Veloso: Puxa, não lembro! Mas lembro de uma que causou bastante alvoroço na redação, era uma que falava de transplante de suvacos!!! Caramba, que vergonha! Não publique isso! (risos)

LR: Em que época foi?

Veloso: Entre 1964 e 1966.

LR: E quem desenhou?

Veloso: Waldir Igayara e Jorge Kato. 

Eu cheguei a fazer fotonovelas também! As fotonovelas publicadas pela editora Abril eram todas importadas da Itália, mas um dia chegou um editor do sul do país, que fazia uma revista chamada Rainha e que queria publicar fotonovelas. Nós explicamos que as nossas era todas importadas, publicadas sob licenciamento e tal, mas eu acabei dizendo que poderíamos, sim, produzir fotonovelas pra ele. Caramba! Outro papelão! Essas eu não mostro pra ninguém!

Vizunga por Veloso e Herrero.

LR: Em 1965 a Folha de São Paulo publicou algumas aventuras do personagem Vizunga com desenhos do cartunista Herrero e roteiros seus. Como foi isso?

Veloso: Puxa! É verdade! O Herrero... Nem me lembrava disso! Mas era uma coisa do Maurício de Sousa. Por conta de meus roteiros com o Zé Carioca, acabei trabalhando com o Maurício. Ele já tinha saído do edifício da Folha, na Barão de Limeira, e ido para uma travessa, naquela mesma região. Fiz muitos roteiros para o Maurício nessa época, eram histórias curtas. Mas tudo como freelancer. Como já disse, era uma diversão. Acho que esse tipo de trabalho acaba deixando a mente mais criativa. Tenho oitenta anos e considero estar muito atuante e criativo ainda. Tudo por conta desse tipo de atividade!

Nos estúdios do Maurício, conheci e fiz muitos trabalhos com o desenhista Apa (Benedito Aparecido da Silva). Cheguei a fazer uma História do Brasil em Quadrinhos para a editora FTD. Mas não conta isso também!!! (risos)


FTD Revista - História do Brasil, 1967 - Por Veloso e Apa.

LR: Quantos roteiros você escreveu para o Vizunga?

Veloso: Não lembro ao certo, mas foram poucos*!

*Foram publicadas duas aventuras de Vizunga com roteiros de Veloso.

LR: Entre 1969 e 1970 o jornal paulistano A Gazeta publicou duas tiras, Egberto e Os Invasores, que têm a sua assinatura. Como foi isso?



Veloso: Egberto!? Caramba, é mesmo! O Egberto era uma caricatura do jornalista Giba Um. O Nome dele era Gilberto, Gilberto Luiz Di Pierro, ele trabalhou comigo na Intervalo, junto com o Walter Negrão. Então, fizemos essa sátira passada numa redação de jornalismo.

LR: E Os Invasores? Era sobre dois caipiras na cidade grande.

Veloso: Essa eu lembro pouco...


LR: O Paulo Hamasaki, em entrevista* ao blog de Tony Fernandes, declara ter produzido essas séries. É possível?

Veloso: Sim, é possível. Tinha também um outro japonês, o Shimamoto, que fazia umas histórias bem cruéis. Mas eu lembro que o Hamasaki era um cara nervoso, estourado...

*Nessa entrevista Paulo Hamasaki diz o seguinte: "...na Gazeta realizava duas tiras diárias, uma sobre dois caipiras do interior paulista, lá pelos anos 50 e outra sobre um repórter atrapalhado (Egberto), calcado no colunista Giba Um, muito famoso na época... As duas tiras que eu fazia pra Gazeta duraram uns três anos".

Egberto no traço de Paulo Hamasaki - revista Top Top, editora Taika.

LR: E sobre seus roteiros para a revista Contigo?

Veloso: Em 1971, a revista Contigo mudou seu perfil e passou a investir em um público mais jovem. Começou a publicar uma série de histórias em quadrinhos voltadas aos jovens e adolescentes. Para essa nova fase eu criei uma série de personagens, entre elas, Cris, a repórter, que era inspirada em uma jornalista da nossa redação que era muito bonita mesmo! Quem criou a Cris fomos eu e o jornalista Paulo Patarra.

Cris, a repórter. Revista Contigo, editora Abril, 1971. Veloso e Paulo Hamasaki.

LR: E o Anjo 45?

Veloso: Ah! Esse também era inspirado em um rapaz, baiano, que existia e trabalhava na editora. Ele ganhou o apelido por causa da música do Jorge Benjor, Charles, Anjo 45, lançada em 1969 e também virou personagem!

Eu criei também uma dupla, Mané Batata e Cheiro Verde, mas o Alberto Maduar, que era diretor da revista, não gostou muito do nome. Ele achava que personagem tinha que ter nome de gente, Mané Batata tudo bem, pois Mané é nome de gente, mas Cheiro Verde, não! 


LR: E o que fez após sair da editora Abril?

Veloso: Bom, eu ainda prestei alguns serviços como colaborador da editora, mas logo em seguida, por volta de 1970, eu me casei e fui morar em Jacareí. A partir daí prestei vários serviços, sempre na área jornalística, para vários órgãos de imprensa e secretarias das cidades do Vale do Paraíba. Fui fui chefe de cerimonial da Prefeitura de Jacareí por vários anos e também sou membro da Academia Jacareinse de Letras!

Para o jornal Semanário, em 1993, criei tiras inspiradas em uma cachorrinha que apareceu na redação. Ela se chamava Xuxa, mas para não termos problemas com a apresentadora, a personagem foi batizada de Xoxa!!! Parece que não era um nome muito feliz! (risos)

Entre 1989 e 1996 eu fiz charges políticas para uma sessão chamada Boca de Urna, do jornal Valeparaibano, assim, tudo junto mesmo!

LR: OK, Veloso. Muito obrigado pela atenção!

Veloso: Abraços!
Veloso na Intervalo em 1963 e 1965.



sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Luiz Sá - Entrevista - 1976

Depoimento de Luiz Sá, realizado na redação do jornal O Povo no dia 26 de fevereiro do ano de 1976 com a presença de Eliezer Medeiros, repórter cultural do jornal, perguntas formuladas por Nirez (Miguel Ângelo de Azevedo) e Eliezer. Depoimento este feito especialmente para o Museu Cearence da Comunicação.

MCC: Primeiramente, qual seu nome completo?

Luiz Sá: Luiz Sá de Araújo.

MCC: E seu nome artístico?

Luiz Sá: Apenas Luiz Sá.

MCC: Onde nasceu?

Luiz Sá: Nasci em Fortaleza, no dia 28 de setembro de 1907.

MCC: Qual sua filiação?

Luiz Sá: Minha mãe chamava-se Francisca Sá de Araújo e meu pai João Teófanes de Araújo. Sou neto de pintor. Meu avô era pintor e chamava-se Luiz Sá. Minha mão pintora e professora de desenho e caligrafia da escola normal.

MCC: Como decorreu sua infância?

Luiz Sá: Em Porangaba. Me criei em Porangaba até a idade de... Até o colégio, né? Estudei em escola pública e e tirei o curso no Liceu do Ceará.

MMC: Isso quando?

Luiz Sá: O Liceu do Ceará terminei em 1926.

MMC: E as primeiras letras onde frequentou?

Luiz Sá: Primeiramente numa escola pública de uma prima, Maria Perdigão Raposo, no antigo trilho de ferro. 

MMC: E qual curso foi?

Luiz Sá: O curso preparatório para o próprio Liceu do Ceará. Era o curso ginasial completo da época.

MMC: E quando começou a desenhar?

Luiz Sá: Desde menino eu rabiscava, né? E minha mãe me botava, e meus primos, para aprender desenho, e eu também, e meu irmão, e já botava um modelo para copiar, para desenharmos, mas eu em vez de fazer o modelo, fazia meus bonecos malucos, Tom Mix, e o outro encapuzado, que eu via no cinema. E minha mãe achava que eu não ia dar pra nada, porque naquele tempo a caricatura era uma coisa espúria e não havia divulgação no Ceará.

MCC: E qual a moda na época em pintura?

Luiz Sá: Seria a pintura natural, real. Não havia modernismo, não havia coisa alguma. Era a pintura clássica, do tipo do século XVI, XVII, por aí assim. Caricatura era uma coisa completamente abstrata, sabe? Não se dava valor.

MCC: Fale então sobre o cinema, como você falou, qual a influência do cinema sobre o seu trabalho inicialmente?

Luiz Sá: Eu via fitas em série, e aí reproduzia nas calçadas o Tom Mix, um cavalo, uns encapuzados, feitos a giz e a carvão nas calçadas e muitos donos, muitas donas das casas (reclamavam), porque que sujava.

MCC: Teve influência de algum desenhista famoso?

Luiz Sá: Não, não tive, porque só fui ter contato definitivo em 1930 quando comecei a desenhar e criei meus bonecos redondos. Agora, porque os criei redondos, até hoje não sei. Não foi procurado nem espontâneamente, e assim fiz.

MCC: Quando deixou o Ceará?

Luiz Sá: Deixei o Ceará no dia 5 de outubro de 1929.

MCC: Por que seguiu para o Rio de Janeiro?

Luiz Sá: Ganhar a vida, que no Ceará eu achava que não tinha lugar pra mim, para o que eu pretendia ser.

MCC: Até então, qual o tipo de trabalho em Fortaleza, o que você fazia?

Luiz Sá: Eu trabalhei no Jornal do Commércio, do Meton Gadelha, na gravura, como gravador de clichê, com o Clóvis Meton que era o diretor, o jornal era do Meton Gadelha, fiz alguns bonecos, lá, para o jornal, mas pouca coisa. Comecei a entrar em definitivo, com o traço.

MCC: Trabalhava na própria gravura?

Luiz Sá: Na própria gravura, é, na gravação, nos clichês. Trabalhava na gravura. Quer dizer, zincografia.


A estreia de Luiz Sá n'O Tico-Tico, 18 de março de 1931.

MCC: Quer dizer que aqui não havia condições?

Luiz Sá: É, fui para o Rio. Quer dizer, como o dinheiro era difícil, para ir para o Rio, meu irmão, por intermédio de um amigo, Rui Guedes, me arranjou uma passagem, de primeira classe! A primeira vez, de primeira classe, como um milionário! Mas com pouco dinheiro no bolso.

MCC: E chegando no Rio, qual foi sua primeira atividade?

Luiz Sá: Você sabe, cheguei numa época, em 1929, na época da Grande Deflação Mundial, o dólar tinha caído, havia um desemprego que era total, e um dos meus primeiros trabalhos foi encerar casa, com um amigo, que arranjava, pequenos escritórios, depois trabalhei como servente de pedreiro na construção do Hospital de Cascadura, um belo dia, graças a Deus, eu caí doente!

MCC: Graças a deus?

Luiz Sá: É, graças a Deus. Depois eu explicarei por que o graças a Deus. Caí doente e fui para o hospital lá na Gamboa. Internado no Hospital da Gamboa como indigente. Lá não recebia visitas, porque meus companheiros de infortúnio não tinham nem dinheiro para o bonde. Mas um belo dia me entram pela enfermaria três velhos amigos, colegas do antigo Liceu do Ceará, o dr. Bié, o dr. Dedéu e o dr. Tarcísio. Foram fazer uma visita, levaram um maço de cigarro e disseram que iriam escrever pro meu irmão dizendo meu estado. Eu pedi que não, que não queria incomodá-lo, mas mandaram. E uns dias depois eles entraram novamente na enfermaria e traziam cem mil réis que meu irmão tinha mandado. E conversamos mais um pouco e no fim da conversa o Bié me perguntou: Luiz, você precisa desses cem mil réis? Pelo menos agora? Eu disse, não, aqui não, a não ser para um cigarro... Então nós vamos levar 90 emprestados e você fica com os 10 que nós três também estamos lisos! Pouco tempo depois, no fim do mês, dois deles foram lá. Mas não me deram 90, me deram 100, não descontaram os 10 que eu tinha gasto.

E no hospital, nesse tempo, só se falava em revolução, em revolução, revolução pra aqui, revolução pra cá. E o governo baixou um decreto que todos aqueles, cabos, terceiros sargentos, segundos sargentos, primeiros sargentos, se eles tivessem deixado o exército por sua livre e expontânea vontade, poderiam regressar com o mesmo cargo. Ora, havia no hospital um vigia da noite, cearense, chamado Alceu, ele tinha sido cabo do exército, então ele se engajou e deixou vago o cargo de vigia. A irmã da enfermaria em que eu estava internado, gostava muito de mim, colocou um dia o santo que ela tinha ganho quando recebeu o hábito, mocinha, já era uma senhora nessa época, com um pouco de idade. Chegou chorosa, que ela tinha quebrado a imagem que tinha recebido no dia de sua..., quando recebeu o hábito, né? Eu, que tinha alguma prática, que ajudei muito à minha mãe quando menino, a consertar santo, que ela consertava muito santo. Eu não pintava santo, que santo não se pinta, santo encarna-se, como dizem, né? Então eu consertei o santo e encarnei o santo, e a irmã perguntou: Sr. Luiz, tem uma vaga aqui de vigia, do Alceu. O sr. quer esse emprego? Agarrei com unhas e dentes! Ora, casa, comida, roupa pra trabalhar e sessenta mil réis por mês, tava milionário! 

Aí, como eu trabalhava de sete horas da noite às quatro horas da manhã, sem poder dormir, nem dar um cochilo, porque havia três rondas durante à noite, feitas por irmãs de caridade. Então, pra passar o tempo, já tinha dinheiro, comprei papel, nanquim, pus numa mesa e ficava no corredor, entre duas enfermarias, rabiscando, rabiscando, rabiscando. Procurando desenhar. Um dia me veio uma ideia!

MCC: Qual o tipo de desenho?

Luiz Sá: Ainda não tava definitivo...

MCC: Era quadrinho?

Luiz Sá: Ainda não tava com o quadrinho. Fazia qualquer cena! Nada de quadrinho.

MCC: E os desenhistas famosos dessa época, quem eram?

Luiz Sá: Ah! Tinham muitos, J. Carlos, K. Lixto, Storni. Gente muito boa. Agora eu não lembro os nomes...

MCC: Tinham dois Storni?

Luiz Sá: Tinham, um era o velho (Alfredo), eu chamo caricaturista, e o outro, o Oswaldo, mais desenhista do que caricaturista, excelente ilustrador, ilustra essas revistas da (editora) Melhoramentos, esse é o filho.

Então, como eu ia dizendo, comecei a riscar e me veio uma ideia de fazer fatos da História do Brasil, e comecei a riscar. Daí veio o descobrimento do Brasil, fazendo assim, daí, não sei porque, eu comecei a fazer aquele curvo, daí comecei a fazer meus desenhos curvos. Fiz a História do Brasil quase toda, um grande número de fatos da História do Brasil: Descobrimento do Brasil, Caramuru, Fundação da cidade do Rio de Janeiro, tudo isso. Nessa fundação da cidade do Rio de Janeiro, há um fato histórico, para mim, né? Que depois eu contarei! Foi um fato histórico para mim que depois eu contarei!


MCC: E havia um toque de humor nessa época nesses seus trabalhos?

Luiz Sá: Já, todos, meus quadros da História do Brasil eram todos humorísticos, né? Eram todos engraçados. Eu fiz, por exemplo, Matança do Primeiro Bispo da Bahia. No descobrimento do Brasil, mostrando o monte Pascoal rindo, alegre, satisfeito, por ter sido descoberto. A civilização dos índios pelos jesuítas, jesuítas com vitrolas, tudo isso...

MCC: Tocando pros índios?

Luiz Sá: Tocando pros índios. Os índios já tocando violino, como sendo civilizados, e assim foi que eu bolei todo um universo até o fim.

Luiz Sá em O Malho, 1931.

Depois um dia, eu tinha um amigo que trabalhava na Vanguarda, Teotônio Queiroz, eu mostrei e disse pra ele arrumar um negócio pra mim, essas coisas. Aí, eu peguei esses desenhos e levei pra ele. Ele gostou e disse: Ô Luiz, eu tenho um amigo que trabalha no Malho. O Malho tinha sido empastelado, ele tava lá, trabalhando em outra revista, Eu Vi, que foi editada em substituição ao Malho, enquanto tinha sido empastelado por causa da revolução. A revolução já tinha vencido, né? Levou os desenhos para o Adolfo Aizen, que hoje é o dono da EBAL. Um dos maiores editores de histórias em quadrinhos do Brasil. Ele viu os quadros e pediu para eu levar lá. Eu fui lá e ele disse: Ô, rapaz, tá muito bom e tá muito interessante. Muito engraçado, traço diferente, fez uma abertura boa vendo o primeiro quadro que saiu, mas, ele disse: nós estamos numa situação não muito boa, eu lhe pago 10 mil réis por publicação de cada um, era semanal a revista, e você guarda os originais pra fazer uma exposição.

Aí, comecei a fazer. Trabalhando no hospital à noite e recebendo. Quando foi um dia ele me disse: Ô, Luiz, vê se me cria uns personagens aí, infantis, que pode ser que eu coloque no Tico-Tico. Aí então eu criei Reco-Reco, Bolão e Azeitona, que foi publicado no Tico-Tico pela primeira vez no dia 14 de março de 1931*.
*Na verdade a primeira aparição de Reco-Reco, Bolão e Azeitona se deu em 8 de abril de 1931, ilustração acima.

MCC: E a inspiração dos personagens?

Luiz Sá: Também não sei como dei. Foi assim, vem sem a gente nem esperar. A gente pensa, de repente vem. Chega um depois do outro. Batizei assim, Reco-Reco, aquele negócio de Reco-Reco, Bolão porque era gordo e Azeitona porque tinha um pretinho que brincava comigo na rua 24 de Maio, era pretinho então chamavam de Azeitona. Se bem que, azeitona, aqui, era o jamelão. Nós chamávamos azeitona, lá é o jamelão. Então, eu não botei jamelão, botei o nome de Azeitona.
Então, comecei a trabalhar no Tico-Tico, a fazer semanalmente uma história. De vez em quando havia um extraordinário, a ilustração de um conto, depois o próprio Adolfo Aizen disse: Ô, Luiz, faça uma coisa aí para O Malho, nessa altura O Malho estava novamente em circulação, que pode ser que você consiga alguma coisa, então, eu fiz uma página de desenhos. Quer dizer, com aqueles personagens da revolução, como eles deveriam ser. Cada um que tinha um nome exótico, eu fazia a cabeça com o nome exótico. Osvaldo Aranha, a cabeça era uma aranha. Belisário Penna, era uma pena. Magalhães Barata, era uma barata, numa página. E o diretor d'O Malho gostou muito e me convidou pra colaborar n'O Malho. Mas como efetivo, como empregado. Aí, passei a ganhar 200 mil réis por mês. Com 40 d'O Tico-Tico, eram 240. Estava rico! Deixei o hospital, fui para uma pensão, naquele tempo a gente pagava casa, comida e roupa lavada por 120 mil réis, ainda me sobravam 120 mil réis pra gastar, que era um dinheiro bom! Aí fui, fui, fui. Fiz exposição com esses quadros da História do Brasil e um dia, no dia da exposição, eu estava lá, a noite chegou um senhor muito bem vestido, tirou um cartão, e comprou um meu quadro, fui ver, era A Fundação da cidade do Rio de Janeiro. Eu me apresentei, ele chegou pra mim e disse: Olha, rapaz! Esse seu quadro é conhecido em 400 agências da Otis do mundo inteiro! Eu não entendi. Eu disse: E como é isso? Olha, eu sou o gerente da Otis no Rio de Janeiro, quando saiu na Eu Vi e me disseram, eu comprei 400 revistas e mandei pra cada agência da Otis, explicando o que era! 


É que eu tinha feito o seguinte: eram uns índios trabalhando em uma construção, e no meio deles, assim, tinha uma tabuleta escrito: Aqui há Otis! Porque, quando chegavam no Rio de Janeiro, em todo prédio tinha: Aqui há Otis, Aqui há Otis! E eu via, aqui há Otis, e eu fiz isso sem uma intenção, com maldade nem nada! Fiz inocentemente e me dei bem! 

MCC: E qual foi sua reação? Por que o quadro era sobre a fundação do Rio de Janeiro.

Luiz Sá: E eu fiquei todo entusiasmado porque o quadro era conhecido até fora do Rio de Janeiro. E eu fui indo, fui indo, fazendo coisas, fui melhorando, fui melhorando, em 1933 casei! Já tava pra casar, né? Em 33, casei.

Depois fui missionário pra Saúde Pública, desenhista. Eram uns jornais de cinema, não os jornais nacionais, os antigos jornais cinematográficos da Fox Filmes, o Metro Jornal, eram obrigados a passar no final, um letreiro de anúncio de propaganda de saúde. Era obrigatório. Então me chamaram se eu queria fazer aquele negócio. Fui nomeado funcionário. E comecei a fazer, mas o negócio era o seguinte: ia lá, toda segunda-feira, eles me davam o texto, eram seis desenhos, na outra segunda-feira eu levava os desenhos, assinava o ponto e assim fui. Trabalhei na Saúde Pública 12 anos nessa base. Então, um belo dia, chegou um moço querendo moralizar tudo e disse: Esse negócio não! Que eu ia de manhã. Tinha que ser de manhã à noite, trabalhar 11 horas por dia, 50 horas por semana. Eu disse adeus, até logo! Pedi demissão!

MCC: Fale o que o sr. fez nesse período lá no Ministério da Saúde.

Luiz Sá: Eu ilustrei todas as doenças!

Educação Física e Saúde, Coleção SPES, 1955.

MCC: Mas qual teve maior impacto e fez sucesso no Brasil?

Luiz Sá: No cinema? Uma das coisas que me deu bastante popularidade no Brasil? São duas coisas: para uma época, Reco-Reco, Bolão e Azeitona, pros quarentões de hoje, 45 anos, Reco-Reco, Bolão e Azeitona. E dessa geração, criançada, cinema, né? Eu fiz durante 20 anos dois jornais.

MCC: É que o sr. falou que trabalhou nesse período lá no Ministério da Saúde. Qual foi a campanha de saúde?

Luiz Sá: Eram todas as doenças.

MCC: Qual foi a campanha que chamou mais atenção do povo brasileiro?

Luiz Sá: Eram todas elas. Eu ilustrava os textos, eram textos desde tuberculose até o câncer. Era um conselho com uma ilustração adequada ao texto. 

MCC: Era só um conselho, não era?

Luiz Sá: Sempre levando para o lado humorístico. Mesmo no câncer eu fiz o desenho direto, mas sem levar ao ridículo.

Biblioteca Infantil do Tico-Tico, nº 2 - No Mundo dos Bichos.

MCC: E o povo, ele compreendia?

Luiz Sá: Compreendia. Lia na revista. Saia demais. Estava em milhares e milhares em todo o Brasil. Foi distribuído. Hoje em dia eu não tenho nada porque eu fui muito relaxado. Quem chegava e pedia eu dava e eu não tenho nada hoje.

Então, eu pedi demissão. Mas eu ganhava até que bem. Trabalhava no cinema, fazia essas aberturas dos jornais cinematográficos, né? Quer dizer, de todos os assuntos, futebol e tudo isso. 

MCC: Foi convidado por quem?

Luiz Sá: Pelo dono da Enec, que ele tinha feito um jornal, o Globo Esportivo, de acordo com O Globo. Queria um desenhista e um rapaz: Olha, aquele rapaz tem um desenho gostoso. Então comecei a fazer, fiz isso durante três anos. Foi em 1939, 40 e 41. 1942 acabou o jornal e eu fui fazer outras coisas, ainda era funcionário público. Quando foi em 44, o Ribeiro me chamou. O Ribeiro Jr., não o velho. Luiz Severiano Ribeiro Jr.. Aí trabalhei pra ele até 1964, durante 20 anos. Deixei de trabalhar porque, os jornais, os cinemas eram obrigados a exibir um jornal de cinema nacional e quando foi em 64 houve um decreto do governo tirando essa obrigatoriedade, quer dizer, já não interessava mais aos cinemas e aí acabou com os jornais*.

* A partir de 1916, os cineastas brasileiros se organizam em cinejornais, produzidos e exibidos semanalmente, mantendo o pessoal de cinema em atividade com filmagens de futebol, carnaval, festas, estradas, inaugurações, fábricas, políticos, empresários etc. Muitas pautas eram claramente encomendadas, misturando jornalismo e propaganda. Daí o termo pejorativo "cavação", ou picaretagem. Até 1935, existiram 51 cine-jornais no país, alguns de vida curta. O Canal 100 e os cine-jornais de Primo Carbonari e Jean Manzon são um prolongamento do período da cavação, sendo mostrados nos cinemas até o final dos anos 70, quando desistem de competir com a instantaneidade dos telejornais.

MCC: Teve algum fato muito interessante das charges de política feitas em cinema, que havia, que os políticos não gostavam?

Luiz Sá: Tem duas passagens interessantes. Uma veio, porque eu recebia, e eles não me davam explicação do assunto, não, dizia só isso: Futebol, fulano de tal! Turfe! Box! Banquete! casamento!

MCC: Era só o mote!

Luiz Sá: Era só o título! Daí eu tinha que bolar. Então, um belo dia: Banquete! Peguei e fiz um desenho. O desenho foi o seguinte: Na cabeça de uma mesa, ponta duma mesa, um sujeito com uma lente olhando num prato com um grão de feijão dentro. Era um grão de feijão. Pois bem, uma semana depois a Cinegráfica São Luiz recebeu uma carta desse tamanho! Porque era uma matéria paga! Que o banquete que ele tinha dado... esse sujeito não tinha senso de humor, não podia ter senso de humor! Que o banquete que ele tinha dado era pra 300 pessoas e eu tinha feito um sujeito olhando um feijão no prato! Não fazia sentido! Aí eu disse: Ora, quando for negócio de matéria paga vocês me digam que eu vou caprichar, que eu não quero "carrancatura", não! Eles não querem caricatura! Muitos, em matéria paga, queriam em caricatura a abertura, mas esse moço achou que eu desmoralizei o banquete dele apenas por isso!

Outra passagem também interessante é que um deputado, que tinha mania, que tinha um hobby de fazer filme 16 mm, e tinha câmara e tudo isso, e revelava na Cinegráfica São Luiz. Um dia eu estou lá e eu fui apresentado a ele. Conversando com ele, ele me disse: Olha, Luiz Sá, eu gosto muito do seu desenho, e tudo isso e muito bom, mas tem uma coisa que não tava certa! Eu disse: E qual é deputado? Ele disse: Você fez a Câmara dos Deputados alegre, com todo mundo rindo! A Câmara dos deputados não ri, sr. Luiz Sá! Eu disse: Tá certo, Deputado, é você que está dizendo isso, mas não há alguém na Câmara que dorme? É certo que há. Pois bem, eu fiz esse que dorme de vez em quando. Aí ele deu uma gargalhada! O sr. tem razão mesmo! São tantos fatos interessantes. No cinema tem muita emoção.

MCC: E no esporte, não tem fato interessantes, não?

Luiz Sá: Não, no esporte sou Flamengo, doia mas as eu fazia meu Flamengo arrasado, e quando ele perdia mas tinha que fazer. Agora, fazia com satisfação quando o Vasco perdia e principalmente para o Flamengo, né?

O Riso, 1947.

MCC: Qual eram seus contemporâneos, de chargistas?

Luiz Sá: Chargista tinha o Péricles, do Amigo da Onça, formidável, meu amigo. Tinha o Paulo Affonso, tinha o Theo, que era bom caricaturista pessoal, J. Carlos, grande amigo, que era o mestre. O Storni, já quase no fim, com oitenta e tantos anos e ainda tem um caricaturista n'O Tico-Tico...

MCC: Yantok?

Luiz Sá: Yantok, é bom...  Que agora o Jornal do Brasil fez uma página inteira com o cinquentenário d'O Tico-Tico, que se fosse vivo faria 50 anos, então, lembrou todo mundo, inclusive o Loureiro, que começou em 1905, foi quem adaptou o Chiquinho, o Jagunço e o Benjamim, que eram americanos, para O Tico-Tico, e terminou comigo que era o mais novo daquela turma d'O Tico-Tico.

MCC: E essa turma tinha assim uma preocupação de um estilo como caricaturista?

Luiz Sá: Tinha! O Theo, por exemplo, era um excelente chargista político. Sabia fazer a charge política.

MCC: Havia bronca com censura?

Luiz Sá: Não, não, não. Censura depois, no tempo do Getúlio houve uma censura, mas não havia censura. No cinema havia censura.

MCC: Era só com os outros chargistas? O J. Carlos?

Luiz Sá: J. Carlos, o Péricles do Amigo da Onça, formidável. Aí começou a aparecer o Carlos Estevão, depois veio o Ziraldo, que pra mim é um excelente caricaturista atualmente. Carlos Estevão morreu há pouco tempo.

Biblioteca Infantil do Tico-Tico, nº 2 - No Mundo dos Bichos.

MMC: Tico-Tico por que terminou? Quais as razões?

Luiz Sá: Tico-Tico terminou pelo seguinte: a Sociedade Anônima O Malho não podia competir com as revistas lançadas pel'O Globo, que pagavam reproduções americanas, um preço barato, revendia reproduções. Não podia pagar o preço de uma reprodução, que ninguém ia fazer. Quer dizer, por uma revista Tico-Tico ia vender pelo preço três ou quatro vezes superior aos Gibis. Então, não aguentou. Foi indo, foi indo até que estourou, terminou e fechou. Foi isso. O que matou o quadrinho brasileiro foi isso. Ninguém entra numa revista daquelas porque não querem pagar, né? Se eu for procurar 200, 300 cruezeiros por uma página eles me matam, porque eles compram aquilo por uma ninharia, né? Então, tem uns compadres que é muito meu amigo e que nunca me pediu pra fazer. Ele sabe que eu poderia fazer, mas não pelo preço que ele paga. E ele tá certo, porque é um comerciante, né? E eu dou razão pra ele, porque se ele é um comerciante, tá certo, né? E ele faz pra ter lucro, se for pra ter prejuízo ele não vai fazer.

MCC: O sr. trabalhou para a editora O Malho e que outras revistas?

Luiz Sá: Trabalhei para a Revista Esportiva, fiz ilustrações para uma revista que chama A Semana, para o Fon-Fon trabalhei, lá o Alziro Zarur dirigia, trabalhei pra ele, muita revista.

MCC: E jornal?

Luiz Sá: Jornal? Trabalhei na Vanguarda, chargista, tinha uma página de esporte na Vanguarda. E ilustrava muita coisa, calendários, quando tinha campanha contra acidentes de trabalho, eu fiz durante uns 15 anos calendário colorido, tudo isso. Aqueles livros de conselhos, sabe? Pra operários, tudo isso e muito, muito serviço.

MCC: Sua atividade sempre foi o boneco?

Luiz Sá: Só fazer boneco. A única coisa que eu sei fazer, faço muito bem, gosto de fazer! Parece mentira!


MCC: É muito difícil?

Luiz Sá: Muito difícil? A maioria dos filmes brasileiros, do Jece, do Roberto Farias, do Paulo Porto, todos lá, daqueles do cinema, sou eu que faço as letras.

MCC: É mesmo?

Luiz Sá: É. Agora mesmo, minha filha tá mandando um envelope com fotografias pra eu abrir um letreiro para o Farias, num filme que ele vai fazer, tá fazendo. Eu estou aqui, fazendo, pagam muito bem, letra você não precisa pensar muito, basta pensar num tipo de letra. É por letreiro, se é a palavra FIM, pagam o mesmo preço de uma que tem 4 ou 5 nomes, 40 cruzeiros.

MCC: Quais os filmes?

Luiz Sá: Fiz tantos! Todos do Jece Valadão fui eu que fiz. Do Herbert Richers quase todos eu fiz, agora o Herbert não tá produzindo mais. Roberto Farias eu faço, todos os principais.

MCC: E para a televisão, fez alguma coisa?

Luiz Sá: para a televisão ilustrei um jornal do Heron Domingues, durante um ano. Até a TV Rio fechar. O Heron dava a notícia e aparecia uma charge da notícia por trás. isso na TV Rio.


Livro: Gramática? Já Era...; Antonio Luiz Mendes da Almeida; 1972. 

MCC: Quando foi o seu casamento? Lembra-se a data?

Luiz Sá: Casei-me no dia 16 de setembro de 1933.

MCC: E a esposa, qual o nome?

Luiz Sá: Marcília Rosa de Araújo.

MCC: E da família inteira?

Luiz Sá: Dois filhos: Luiz Sá de Araújo Filho e Jacira Araújo. Tenho seis netos, um com 21, próximo de casar. Daqui a pouco serie bisavô!

MCC: Qual sua opinião sobre a história em quadrinhos americana?

Luiz Sá: Aquilo é feito um trabalho de equipe, os bonecos sempre iguais. Em 1940, quando Walter Disney esteve no Brasil, eu fui na reunião que ele deu para os artistas todinhos e eu conheci um deles, chama-se não-sei-o-quê Lee, falava espanhol, falando com ele, ele desenhava o pato igualzinho o Walter Disney, todos eles faziam o desenho! Quem trabalhava na equipe, todos eles sabiam fazer o pato igualzinho ao Walter Disney! 

O desenho animado de Luiz Sá.

Eu fiz um desenho animado, né? Produzi um desenho animado. Todo mundo gostou! E quando eu quis mostrar ao Walter Disney, levei pra mostrar, no dia lá da sessão no DIP, um senhor, que era nesse tempo, diretor da Agência Nacional, disse: Não, eu não vou mostrar isso, uma coisa pobre! E é mesmo, tem que ser pobre! Foi feito por mim! Foi pra mostrar o esforço, que no Brasil pode se fazer desenho bem alijado como todo o mundo, com os movimentos, com tudo isso! E esse desenho, depois, fiz uma cópia e depois chegou um sujeito, tinha feito uma fábrica de projetorezinhos pra criança, ele chegou e disse: Quer vender seu filme? E eu vendi o filme a ele. Ele cortava em pedacinhos e quem comprava o projetor levava um pedacinho. E agora, numa reportagem que fizeram sobre mim, em O Bicho, eu falei que tinha feito esse desenho animado e tudo isso, então, o Fortuna, que era o editor da revista, ele descobriu um rolinho de fita desses, e n'O Bicho tá publicado, lá! Não foi na primeira reportagem, foi na segunda reportagem que ele disse: Eu disse que ele havia feito o desenho animado, e quando eu mato a cobra eu mostro o pau. Eu matei a cobra, tá aqui a cobra, e mostrou os quadrinhos com aquela sequencia do desenho animado.

Eu desisti (do desenho animado), que aquilo é trabalho de equipe!

MCC: E qual a diferença fundamental entre as histórias em quadrinhos antigas e as atuais?

Luiz Sá: Hoje é uma realidade diferente. Tá de acordo com a mentalidade da criança. A mentalidade da criança de hoje é completamente diferente da antiga, né? Hoje nós não podemos fazer aquelas histórias tão infantis como se fazia, hoje não se pode fazer como fazíamos antigamente. Hoje não! Quer uma história moderna. Se ele vê uma história daquelas, tão bobinha, tudo isso aí...


Eu criei diversos personagens, além de Reco-Reco, Bolão e Azeitona; eu tinha Maria Fumaça, uma crioulinha; Faísca, um papagaio, feito antes do Zé Carioca, eu fiz em 1937, chamava-se Louro, depois eu mudei pra Faísca; e tinha a Formiguinha Inteligente, uma formiguinha inteligente que resolvia os problemas dela; e Pinga Fogo, esse fiz em livro, um detetive errado. Publiquei um livro de Pinga Fogo, publiquei um livro de Reco-Reco. Isso os personagens principais. Daí ilustração de tudo, ilustrações sempre me couberam, obviamente, nunca soube desenhar. Incapaz de fazer uma caricatura. Não faço a minha de jeito nenhum. Sou um sujeito anguloso e meu traços são todinhos redondos, não dá certo de jeito nenhum!


MCC: Se fosse começar tudo de novo, qual profissão escolheria?

Luiz Sá: Sou um sujeito estravagante, não tenho nada! Não ganhei fortunas, mas ganhei bem. Mas ganhei pencas! Assim como o dinheiro entrava, saia. Não me arrependo de coisa alguma. Se tivesse que fazer novamente, faria tudo o que fiz. Não tenho nada, não tenho aposentadoria, não tenho emprego. Até hoje ainda vivo de free-lancer. Fiz o bem quando pude, o mal nunca fiz, por isso não me arrependo do que fiz! Viveria novamente a mesma vida. Que eu gostava de uma boa Ypioka, um bom uísque, um bom bar, uma boa boate. 

Decorei, por exemplo, com o Ziembinski, cenários para o Cassino Atlântica, até em 1944, quando o cassino fechou eu parei. Trabalhei com o Ziembinski. Já no final, trabalhei com o velho e grande amigo Paurilo Barroso! E cheguei aqui, infelizmente não encontrei mais ele. Quando comecei o presidente era o Crisanto Moreira da Rocha, trabalhei dois anos lá. Fiz uma peça com ele, aqueles teatrinhos de bolso que havia com Gisa Bôscoli, era Banana Nanica, com Aracy de Almeida, o Colé, tudo isso. Cenários e texto meu e da Gisa Bôscoli. Escrevia isso pra crianças.

MCC: E nessa época, do Cassino, você conviveu com grandes personalidades da música, do teatro?

Luiz Sá: Principalmente com os daqui. Daqueles artistas estrangeiros que vinham se apresentar, não travava conhecimento com ninguém. É mais com aquelas grandes orquestras, do maestro Borba, grandes pessoas, o Ziembinski, um grande artista, daquele meio artístico e muitas pessoas!

MCC: E desses meios todos, qual foi a tendência que mais marcou sua vida?

Luiz Sá: Pra mim foi o cinema, porque a grande vantagem do cinema é a seguinte: quando eu fazia uma charge boa, todo mundo ria, quando a charge não era boa, ninguém vaiava! Quer dizer, a vantagem estava sempre comigo (risos)! Quer dizer, se houvesse a vaia, eu ia pesar numa balança! E o jornal era disputado pelas cenas que vinham. Tanto quanto o filme, quanto o desenho, porque era muito mais interessantes do que os outros jornais parados, que só tinham figuras, pelo menos tinha realmente alguma coisa pra você ouvir, né? Eram dois jornais, um esportivo e o outro social. O esportivo era melhor do que o social. O social às vezes viam...

MCC: E qual o conselho que você daria aos artistas que fosse começar?

Luiz Sá: Faça aquilo que vier na sua cabeça. Não deixe ser influenciado por ninguém, faça! Se não estiver bom, com o tempo ele vai melhorando, melhorando, como aconteceu comigo. Meus bonecos hoje são completamente diferentes, evoluiram, têm mais elegância. Meus bonecos eram pequenos, baixinhos, difíceis de fazer o movimento, então eu estiquei as pernas pra dar mais movimento à figura, e é uma transformação. E isso não acontece só comigo não! Você pega um pato Donald do Disney, completamente diferente do bico comprido de antes. Você pega um Mickey mouse é um rato completamente diferente, ele tem evoluído.

Luiz Sá n'O Tico-Tico em 4 de abril de 1931.

MCC: Tá em progressão!

Luiz Sá: Tá em progressão, é isso mesmo. Eu farei um desenho hoje, amanhã eu verei o desenho e direi: hoje eu faria melhor!

MCC: E a sátira, mudou? Como?

Luiz Sá: A sátira ainda existe! E o Ziraldo? Tem muita coisa boa, né? Tem o Lan, ele e o Ziraldo se revezam, têm uma boa charge, né? O Pasquim!

MCC: Dentro do seu estilo nunca caricaturou ninguém?

Luiz Sá: Não, mesmo porque não dá o meu traço, né? O meu nariz é uma batata, a orelha é um três, um rosto anguloso como o meu não dá, não pode, fica redondo, nunca tive jeito de fazer caricatura. Nem quando não tinha um traço definido, tentava fazer e nunca deu certo. É um estilo completamente diferente.

Há pessoas que que fazem a caricatura e a charge e fazem a caricatura pessoal muito bem, como tinha o Martiniano, formidável, né? Martiniano, um grande caricaturista. Ah, tinha o Mendez, ainda! Mendez agora é pintor, deixou a caricatura e tá pintando. 

MCC: E a sua pintura? Fale um pouco dela.

Luiz Sá: A óleo, só fiz agora, foi a última exposição que fiz, fiz uma exposição sacra, fiz quadros desde o nascimento de Cristo até o altar da crucificação. Mas eu só desenhava as figuras não santificadas. Por exemplo, tenho um São Jorge, esse quadro eu tenho em casa, tem um dragão no chão botando fogo, um cavalo pisando com a pata e em cima do cavalo uma chama assim, de luz, um facho de luz, representa São Jorge com uma lança matando o dragão, São Jorge é uma luz.


MCC: Todos os santos são representados como luz?

Luiz Sá: Todos os santos são representados como luz. O mesmo com Jesus Cristo, aparece no meio dos ladrões na crucificação, no canto o mau ladrão, um cabra feio, todo vermelho, parece o diabo. Mais do lado o bom ladrão com as feições mais suaves, e no centro sem você ver, da cruz, tem aquele facho de luz, você vê a coroa de espinhos, vê os cravos na ponta das mãos e dos pés e o sangue no peito. E ele é aquela luz. Aquilo com um degradê de fogo! Um degradê do azul ao preto. E fiz toda a história sagrada. O Cristo expulsando os vendilhões do templo, a fuga para o Egito, tudo! Por exemplo, no nascimento de Cristo tem no primeiro plano um pastor, o bracinho cruzado, a mangedoura cheia de capim e de dentro dessa mangedoura sai aquele facho de luz. No fundo você vê um cajado, que era aquela bengala que São José usava, um cajado e aquela auréola e ao lado uma auréola maior que é Nossa Senhora. E fiz um bom sucesso, vendi quase tudo, dei um bocado, que eu fiz trinta e tantos quadros, vendi vinte e poucos, dos mais me pediam e eu dava, mas tem uns que não saem daqui de jeito nenhum. Tem lá em casa esse São Jorge, tem Salomé e a cabeça de Batista, quer dizer, Salomé com a mão saindo assim com a bandeja, uma espada daquela grande e dentro da bandeja aquele facho de luz que é a cabeça de Batista. E tem outro, que tem até uma fala muito engraçada de um amigo meu, é um leiloeiro muito espirituoso, que é O Diabo Tentando Cristo na Montanha, então, vem aquele facho de luz e tem o diabo assim, então ele disse que o diabo tava jogando figurinha com Cristo! (risos)

Livro: Criança Diz Cada Uma; Pedro Bloch; Ediouro.

MCC: E seus planos para o futuro?

Luiz Sá: Viver o resto da vida como puder, né? Eu tenho inspiração, tendo trabalho posso trabalhar!

MCC: Em termos profissionais?

Luiz Sá: Posso trabalhar! Tô com a mão firme! Tô fazendo um bocado de desenho para as sobrinhas. Cada uma quer! Já fiz catorze desenhos, coisas do Norte, coisas daqui! Dois dedos! Caboclo fazendo assim: dois dedos, ponha dois dedos! Uma pinguinha assim, naquelas vendinhas de beira de estrada, que tem, né? Fiz também um outro, eu tenho um sobrinho que é carioca, então, eu fiz um pra ele assim: um feijão forte, um feijão alto e forte, né? 


Eu sempre tive, modestia á parte, muita facilidade de ter a legenda daquilo que eu faço, sempre tive boa legenda.

MCC: Com guache ou aquarela?

Luiz Sá: Com guache, gosto do guache!

MCC: E a fonte de inspiração sua, qual é?

Luiz Sá: Ah, depende do assunto, do momento! Eu fiz agora, já fiz treze desenhos, todos coloridos, todos a guache, coloridos, seis pra um, sete pra outro, ainda tenho um pra fazer lá. E a inspiração vem!

MCC: Por que não faz uma exposição em Fortaleza?

Luiz Sá: Eu fiz, em Fortaleza eu já fiz!

MCC: Mas quando? Eu quero dizer agora!

Luiz Sá: Não dá tempo, agora não dá tempo! Que eu tenho esses compromissos, eu tenho que fazer esses desenhos pra família!


MCC: Quando foi feita essa exposição, então?

Luiz Sá: Foi em 1938, quando eu estive aqui. A última vez que eu estive aqui.

MCC: Onde foi?

Luiz Sá: Foi no Salão Moderno. No antigo Salão Moderno, no Raimundo's, eu estive no salão para expor. Lá eu tive uma boa crítica, uma boa tudo. Foi onde encontrei essa pessoa que fez uma boa reportagem, muito boa, o João Jacques, que era d'O Povo, presidente.

MCC: E a que se deve essa sua atual visita?

Luiz Sá: À minha cunhada. Eu não tinha pensado em vir ao Ceará, mas aí minha cunhada foi ao Rio e disse: seu irmão quer lher ver, você vai? Então vamos? E eu vim correndo. Daí em diante tive que vir por outros também. No entanto, eu ia embora agora, mas recebi uma intimação do Dr. Bié, para esperá-lo no dia dez de março aqui. Quer dizer, vou ter que ficar até o fim do mês de março.

MCC: Mas não chegou a servir o exército, né?

Luiz Sá: Só o tiro de guerra. Tirei caderneta de reservista no Tiro 38, aqui! Foi antes de eu ir, foi em 1928.

MCC: Não quis participar da Revolução?

Luiz Sá: Não! (risos)

MCC: Agora falta agradecer essa entrevista, esse depoimento, que realmente vai dar um subsídio muito bom e importante para a história da arte cearence.

Luiz Sá: O agradecido aqui deve ser eu, não esperava isso! 

MCC: É um trabalho que merece toda a nossa admiração!

Luiz Sá: Muito obrigado, estou às ordens para qualquer coisa!

FIM

*Agradecimentos a Weaver Lima e ao amigo João Antonio Buhrer pelo envio da entrevista.

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