sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Jacques Douglas - editora Vecchi - 1977

Jacques Douglas por Francisco Sampaio.

"Jacques Douglas era uma fotonovela italiana de grande sucesso. O autor desta série foi Stelio Rizzo, enquanto os diretores foram Sergio Cecconi, Luciano Francioli e Paolo Brunetti.

Jaques Douglas foi cancelado em 1976. No ano seguinte, foi transformado em história em quadrinhos pela editora Vecchi do Brasil: Mistério Jaques Douglas, criada pelo editor Otacílio D'Assunção, era uma revista com 132 páginas que trazia, além de uma aventura em quadrinhos completa do herói (com cerca de 32 páginas), contos policiais, reportagens e diversos outros atrativos para os leitores da época. As aventuras brazucas de Jacques Douglas eram produzidas por Hélio do Soveral e com desenhos Sampa (Francisco Sampaio) e Juarez odilon, no melhor estilo James Bond".

A revista teve 9 edições, mas a última não trouxe a aventura em quadrinhos.

Jacques Douglas por Juarez Odilon.

Sobre Hélio do Soveral: "Hélio do Soveral Rodrigues de Oliveira Trigo, mais conhecido como Hélio do Soveral (Setúbal, Portugal, 30 de setembro de 1918—Brasília, Brasil, 21 de março de 2001) foi um prolífico radialista e escritor infanto-juvenil e pulp brasileiro, publicou dezenas de livros que se tornaram muito populares nas décadas de 1970 e 1980. Usou os pseudônimos Alexeya Slovenskaia Rubenitch, Allan Doyle, Clarence Mason, Ell Sov, Frank Rougler, Gedeão Madureira, Hélio do Soveral, Irani de Castro, John Key, K.O. Durban, Louis Brent, Luiz de Santiago, Maruí Martins, Sigmund Gunther, Stanley Goldwin, Tony Manhattan, Yago Avenir dos Santos, W. Tell".
O Judoka por Francisco Sampaio.

Sobre Francisco Sampaio: "Francisco Ferreira Sampaio iniciou carreira de desenhista ao se mudar para o Rio para trabalhar na EBAL, fazendo "O Judoka" e outros.

Após esse período na EBAL, Sampa desenhou os quadrinhos do "Jacques Douglas", para a editora Vecchi. 

Sofrendo de problemas psicológicos e financeiros, suicidou ao pular da janela de seu apartamento, no bairro de Fátima". 

Antônio Luiz Ribeiro
Sampaio também criou Isolino, uma sátira aos super-heróis, para a editora Gorrion em 1973.

Sobre Juarez Odilon a Enciclopédia dos Quadrinhos (Goida/André Kleinert - L&PM - 2011) destaca: 

"Odilon, Juarez - Brasil

Capista, ilustrador e quadrinista, Juarez Odilon tem mais histórias anônimas que com a sua assinatura. Trabalhando para a Rio Gráfica Editora, em fins de 1950 e início de 1960, ele muitas vezes supriu a falta de material original de séries como "O Cavaleiro Negro" e até do "Fantasma". Em 1961, chegou a desenhar o Capitão Estrela, de curta duração, e o Capitão 7 nas revistas da editora Continental/Outubro. Para a EBAL, ele trabalhou principalmente como ilustrador e capista, mas chegou a desenhar também algumas histórias da série nacional "Judoka" (1969). Fez também algumas aventuras de O Anjo (RGE), personagem ilustrado na sua primeira fase por Flávio Colin".
O Judoka por Juarez Odilon em 1973.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Capitão Aza - Diário de Notícias - 1976


O célebre apresentador de TV Wilson Vasconcelos Vianna (1928-2003) ganhou, em 1976, uma série de aventuras em tiras, publicadas no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, com arte de Carlos Chagas e roteiros de Cláudio Almeida, parceiros de longa data.

Em tom de ficção científica e recheada de equipamentos bélicos, uma das especialidades do desenhista, contava as façanhas de Adalberto Azam, ou o Capitão Aza, um sobrevivente da 2ª Guerra Mundial com várias próteses biônicas e que agora serve ao país em casos internacionais.

Em sete de abril daquele ano o Diário de Notícias publicou: 

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"Capitão Aza - Herói brasileiro do planeta Terra

A voz e a de um ator que dispensa o microfone; a oratória é a de um advogado brilhante em plenário; o físico e a decisão são a de um atleta e de um capitão. Capitão Aza, que é Wilson Viana, e que a partir da segunda quinzena deste mês, estará diariamente nas páginas do DIÁRIO DE NOTICIAS. 

História em quadrinhos. Sem armas mortíferas. Sem tanques. História em que ele enfrenta "O Tirano de Cyclops". E ao menor perigo, corre a defender o seu "herói civil", Beto Azam.

Agora, leitor infantil, onde quer que você se encontre e em que frequência estiver você atuando, atenda ao meu comando, que é uma ordem para a alegria das crianças. Três, dois, um... câmbio!

Wilson Viana - É a história do novo herói nacional, Beto Azam, nome este em homenagem ao capitão da FAB, Adalberto Azambuja, figura exponencial dos quadros da Força Expedicionária Brasileira, morto em 1943.

Beto Azam (personagem se antecipando aos quadrinhos - Eu vou lutar contra seres de outros planetas. Nossa primeira aventura começa nos rochedas dos Abrolhos onde sabemos, através de in- vestigacões, existirem habitantes de Cyclops. Eles querem conquistar a Terra e, para isso, usam mil disfarces. Chegam mesmo a ter aparência humana, mas haveremos de descobri-los. E vencê-los. Um por um".

Como podemos perceber, a redação não tinha uma ideia exata do que ocorreria nas aventuras do Capitão Aza!

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Carlos Chagas apresentava um desenho de excepcional qualidade em sintonia com o que de mais moderno se fazia em termos de tiras naquele momento, com um traço que lembrava bastante o desenhista Al Williamson.

Em sua página nas redes sociaisChagas esclarece: "Desenhei do Capitão AZA, para o Diário de Notícias, em 1976, quando tinha 22 anos. Ao todo, desenhei 53 ou 54 tiras, antes que o jornal fechasse de repente. Nunca recebi pelo trabalho".

Sobre o personagem, a Wikipédia nos esclarece: "O Capitão AZA foi criado em setembro de 1966, durante a ditadura militar, servindo como homenagem a um falecido herói da FAB que lutou na Segunda Guerra Mundial, o capitão aviador Adalberto Azambuja, que era conhecido como AZA entre os aviadores.

O Capitão AZA, com seu uniforme aeronáutico e o capacete de piloto com o "A" com duas asas, era interpretado pelo ator e policial civil Wilson Vianna e foi criado para tentar superar o programa concorrente da Rede Globo, Capitão Furacão, tendo conseguido tal objetivo após alguns meses, liderando a audiência junto aos mais jovens". 


O Capitão Aza em 1973 no Cruzeiro Infantil no traço de Ari Moreira.

"Em 1973, o personagem Capitão Aza teve histórias em quadrinhos publicadas na revista "O Cruzeiro Infantil" da Editora O Cruzeiro".
O Capitão Aza em 1974 no Cruzeiro Infantil no traço de Villy.

Sobre Carlos Chagas e Cláudio Almeida, podemos ler na Enciclopédia dos Quadrinhos (Goida e André Kleinert, L&PM, 2011): 

"CHAGAS, Carlos - Brasil (1952) - Ilustrador e capista brasileiro, de trabalhos de alta qualidade, Chagas eventualmente aventura-se pelos quadrinhos. Gosta principalmente de histórias cômico-satíricas, que foram publicadas nas revistas Crazy, Pancada e Klik. As colaborações maiores de Carlos Chagas foram para a revista Mad na versão brasileira, primeiro pela Vecchi e depois pela Record, com magnífico trabalho de editoria de Ota, Otacílio D'Assunção)".

"ALMEIDA, Cláudio - Brasil (?) - Mais conhecido como roteirista e, esporadica­mente, desenhista, Cláudio Almeida dirigiu quase todo seu trabalho para a sátira e paródias. Gozou com programas de TV e novelas em revistas como Crazy (Bloch), Pancada (Abril) e Klik (Ebal), imi­tações da Mad e Sick norte-americanas. Também colaborou nas duas primeiras fases das edições brasileiras da Mad, publicadas respectivamente pela Vecchi e Record".

Cláudio criou as tiras de O Espectro para O Jornal, em 1969.



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Fêmur - Jornal do Brasil - 1979


Página dominical publicada no suplemento Quadrinhos do Jornal do Brasil a partir de 1979, Fêmur era um estereótipo de um garotinho canibal, semelhante àqueles mostrados nos antigos desenhos animados. 

Com um chapelão e um osso atravessado no nariz, tinha um humor divertido e nonsense compárável à Krazy Kat de George Herriman.


Produzido por Hector (Juan) Sapia, desenhista argentino radicado no Brasil, apresentava um desenho estilizado e sofisticado da mais alta qualidade. Fêmur teve mais de quatrocentos capítulos, publicados até, pelo menos, 1986.


Sobre Hector Sapia, lendo o site janelapédia, ficamos sabendo: "Diretor de arte e diretor de comerciais, que não se sabe bem se é argentino, italiano ou espanhol, já que, o que fala, ninguém entende. Mas é um grande diretor. Foi diretor de criação da Esquire. Sapia também foi desenhista de quadrinhos. Em 1970, as edições 62, 63, 64 e 68 da revista italiana Linus publicaram as histórias de seu personagem "Il Conte de Piombo" (O Conde de Chumbo, em referência aos antigos clichês de chumbo usados na impressão tipográfica).

No Brasil, o Jornal do Brasil chegou a publicar em diversas edições sua série "Fêmur", um canibal que andava com um osso preso no alto da cabeça".
Cena de O Conde de Chumbo.

Sobre o personagem Il Conte de Piomboo o blog italiano "Che cosa sono le nuvole" nos diz: 
"Metaquadrinhos e autoreferência"
O Conde de Chumbo (Itália 1970, em Linus, © Sapia, surreal)
Hector Juan Sapia
Quadrinhos surreais em que o Conde de Chumbo do título (quase nunca desenhado mas principalmente fotocopiado de uma imagem pré-existente) observa ou participa com relutância de eventos que incorporam os estereótipos da ficção popular.

Capa da revista Alter Linus em que o Conde aparece em destaque.

O episódio publicado em Alter Alter 9 de 1978 é provavelmente o mais metanarrativo, com um uso original do contorno dos quadros como elemento de cena e frequentes ultrapassagens da quarta parede".

sábado, 28 de julho de 2018

Malícia - revista Malícia - 1981

Malícia por Gustavo Machado.

Malícia era uma garota saudável que vivia suas aventuras nos mais diversos e inusitados locais. Foi publicada na revista homônima pela editora Grafipar a partir de 1981. 

Apesar de ser uma revista de fotos e textos, reservava sempre um lugar privilegiado para as aventuras coloridas de Malícia: as duas últimas páginas da edição.

As publicações da editora Grafipar, apesar de serem em formatinho e com um acabamento gráfico mais simples, superavam muito as revistas adultas das grandes editoras, abordando temas que raramente apareciam nessas outras publicações, como os problemas de ordem sexual e as questões LGBT.

Malícia tinha a colaboração de diversos autores como: Franco de Rosa, Watson Portela e Gustavo Machado.

Em correspondência ao informativo QI nº 150, Gustavo Machado declarou: "...havia ainda a Malícia, uma "prima" mais sacana da Maria Erótica, que saia em HQs de duas páginas em cores, na revista masculina homônima. Malícia também foi criada por Cláudio Seto, sendo desenhada por vários quadrinhistas da Grafipar, inclusive eu".
Malícia por Franco de Rosa.

Ao blog, Franco de Rosa deu o seguinte depoimento: "A Malícia foi criada por puro deleite do Claudio SetoComo sempre, ele queria colocar HQ em todo lugar. E viu essa possibilidade na nova revista, que se chamava Malícia.


Não lembro quem desenhou a primeira HQ.

A intensão do Seto também era permitir que os desenhistas pudessem desenhar páginas coloridas. E também ganhar um tanto a mais que as páginas convencionais. Era uma madeira dele bonificar a turma que o atendia as urgências em fechamentos, fazendo histórias específicas para atender à demanda.

Assim, creio que Watson Portela, Gustavo Machado e eu fomos os autores das aventuras de Malícia. Sempre com duas páginas, coloridas que saíam no final da revista.

Eu desenhei cada aventura com uma técnica diferente. Uma em ecoline, outra em guache, outra misturando lápis de cor e ecoline com guache. Isso porque meu principal objetivo nos anos 1980 era testar diferentes formas de acabamento.
Malícia por Watson Portela.

A Malícia não tinha uma personalidade. Era apenas uma garota livre que gostava de transar. Era loira porque a maioria das modelos da revista eram loiras. Pois as fotos vinham da Inglaterra. Eram fotos compradas de agências, repletas de imagens de modelos nórdicas.

O Gustavo Machado poderá me corrigir se estou errado, e informar sobre as páginas dele. Me lembro que ele fez uma HQ a lápis, colorizada com tinta... se não me engano, marcador.

O Seto costumava desenhar e escrever em todas as revistas. Não sei se o fez em Malícia, pois ela é de um período em que ele estava bastante atarefado. Eram muito títulos circulando".
Outras páginas de Gustavo Machado.

Sexo em cores

"Na virada dos anos de 1980, a Editora Grafipar quebraria um tabu de HQs nacionais eróticas em P&B, quando começou a publicar, ainda que timidamente em apenas duas páginas mensais, sua primeira HQ erótica em cores. A personagem era a voluptuosa Malícia, o mesmo nome da nova revista de bolso masculina onde era publicada. A criação de Claudio Seto era uma mistura da sua veterana Maria Erótica com Little Annie Fanny, outra loura escultural e famosa por suas HQs eróticas na revista Playboy.
Assim como na revista americana, a nossa Malícia era impressa em quatro cores, um luxo bem acima das costumeiras cores aplicadas das edições nacionais. Existe uma grande diferença entre uma página de quadrinhos pintada à mão para as demais colorizadas por seleção de cores, onde existe uma limitação, com uma pequena paleta de cores aplicadas na gráfica, como acontecia em 99% das HQs coloridas impressas no país.
O próprio Seto seria o autor da primeira história, e o resultado final era de encher os olhos.

Para minha total surpresa, fui convidado para fazer a segunda HQ da Malícia. Logo eu, que ainda titubeava na arte-final, recebia o grande desafio de colorir as duas páginas mensais da nova personagem. Não sei por que, mas topei sem medo. Até ali havia feito muito poucas artes coloridas, e sempre em trabalhos pessoais, nada que fosse encomendado. A única técnica de pintura que me atraia era com a aquarela líquida, a Ecoline.

Ainda na época da RGE, Fernando Bonini, para driblar a necessidade de comprar os caros vidrinhos importados de ecoline da marca Talens, usaria do jeitinho brasileiro para conseguir efeitos surpreendentemente similares com apenas canetas hidrográficas coloridas, manipuladas com pincel e água. Acabei ficando adepto daquela “ecoline dos pobres”, enquanto comprava aos poucos a vasta linha da sofisticada ecoline Talens.

Embora sem muita prática e destreza, dei conta das duas páginas em cores encomendadas, que foram aprovadas e publicadas. Melhor ainda, pouco tempo depois Seto pediu uma nova HQ, e na sequência faria ainda outras duas histórias, intercalando com outros desenhistas, como o próprio Seto, Watson e Franco de Rosa. Eu fazia desde os roteiros – menos na segunda HQ, escrita por Carlos Magno – e não levava mais do que dois dias para escrever, desenhar, artefinalizar a nanquim e colorir as duas páginas. Infelizmente, as oportunidades de fazer quadrinhos em cores na Grafipar seriam mínimas, acontecendo apenas em mais outras duas publicações em edições únicas: “Robô Gigante” e “Super Pinóquio”. Mesmo assim, estas seguiam o padrão habitual e limitado de cores aplicadas em gráfica".
Gustavo Machado

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Maurício de Sousa - Entrevista - 2015 - 2ª parte

Esta é a segunda e última parte da entrevista realizada com Maurício de Sousa em 2015. Depois de uma breve interrupção, quando Maurício foi dar uma outra entrevista para uma rádio de São Paulo, continuamos o bate-papo sobre tiras. Confiram!

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Luigi Rocco: Onde a gente tava? 

Maurício de Sousa: Eu não faço ideia...

Luigi Rocco: A gente tinha falado do Mug... Ah! Do Fogaça... 

Maurício de Sousa: O Fogaça foi um treco tão breve e rápido. E o Fogaça eu me lembro que tinha mais gente no estúdio trabalhando nele, não era só meu. 

Tira do Fogaça.

LR: O Luscar disse que trabalhou no Fogaça. 

Maurício de Sousa: É possível. Luscar fazia Cebolinha também pra mim. 

LR: Ele disse que quem fez no princípio foi o Vilmar. 

JAL: Vilmar era do Rio de Janeiro, não era? 

Maurício: Era do Rio, amigo do Flávio Colin. 

LR: O Fogaça você disse que foi uma coisa breve, né? Mas eu vi umas tiras que tinham numeração 600. 

Maurício: Não é possível*. 
*Foram produzidas mais de 600 tiras do Fogaça, publicadas pelo Diário Popular entre 1966 e 1968.

LR: Não é possível isso? Não durou seiscentas tiras? 

Maurício: Uma numeração qualquer aí...

LR: 60 tracinho um, coisa assim... (risos) 

Maurício: Seiscentas? Daria dois anos, três anos... 

LR: Daria pelo menos uns três anos... Duzentas por ano. 

JAL: É possível, não é? 

Maurício: Não, foi muito mais breve. Trabalhei um ano... Não tenho certeza. 

Worney Almeida de Souza: E os Dez Ajustados? Você disse que era uma família que vivia num cortiço, em São Paulo, tinha vários personagens. Mas era meio policial a história? Porque tinha um enredo de aparecer uns vilões... 

Maurício: Tinha umas coisas, mas era tudo meio gozação, brincadeira, não era nada muito sério. 

LR: A sequencia que eu li, foram umas doze tiras, sequestravam um cachorrinho, acho que pra pedir resgate... 

Maurício: Agora que você falou eu lembrei! Faz tempo... 

LR: Bom, foi um período curto. Uma coisa que eu queria perguntar, por exemplo, (mostrando uma capa da Folhinha de S. Paulo). Essa capa aqui, lembra disso? Tá assinada Joel, deve ser o Joel Link. Como é que você trabalhava? Ele trabalhava pra você? Vocês encomendavam o desenho? Como que era isso? 

Capa da Folhinha de S. Paulo com desenho de Joel Link.

Maurício: Ele trabalhava pra mim. 

LR: No seu estúdio? 

Maurício: Ele não era ligado, não sentava no estúdio. Ele frequentava, vinha, trazia o desenho*.
*Vários desenhistas que eram contratados dos estúdios de Maurício faziam desenhos anatomizados, inclusive assinando seus trabalhos, como Carlos Herrero, Apa (Benedito Aparecido da Silva) e Paulo Hamasaki

LR: Você trabalhava com a Lenita (de Miranda), vocês precisavam de uma ilustração realista, vocês chamavam o Joel e pediam? 

Maurício: Isso, quando precisávamos de uma coisinha diferenciada. 

LR: Meu avô assinava a Folha de S. Paulo já nos anos 60, então eu cresci, literalmente, lendo a Folhinha, fui alfabetizado assim. E minha tia era normalista e então ela guardava pros trabalhos de escola. 

WAZ: E eu colecionava o Super-Horácio. Só o Super-Horácio. Eu gostava do Super- Horácio! 

JAL: Não voltou mais o Super-Horácio, hein? 

Maurício: Super-Horácio foi uma revolta minha. Cansei de ver o Horácio apanhando. 

JAL: Só coitadinho! 

Maurício: Aí eu vesti uma capa nele e ele saiu voando por aí! 

WAZ: Deixa eu perguntar uma coisa. Os jornais que você mais publicou foram A Folha de S. Paulo, as tirinhas, que é até hoje... 

Maurício: O Diários Associados, Diário de São Paulo, Diário da Noite... 

WAZ: E a Tribuna de Santos? 

Maurício: Republicava. 

WAZ: É só republicação? Mas você tratava direto com eles? 

Maurício: Direto com eles. Falava com os diretores. Ia lá vendia, ia receber, fazia tudo. Era uma boa relação. 

WAZ: Até hoje publicam materia seu? 

Maurício: Não sei se hoje, mas até recentemente. O Diário de Mogi publica até hoje material meu, todo dia. 

WAZ: Mas aí não vale, é filho da terra! 

LR: É, eu tava lendo o Diário de Mogi, eles publicavam até pouco tempo Os Sousa. Achei bacana isso! 

WAZ: Pelo que eu entendo do seu trabalho, você fez diversas turmas diferentes. Você trabalha com universos diferentes. E, na verdade, você foi testando um público. Seria isso? 

Maurício: Foi, público, personagem. E até pra ver se a gente evoluia, no meu estúdio. Na criação. Trabalhava melhor, aperfeiçoava uma linha de personagens, tudo era na experimentação. 

WAZ: O teu primeiro estúdio ficava onde? Ficava em Mogi mesmo? 

Maurício: Em Mogi. Chamava de Bidulândia Serviços de Imprensa. Bem, eu comecei a desenhar foi no quarto de empregada da casa. Depois aluguei outro quartinho, uma sala comercial, e botei minhas tranqueiradas, gibis e tudo o mais, mesa de desenho e trabalhava lá. Ali peguei meu primeiro auxiliar, que não era desenhista, ele era um viajante, ele trazia o meu material pra São Paulo, pros jornais. Eu desenhava, passava pra ele, ele pegava o trem, trazia, levava... 

WAZ: Qual que era o nome dele? 

Maurício: Hummm, esqueci... 

JAL: O Graciano, (Sergio Graciano) que é um dos primeiros desenhistas que você contratou, ele tá aqui até hoje, 47 anos aqui na Maurício de Sousa... 

Maurício: Acho que 48. 

JAL: 48 anos!?! 

Maurício: O Graciano eu peguei quando tava com meu estúdio aqui em São Paulo, do lado da Folha. 

JAL: Já do lado da Folha? 

Maurício: Alameda Glete, um prédio de esquina, aluguei um apartamento pra morar e na sala principal do apartamento eu botei o estúdio, com uns 4 ou 5 auxiliares. 

WAZ: E você se lembra quem eram nessa primeira equipe ou não? 

Maurício: Lembro. O Graciano, que tá aqui. Um outro rapaz que também tá por aí, o Sérgio Cântara, você deve saber onde é que ele tá, tinha o Dudu, que era roteirista, Alberto Djinishian. 

Trabalho de Sergio Cântara para a Maurício de Sousa Produções.

LR: É, um nome árabe... 

Maurício: Armênio. Era um bom roteirista. 

JAL: Eles pegavam fácil, assim, pra fazer? Eram mais tiras, não é? 

Maurício: Eram mais tiras. 

LR: O Franco (de Rosa) falou dois nomes pra gente: Luiz Sanches e Mário Candia. Eles tiveram alguma ligação com você? 

Maurício: Não. 

LR: Não que você lembre. O Luiz Sanches trabalhava em A Nação, ele editava quadrinhos lá. 

Maurício: Mas eu nunca tive nada com (o jornal) A Nação. 

LR: E não lembra dos nomes também. Não trabalharam com você... 

WAZ: Deixa eu perguntar o teu processo de criação das tiras. A maioria das tiras eram piadas curtas, mas tinham algumas tiras que eram... 

Maurício: Séries. 

WAZ: Que eram séries, né? Como é que você desenvolvia o roteiro dessas séries, já que você trabalhava feito louco? Você tinha algum método pra desenvolver isso? 

Maurício: É, eu não escrevia a história completa, eu ia criando. 

WAZ: Conforme ia desenvolvendo ia criando? 

JAL: Mas como você conseguia terminar na boa? 

Maurício: Eu terminava e... 

JAL: Eu fazia assim também, eu começava a fazer a história, eu não sabia... no geral eu terminava com seis páginas ou um pouquinho mais longa, dez páginas, mas acabava dando certo. 

Maurício: É sempre assim! 

WAZ: Mas as tuas histórias, você programava pra uma aventura de um mês, dois meses, alguma coisa assim? 

Maurício: Não, vinha! O que viesse eu botava. As vezes demorava um mês, dois meses, três meses. 

WAZ: Pra completar... 

Maurício: É. História do Bidu tinha séries mais longas. Tinha no arquivo da Folha, pro pessoal pesquisar, olhar e tudo o mais. As vezes tinha meses, uma história levava meses. Eu tinha que ter cuidado pra manter a atenção do pessoal. Fazer sempre o último quadrinho um convite pra próxima. E tudo deu certo. Além disso, como eu aprendi a fazer, a ler história em quadrinhos em tiras seriadas no Gibi, eu assimilei a técnica, a prática pra isso, então, eu gostava de fazer histórias seriadas, eu tinha facilidade. 

WAZ: Agora eu queria que você me esclarecesse dois mistérios. O primeiro mistério: aquela história de terror que você levou pro (Jayme) Cortez. Você se lembra qual era o roteiro dessa história? Se tinha personagem? O que é que era essa história?

Maurício: Que personagem que nada. Eram quatro páginas só, um começo de história, não era uma história. 

WAZ: Mas o que é que era essa história? Você se lembra? 

Maurício: Lembro um pouco, não me lembro bem. Começava com uma história policial, tinha um mistério, alguém morreu. Tavam procurando o assassino. Mas era uma coisa muito horrorosa. e naquele tempo meu desenho já era meio cômico, desde criança, jovem, quando eu desenhava já tinha o estilo parecido com o atual, mas ali eu tive que forçar a barra e fazer um estilo mais... 

WAZ: Mais pro anatômico. 

Maurício: É, e eu não sabia, então chupava Alex Raymond, chupava histórias policiais americanas. Igual ao Gedeone fazia, igual todo mundo fazia. Mas depois de quatro páginas nem eu aguentei mais. 

WAZ: Mas aí você levou pro Cortez e o que ele falou? 

Maurício: Falou: É você que faz aquelas histórinhas pro jornal lá? Com aqueles personagens crianças? Falei: Sou! E ele: Se você faz aquilo, por que você traz essa merda aqui? Me traz aquele material que eu posso estudar alguma coisa. 

WAZ: E essa história você levou pra casa ou deixou pro Cortez? 

Maurício: Deixei com ele. Eu não tenho. 

WAZ: Essa valia criar uma máquina do tempo! 

LR: Pois é! A história perdida! 

WAZ: E o outro mistério... 

Maurício: E não tem só essa história. Tem tiras do Pererê que eu desenhei que também se perderam. 

JAL: O Ziraldo... Você entregou pra ele, né? 

Maurício: Entreguei pra ele. Ele perdeu. 

LR: Mas o Pererê do Ziraldo ou um Pererê qualquer? 

JAL: Do Ziraldo! O Ziraldo pediu pra ele desenhar. 

WAZ: Mas quando foi isso? 

Maurício: Nos anos 60. Eu morava em Bauru, tava trabalhando na Folha, fazendo as tirinhas da Folha. Daí, eu queria fazer gibi. As principais editoras do país estavam no Rio de Janeiro, inclusive a Cruzeiro, com o Pererê. Então eu cismei e falei, bem, eu vou levar o meu material, as tiras e tudo o mais como amostra e vou passar lá pela Rio Gráfica, Ebal, O Cruzeiro, pra oferecer meu material. E fiz isso. Peguei o trem, o trenzinho, lá em Bauru tem um trem, que eu pegava naquele tempo, parei em São Paulo e fui para o Rio de Janeiro, duro pra caramba, peguei uma pensãozinha no zona do cais do porto pra parar um pouquinho e em seguida fui para O Cruzeiro pra procurar o Ziraldo. Fui bem recebido, um lugar bonito, com ar condicionado, que eu detestava por causa daquele frio, mas paciência. E o Ziraldo me recebeu bem, e eu falei pra ele: gostaria de estudar uma possibilidade de publicar alguma coisa aqui também, de repente, uma revista. Ele disse: tá bem difícil, a situação aqui já não tá muito boa, a minha revista tá ameaçada de não ter continuidade, mas nós trabalhamos com os Diários Associados e os Diários têm tiras também, de repente, pra tiras você pode conseguir melhores condições aqui nos Diários Associados e, já que eu estou aqui fazendo revista, você não pode me fazer umas tiras do Pererê, que me faz falta, tiras de jornal. Saberia fazer? Eu disse: Posso tentar. Voltei lá pra minha pensãozinha no cais do porto, que era ruim, e fiz quatro ou cinco tiras grandonas assim, bem no estilo americano, e levei pra ele lá no Cruzeiro. 

WAZ: E eram piadas curtas? 

Maurício: Piadas curtas. Eu fiz. Já tinha facilidade. Levei pra ele lá no Cruzeiro. Ele falou: deixa aí que eu vou mostrar pro pessoal e ver o que acontece. E não aconteceu nada nunca, nunca mais! Fora tudo isso me perdeu as tiras. Falou que vai procurar, que deve estar lá no meio das coisas dele, não sei onde, que ele faz questão de levantar e vender porque acha que vai conseguir um bom preço (risos). 

LR: Vai vender no Mercado Livre! (risos) 

WAZ: E outro mistério: Você me falou uma vez que o pessoal da editora Grilo, anterior à editora Grilo, tinha te encomendado em 67, 68, uma revista da Mônica, e que você produziu, entregou e que nunca foi publicada. Essas histórias saíram em outro lugar ou não? 

Maurício: Essas histórias eu tirei cópia, daí eu fui reproduzindo, fui refazendo, pra depois usar. Mas, realmente, tava pronta pra sair. Até que, todos os jornalistas que estavam cuidando disso, todos saídos da Folha, sumiram, desapareceram, procuraram por eles e não acharam. Eu queria informações e não tinha. Cadê, cadê, cadê? Não acharam, não acharam, não acharam, desisti, perdi os contatos, não insisti, pensei que nunca mais ia sair a revista, até que em seguida fui procurado pelo pessoal da editora Abril que sugeriu que eu lançasse a revista Turma da Mônica. Perguntaram se eu tinha material eu falei: Eu tenho, acidentalmente eu tenho! Então vamos ver, vamos estudar, e começamos a conversar e nasceu a revista da Mônica pela editora Abril. Agora, como eles sabiam que eu tinha material, que eu tinha tudo pronto? Jamais vou saber, porque o pessoal que sumiu tava preso, a ditadura tinha trancafiado todos eles, então, esse mistério eu não sei. 

WAZ: Mas você não chegou a entregar fisicamente pra eles o material. Você só produziu mas não achou mais eles, é isso? 

Maurício: Algumas páginas eu entreguei sim! 

WAZ: Mas então essas histórias você readaptou e depois foram publicadas na Turma da Mônica? 

Maurício: É isso! 

WAZ: E a capa? 

Maurício: Não, não cheguei a fazer a capa. 

WAZ: Ah! Você só fez o miolo! 

Maurício: Mas, enquanto isso, tem uma outra história que eu não contei. Estava eu já na Folha, publicando minhas tiras, Piteco, Mônica, Cebolinha, daí fui procurado pela direção da Folha pra fazer um projeto de revista. Era... não me lembro a data... nenhuma referência... 

WAZ: Antes do Castelo Branco ou depois? Antes de 64 ou depois?

Maurício: Antes... peraí... quando é que o pessoal foi preso? Foi preso em... 68... 

WAZ: 68/69, porque o AI-5 foi em dezembro... 

Maurício: É... Então a Folha me convidou pra fazer umas revistas. Eu falei: posso fazer. Então tá bom, pode começar a se preparar pra gente acertar as coisas, pra gente fazer. Eu falei: posso anunciar isso? Botar a boca no mundo? Porque é interessante! Tava esperando uma oportunidade! E eles: Pode, pode fazer sim! Daí ei fiz três capas de revista, desenhei três capas de revista, a da revista Bidu, do Cebolinha e Piteco, se não me engano, e essas capas tiveram chamada na última página da Folhinha, então eu tenho prova física de que as revistas estavam sendo preparadas e iam sair pela Folha e iam rodar nas impressoras do jornal mesmo. E, pelo que eu soube, rodaram, fizeram tiragem grande, experimentaram, montaram as revistas. E, de repente, me avisaram que talvez não fosse sair mais. Que raios? Falam que vai sair. Autorizam a uma botar chamada, depois falam que não vai sair mais... Então, me dá uns números pra eu guardar. Nunca me deram nenhum número do que rodaram. Sentaram em cima e nunca liberaram. E eu era amigo do genro do Frias, dono da Folha, e era ele que tava cuidando disso. E ele era amigão meu. E ele: Não posso Maurício, não posso te dar. Me dá! Não posso. Briguei com ele até ele morrer... O que tá por trás: A editora Abril ameaçou lançar um jornal, isso não comprova o que eu estou falando, mas é a história que eu ouvi, e daí a Folha, fazendo um contraponto, falou: Tá bom, então vamos fazer revistas, pra concorrer com as revistas suas infantis do grupo Disney. E daí me autorizaram, que eu podia fazer, me fizeram botar a capa lá, que é a prova que eles estavam iniciando o processo pra fazer. Em seguida, entraram em acordo, você não lança jornal eu não lanço revista, e eu fiquei... 

JAL: Você ficou no meio do tiroteio! 

WAZ: Teu trabalho virou balão de ensaio, então! Que absurdo! 

JAL: É, essas coisas acontecem! Essas coisas de mercado. Só que o coitado ficou fazendo lá. Todo mundo acha que as coisas são simples, quando vê um cara de sucesso, essa coisa toda não é... 

Maurício: Sendo jogado pra lá e pra cá, sendo usado como massa de manobra... Na coleção da Folhinha tem as capas de revista, tem as chamadas lá. De vez em quando eu pego pra ver se é verdade mesmo! (risos)  

WAZ: Obrigado. 

LR: Maravilha! Muito obrigado. 


Em dezembro de 1967 são anunciadas no suplemento Folhinha de S. Paulo, para esse mesmo mês, quatro revistas de Maurício: Horácio, Bidu, Cebolinha e Piteco.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Maurício de Sousa - Entrevista - 2015 - 1ª parte

Entrevista inédita dada por Maurício de Sousa aos pesquisadores Luigi RoccoWorney Almeida de Souza (WAZ) e José Alberto Lovetro (JAL) em 14 de abril de 2015 nas dependências da Maurício de Sousa Produções.

O propósito da entrevista era falar sobre a série de tiras distribuídas por Maurício ao jornal Última Hora de São Paulo em 1966/1967. Como foi um período muito curto de publicação, cerca de 6 meses, o que é um tempo bastante pequeno dentro de uma carreira de quase 60 anos nos quadrinhos, é normal que Maurício não se lembre de todos os detalhes da ação.

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Começamos perguntando sobre o cartunista Otávio e sua série Canarinho.

Tira do Canarinho.

LR: ...ele trabalhava, ele era funcionário do Última Hora.

Maurício: É, ele era funcionário do Última Hora.

LR: Mas a história saiu com crédito da Maurício de Sousa...

Maurício: Foi gentileza de alguém... As vezes o pessoal recebia algumas tiras da MSP e vinha do mesmo jeito, vinha do mesmo lugar, e achava que era da Maurício, mas não era... Eu não distribuí*.

*Foram publicadas 85 tiras do personagem Canarinho, todas com o copyright da Maurício de Sousa Produções.

LR: Canarinho, não?

Maurício: Não, Canarinho, não! Distribuía Getulio Delphin*, distribuí um lá...

*As tiras de Getulio Delphin para o Última Hora foram: Comandos, Ficção e Miguel Rei.

Tira do personagem Miguel Rei.

Tira da série Ficção.


LR: Osvaldo Talo?

Maurício: Talo, não!

LR: Osvaldo Talo* também não? Porque tem três tiras, duas ou três tiras, que eram Paula, Caramuru...

*Questionado sobre o assunto, Osvaldo Talo disse que fazia as tiras para o Maurício e entregava para o secretário dele (do qual não lembra o nome) e esse secretário pagava e dava nota fiscal. Lembou-se também que fora apresentado a Maurício de Sousa por Gedeone Malagola.

Caramuru por Osvaldo Talo.

Maurício: Saíram algumas tiras com o selo da Maurício de Sousa Distribuições que não era eu quem distribuía!

WAZ: Quer dizer que dessa página o Mug era seu, a Caixa Alta era sua também?

Maurício: Caixa Alta era minha.

Tira da série Caixa Alta. Além da personagem título, aparece nesse episódio, o então diretor do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, Américo Fontenelle.

WAZ: Quer dizer que o material de aventura não era seu?

Maurício: Não! Eu tinha material de aventura, mas não esse.

WAZ: O que saiu no Última Hora não era seu?

Maurício: Não!

WAZ: Quer dizer que o jornal compunha a página com material seu e de outros autores, é isso?

Maurício: Sim, mas não é meu. Vai saber porque...

WAZ: Você se lembra do Otávio comentar alguma coisa sobre esse personagem, o Canarinho?

Maurício: Esse não.

LR: Mas ele conversava com você? Você tinha contato com ele?

Maurício: Sim, no jornal. A gente se encontrava no jornal, lá, e conversávamos sobre as coisas todas de histórias em quadrinhos, os problemas da política, da vida (risos)...

LR: Não devia ser fácil nessa época, todo mundo começando...

WAZ: Essa página de tiras começou em dezembro de 1966, eles até publicaram na primeira página um anúncio falando disso. Então quer dizer que pro Última Hora você só mandava a Caixa Alta e o Mug?

Maurício: Sim!

LR: Bom, tem uma tira chamada Professor, assinada por Dudu (Alberto Djinishian), que eu acho...

Professor, por Dudu.

Maurício: Era um roteirista meu!

LR: Mas você distribui esse material?

Maurício: Não!

LR: Tá certo...

JAL: Esse é o problema, porque daí depois, históricamente, você vê um negócio, você acha que... falta a informação!

Maurício: Distribuir, eu distribuía o Vizunga...

Vizunga de Flavio Colin.

LR: O Gaúcho, do Shimamoto...

Maurício: O Gaúcho, do Shimamoto, sim, então, eu tentei distribuir, era um sonho, mas depois eu desisti, porque veio uma crise aí, na época da ditadura, começou a vir uns problemas. Veio aquela campanha pela nacionalização das histórias em quadrinhos, eu criei um sindicato, um sindicato não, uma associação...

O Gaúcho, por Júlio Shimamoto.

WAZ: Você era o presidente da ADESP.

Maurício: Sim, ADESP, a Associação, e como presidente eu levei a breca!

JAL: Perdeu o emprego, né?

Maurício: É! Perdi o emprego... a Folha me mandou embora... os jornais aí, do outro lado, me chamavam de comunista, e eu não tava lá brigando por por política, eu tava defendendo a classe. Eu lutava por aquilo, naquele tempo, por uma coisa que agora tem nome, que era a cota. Eu brigava pela cota! Pra ter mais desenhistas brasileiros nos jornais e fiquei na rua da amargura porque me mandaram embora. E entrei pra uma lista negra, distribuída aos jornais, pra nenhum jornal publicar nada meu a partir daquele tempo! Eu fiquei gramando, aí, mais de um ano sem publicar nada porque eu tava proibido, estavam proibidos, né? De contratar nosso material! Eu parei, e daí todos os desenhistas também pararam, porque a Associação, que eles criaram lá em Porto Alegre, ficou com a gente, e veio a ditadura e daí acabou tudo!

O último trabalho da Maurício na Folha de S. Paulo, antes de ser dispensado, saiu em 20/06/1961. A aventura de Piteco permaneceu incompleta.

Enquanto isso, eu tava vendendo minhas historinhas, o que restava das minhas historinhas, em forma de clichês, alugando pra jornal de bairro e do interior, em algumas cidades, em sistema de rodízio. Uma vez por semana, mais ou menos, eu levava os clichês pro jornal, deixava uma parte lá, ia pro outro jornal, levava outros lá, com isso ia salvando o leite da criançada, até as coisas mudarem de rumo e depois de algum tempo, quando o sistema que eu criei pra redistribuir, desse jeito meio pré-histórico, começou a dar resultado porque outros jornais começaram a ver as tiras, e eu fiz um prospecto, fiz um folheto, e mandei pros jornais que eu achava que podiam se interessar. No começo eu mandava pros jornais só a cem quilômetros de Mogi das Cruzes, que é onde eu estava. Eu me enfiei, me exilei em Mogi das Cruzes, que era minha terra. Lá pelo menos tinha meu pai, minha vó, minha madrinha, que podiam me emprestar dinheiro pra mim tomar o ônibus...

JAL: Cem quilômetros dava pra pagar... (risos)

Maurício: E a partir de Mogi... Tava tudo parado, ninguém fazia mais nada, os desenhistas tavam fugindo lá de Porto Alegre, que não deu certo. Eu fiz um círculo de cem quilômetros pra poder visitar os jornais naquele círculo. Até ali dava pra eu chegar de ônibus. Mais longe eu não tinha o dinheiro pra voltar, então, até lá eu podia chegar. E lá, nessas cidades que eu ia, tinha os jornais pequenos e eu distribuia meus clichês. 

Fiz um prospecto, folder, mandei pros jornais que tavam na minha lista, daí mais distante um pouco, duzentos quilômetros, já peguei algumas capitais, Rio de janeiro inclusive, e daí começaram a chegar os cupons que eu mandava, preenchidos, com pedido de material. Aí já deu certo! Então comecei a trabalhar, trabalhei com Rio de Janeiro, Tribuna da Imprensa, lançaram o Piteco lá. Quando lançaram o Piteco, que já vinha pela Tribuna da Imprensa, que era um jornal do Carlos Lacerda, considerado direitista, o pessoal de São Paulo falou: Ah, então ele não era comunista! Então vamos chamá-lo pra fazer essa tranqueira aqui! E a Folha me chamou pra fazer a Folhinha de S. Paulo. E daí meu projeto da Folhinha, que nasceu dois anos atrás, eu pude botar em linha de novo. Contratei mais uns rapazes pra me ajudarem, pra aumentar minha produção, e em quatro anos a partir disto, eu já estava em trezentos jornais do Brasil.

Maurício na Tribuna da Imprensa (RJ) em dezembro de 1962.

WAZ: Isso em que ano mais ou menos?

Maurício: 1965, 1966?...

LR: A Folhinha começou em 1963, quatro anos depois você já tinha vencido essa barreira!

WAZ: Você se lembra como você entrou em contato com o Última Hora, pra publicar o Mug e a Caixa Alta?

Maurício: Tava no meu caminho! Eu morava em Mogi das Cruzes, o ponto final do ônibus que era em Mogi ficava a quarenta metros de lá... (risos)

LR: Tá certo, por que não aproveitar? É só um problema de mobilidade!

Maurício: (Última Hora) era no Anhangabaú, debaixo do viaduto. Por sinal, era um tempo difícil, antigamente, né? Eu entregava o material no Última Hora no fim da noite. Saia da Folha, que era o meu quartel general, passava lá, deixava o material, e meu último ônibus pra Mogi das Cruzes saia à meia-noite, ali, a cinquenta metros da porta do Última Hora. Daí, uma noite, saí de lá, deixei o material, saí correndo pra não perder o ônibus, daí, tava no meio do caminho, vinte metros, trinta metros, escutei um barulhinho, uma explosão, bum!, senti um bafo no ar, um deslocamento de ar..., fui empurrado, mas aí aproveitei o empurrão, corri no ônibus e peguei (risos). Olhei pra trás, tava pegando fogo, pegando fogo, não, tava esfumaçado, vidro quebrado. Tinham estourado uma bomba na porta do jornal, escapei por pouco! Saí correndo, a bomba não estourou perto de mim!

JAL: Caramba, podia ter virado a história! Quanto pesava essa mala de clichês que você levava?

Maurício: Clichê é pesado! É chumbo!

JAL: Uns dez quilos?

Maurício: Repuxava todos os músculos! Sei que eram uns trinta clichês!

WAZ: Esse personagem, a Caixa Alta, você se lembra como é que você construiu ele?

Maurício: Bem, eu tava buscando temas, personagens, falando coisas diferentes. Naquele tempo, eu não me considerava, não pretendia e nem pensava em ser autor de tiras infantis. Eu escrevia pra jornal e jornal é adulto! E então, tava no mundo adulto, era repórter policial, então buscava temas sociais. Caixa Alta, também criei os Dez Ajustados, que era uma família que morava num cortiço na rua Augusta, e era toda a problemática social da vida deles. Mas tudo cômico!

WAZ: Esses Dez Ajustados, ele durou mais tempo, né?

Maurício: Um pouquinho mais. Foi no Correio Paulistano.

WAZ: É, então, porque eu achei essas tiras na Tribuna de Santos.

Maurício: É, Tribuna de Santos. Criei o Boa Bola, no Diário da Noite.

LR: No caso do Mug, como é que foi isso?

Maurício: O Mug nasceu por que eu tava tentando fazer uma história em quadrinhos do Roberto Carlos e falei com o pessoal que cuidava disso, que era uma agência onde estava o Prosperi...

Tira do Mug.

JAL: Não era o Carlito Maia?

Maurício: O Carlito. Eram três que tomavam conta disso (agência Magaldi, Maia & Prosperi). Eles falaram: Maurício, nós queremos lançar um produto, um bonequinho, que é do Wilson Simonal, e nós queremos sugerir que esse produto, esse boneco, dá sorte. Você não quer fazer uma história em quadrinhos com esse produto? Eu disse: Faço! Inventei uma história seriada com o Mug. Inventei a história toda!

LR: Ele lutava contra os fajutos, que eram os Mugs piratas!

Maurício: Foi muito divertido!

JAL: Porque você sabe, né? Porque os piratas, começa a fazer sucesso, todo mundo copia!

WAZ: Na verdade, eles lançaram o produto e montaram uma campanha junto com o quadrinho pra alicerçar o produto, foi isso?

Maurício: Sim!

WAZ: Ah, que interessante!

Maurício: E foi o maior sucesso!

JAL: O pessoal lá do estúdio, as dezoito horas, eles tem uma gravação marcada...

WAZ: Deixa eu perguntar uma coisa, Maurício, você trabalhou com várias turmas diferentes. Vários ambientes diferentes de personagens, alguns não foram pra frente, mas eles não foram pra frente por que você já não conseguia desenhar tanto ou por que o roteiro, o ambiente deles, você achou que não seria mais adequado pra continuar?

Maurício: As duas coisas. Uma que realmente a musa eu sentia que não tinha força, eu criava, criava, empurrava, empurrava, nem eu mesmo gostava muito. E outros eu sentia que tinha mas ás vezes esbarrava com o jornal, que não se interessava em continuar com o processo. Então, foram as duas coisas, eu brigava de todo jeito! Era duro chegar nos jornais! Cada redator-chefe, cada diretor de jornal tinha uma cabeça. Eu tinha que vender o peixe, falar bem do meu material. No jornal esquerdista eu falava que a minha história era pra enfrentar o material americano e no jornal de direita eu falava que o meu material era tão bom quanto o americano. Daí, vamos ver!

JAL: É tinha um certo sentido!

FIM da primeira parte...