terça-feira, 17 de julho de 2018

Maurício de Sousa - Entrevista - 2015 - 1ª parte

Entrevista inédita dada por Maurício de Sousa aos pesquisadores Luigi RoccoWorney Almeida de Souza (WAZ) e José Alberto Lovetro (JAL) em 14 de abril de 2015 nas dependências da Maurício de Sousa Produções.

O propósito da entrevista era falar sobre a série de tiras distribuídas por Maurício ao jornal Última Hora de São Paulo em 1966/1967. Como foi um período muito curto de publicação, cerca de 6 meses, o que é um tempo bastante pequeno dentro de uma carreira de quase 60 anos nos quadrinhos, é normal que Maurício não se lembre de todos os detalhes da ação.

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Começamos perguntando sobre o cartunista Otávio e sua série Canarinho.

Tira do Canarinho.

LR: ...ele trabalhava, ele era funcionário do Última Hora.

Maurício: É, ele era funcionário do Última Hora.

LR: Mas a história saiu com crédito da Maurício de Sousa...

Maurício: Foi gentileza de alguém... As vezes o pessoal recebia algumas tiras da MSP e vinha do mesmo jeito, vinha do mesmo lugar, e achava que era da Maurício, mas não era... Eu não distribuí*.

*Foram publicadas 85 tiras do personagem Canarinho, todas com o copyright da Maurício de Sousa Produções.

LR: Canarinho, não?

Maurício: Não, Canarinho, não! Distribuía Getulio Delphin*, distribuí um lá...

*As tiras de Getulio Delphin para o Última Hora foram: Comandos, Ficção e Miguel Rei.

Tira do personagem Miguel Rei.

Tira da série Ficção.


LR: Osvaldo Talo?

Maurício: Talo, não!

LR: Osvaldo Talo* também não? Porque tem três tiras, duas ou três tiras, que eram Paula, Caramuru...

*Questionado sobre o assunto, Osvaldo Talo disse que fazia as tiras para o Maurício e entregava para o secretário dele (do qual não lembra o nome) e esse secretário pagava e dava nota fiscal. Lembou-se também que fora apresentado a Maurício de Sousa por Gedeone Malagola.

Caramuru por Osvaldo Talo.

Maurício: Saíram algumas tiras com o selo da Maurício de Sousa Distribuições que não era eu quem distribuía!

WAZ: Quer dizer que dessa página o Mug era seu, a Caixa Alta era sua também?

Maurício: Caixa Alta era minha.

Tira da série Caixa Alta. Além da personagem título, aparece nesse episódio, o então diretor do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, Américo Fontenelle.

WAZ: Quer dizer que o material de aventura não era seu?

Maurício: Não! Eu tinha material de aventura, mas não esse.

WAZ: O que saiu no Última Hora não era seu?

Maurício: Não!

WAZ: Quer dizer que o jornal compunha a página com material seu e de outros autores, é isso?

Maurício: Sim, mas não é meu. Vai saber porque...

WAZ: Você se lembra do Otávio comentar alguma coisa sobre esse personagem, o Canarinho?

Maurício: Esse não.

LR: Mas ele conversava com você? Você tinha contato com ele?

Maurício: Sim, no jornal. A gente se encontrava no jornal, lá, e conversávamos sobre as coisas todas de histórias em quadrinhos, os problemas da política, da vida (risos)...

LR: Não devia ser fácil nessa época, todo mundo começando...

WAZ: Essa página de tiras começou em dezembro de 1966, eles até publicaram na primeira página um anúncio falando disso. Então quer dizer que pro Última Hora você só mandava a Caixa Alta e o Mug?

Maurício: Sim!

LR: Bom, tem uma tira chamada Professor, assinada por Dudu (Alberto Djinishian), que eu acho...

Professor, por Dudu.

Maurício: Era um roteirista meu!

LR: Mas você distribui esse material?

Maurício: Não!

LR: Tá certo...

JAL: Esse é o problema, porque daí depois, históricamente, você vê um negócio, você acha que... falta a informação!

Maurício: Distribuir, eu distribuía o Vizunga...

Vizunga de Flavio Colin.

LR: O Gaúcho, do Shimamoto...

Maurício: O Gaúcho, do Shimamoto, sim, então, eu tentei distribuir, era um sonho, mas depois eu desisti, porque veio uma crise aí, na época da ditadura, começou a vir uns problemas. Veio aquela campanha pela nacionalização das histórias em quadrinhos, eu criei um sindicato, um sindicato não, uma associação...

O Gaúcho, por Júlio Shimamoto.

WAZ: Você era o presidente da ADESP.

Maurício: Sim, ADESP, a Associação, e como presidente eu levei a breca!

JAL: Perdeu o emprego, né?

Maurício: É! Perdi o emprego... a Folha me mandou embora... os jornais aí, do outro lado, me chamavam de comunista, e eu não tava lá brigando por por política, eu tava defendendo a classe. Eu lutava por aquilo, naquele tempo, por uma coisa que agora tem nome, que era a cota. Eu brigava pela cota! Pra ter mais desenhistas brasileiros nos jornais e fiquei na rua da amargura porque me mandaram embora. E entrei pra uma lista negra, distribuída aos jornais, pra nenhum jornal publicar nada meu a partir daquele tempo! Eu fiquei gramando, aí, mais de um ano sem publicar nada porque eu tava proibido, estavam proibidos, né? De contratar nosso material! Eu parei, e daí todos os desenhistas também pararam, porque a Associação, que eles criaram lá em Porto Alegre, ficou com a gente, e veio a ditadura e daí acabou tudo!

O último trabalho da Maurício na Folha de S. Paulo, antes de ser dispensado, saiu em 20/06/1961. A aventura de Piteco permaneceu incompleta.

Enquanto isso, eu tava vendendo minhas historinhas, o que restava das minhas historinhas, em forma de clichês, alugando pra jornal de bairro e do interior, em algumas cidades, em sistema de rodízio. Uma vez por semana, mais ou menos, eu levava os clichês pro jornal, deixava uma parte lá, ia pro outro jornal, levava outros lá, com isso ia salvando o leite da criançada, até as coisas mudarem de rumo e depois de algum tempo, quando o sistema que eu criei pra redistribuir, desse jeito meio pré-histórico, começou a dar resultado porque outros jornais começaram a ver as tiras, e eu fiz um prospecto, fiz um folheto, e mandei pros jornais que eu achava que podiam se interessar. No começo eu mandava pros jornais só a cem quilômetros de Mogi das Cruzes, que é onde eu estava. Eu me enfiei, me exilei em Mogi das Cruzes, que era minha terra. Lá pelo menos tinha meu pai, minha vó, minha madrinha, que podiam me emprestar dinheiro pra mim tomar o ônibus...

JAL: Cem quilômetros dava pra pagar... (risos)

Maurício: E a partir de Mogi... Tava tudo parado, ninguém fazia mais nada, os desenhistas tavam fugindo lá de Porto Alegre, que não deu certo. Eu fiz um círculo de cem quilômetros pra poder visitar os jornais naquele círculo. Até ali dava pra eu chegar de ônibus. Mais longe eu não tinha o dinheiro pra voltar, então, até lá eu podia chegar. E lá, nessas cidades que eu ia, tinha os jornais pequenos e eu distribuia meus clichês. 

Fiz um prospecto, folder, mandei pros jornais que tavam na minha lista, daí mais distante um pouco, duzentos quilômetros, já peguei algumas capitais, Rio de janeiro inclusive, e daí começaram a chegar os cupons que eu mandava, preenchidos, com pedido de material. Aí já deu certo! Então comecei a trabalhar, trabalhei com Rio de Janeiro, Tribuna da Imprensa, lançaram o Piteco lá. Quando lançaram o Piteco, que já vinha pela Tribuna da Imprensa, que era um jornal do Carlos Lacerda, considerado direitista, o pessoal de São Paulo falou: Ah, então ele não era comunista! Então vamos chamá-lo pra fazer essa tranqueira aqui! E a Folha me chamou pra fazer a Folhinha de S. Paulo. E daí meu projeto da Folhinha, que nasceu dois anos atrás, eu pude botar em linha de novo. Contratei mais uns rapazes pra me ajudarem, pra aumentar minha produção, e em quatro anos a partir disto, eu já estava em trezentos jornais do Brasil.

Maurício na Tribuna da Imprensa (RJ) em dezembro de 1962.

WAZ: Isso em que ano mais ou menos?

Maurício: 1965, 1966?...

LR: A Folhinha começou em 1963, quatro anos depois você já tinha vencido essa barreira!

WAZ: Você se lembra como você entrou em contato com o Última Hora, pra publicar o Mug e a Caixa Alta?

Maurício: Tava no meu caminho! Eu morava em Mogi das Cruzes, o ponto final do ônibus que era em Mogi ficava a quarenta metros de lá... (risos)

LR: Tá certo, por que não aproveitar? É só um problema de mobilidade!

Maurício: (Última Hora) era no Anhangabaú, debaixo do viaduto. Por sinal, era um tempo difícil, antigamente, né? Eu entregava o material no Última Hora no fim da noite. Saia da Folha, que era o meu quartel general, passava lá, deixava o material, e meu último ônibus pra Mogi das Cruzes saia à meia-noite, ali, a cinquenta metros da porta do Última Hora. Daí, uma noite, saí de lá, deixei o material, saí correndo pra não perder o ônibus, daí, tava no meio do caminho, vinte metros, trinta metros, escutei um barulhinho, uma explosão, bum!, senti um bafo no ar, um deslocamento de ar..., fui empurrado, mas aí aproveitei o empurrão, corri no ônibus e peguei (risos). Olhei pra trás, tava pegando fogo, pegando fogo, não, tava esfumaçado, vidro quebrado. Tinham estourado uma bomba na porta do jornal, escapei por pouco! Saí correndo, a bomba não estourou perto de mim!

JAL: Caramba, podia ter virado a história! Quanto pesava essa mala de clichês que você levava?

Maurício: Clichê é pesado! É chumbo!

JAL: Uns dez quilos?

Maurício: Repuxava todos os músculos! Sei que eram uns trinta clichês!

WAZ: Esse personagem, a Caixa Alta, você se lembra como é que você construiu ele?

Maurício: Bem, eu tava buscando temas, personagens, falando coisas diferentes. Naquele tempo, eu não me considerava, não pretendia e nem pensava em ser autor de tiras infantis. Eu escrevia pra jornal e jornal é adulto! E então, tava no mundo adulto, era repórter policial, então buscava temas sociais. Caixa Alta, também criei os Dez Ajustados, que era uma família que morava num cortiço na rua Augusta, e era toda a problemática social da vida deles. Mas tudo cômico!

WAZ: Esses Dez Ajustados, ele durou mais tempo, né?

Maurício: Um pouquinho mais. Foi no Correio Paulistano.

WAZ: É, então, porque eu achei essas tiras na Tribuna de Santos.

Maurício: É, Tribuna de Santos. Criei o Boa Bola, no Diário da Noite.

LR: No caso do Mug, como é que foi isso?

Maurício: O Mug nasceu por que eu tava tentando fazer uma história em quadrinhos do Roberto Carlos e falei com o pessoal que cuidava disso, que era uma agência onde estava o Prosperi...

Tira do Mug.

JAL: Não era o Carlito Maia?

Maurício: O Carlito. Eram três que tomavam conta disso (agência Magaldi, Maia & Prosperi). Eles falaram: Maurício, nós queremos lançar um produto, um bonequinho, que é do Wilson Simonal, e nós queremos sugerir que esse produto, esse boneco, dá sorte. Você não quer fazer uma história em quadrinhos com esse produto? Eu disse: Faço! Inventei uma história seriada com o Mug. Inventei a história toda!

LR: Ele lutava contra os fajutos, que eram os Mugs piratas!

Maurício: Foi muito divertido!

JAL: Porque você sabe, né? Porque os piratas, começa a fazer sucesso, todo mundo copia!

WAZ: Na verdade, eles lançaram o produto e montaram uma campanha junto com o quadrinho pra alicerçar o produto, foi isso?

Maurício: Sim!

WAZ: Ah, que interessante!

Maurício: E foi o maior sucesso!

JAL: O pessoal lá do estúdio, as dezoito horas, eles tem uma gravação marcada...

WAZ: Deixa eu perguntar uma coisa, Maurício, você trabalhou com várias turmas diferentes. Vários ambientes diferentes de personagens, alguns não foram pra frente, mas eles não foram pra frente por que você já não conseguia desenhar tanto ou por que o roteiro, o ambiente deles, você achou que não seria mais adequado pra continuar?

Maurício: As duas coisas. Uma que realmente a musa eu sentia que não tinha força, eu criava, criava, empurrava, empurrava, nem eu mesmo gostava muito. E outros eu sentia que tinha mas ás vezes esbarrava com o jornal, que não se interessava em continuar com o processo. Então, foram as duas coisas, eu brigava de todo jeito! Era duro chegar nos jornais! Cada redator-chefe, cada diretor de jornal tinha uma cabeça. Eu tinha que vender o peixe, falar bem do meu material. No jornal esquerdista eu falava que a minha história era pra enfrentar o material americano e no jornal de direita eu falava que o meu material era tão bom quanto o americano. Daí, vamos ver!

JAL: É tinha um certo sentido!

FIM da primeira parte...

sábado, 2 de junho de 2018

Zezo - Entrevista - 1984

Entrevista publicada no fanzine Quadrix nº 4, novembro de 1984.

A Técnica do Desenho - Editora Bentivegna

Nesse número entrevistamos José Rivelli Neto ou Zezo, um dos mais expressivos desenhistas do terror nacional das décadas de 1950 e início de 1960.

Além de histórias avulsas de cowboy, românticas, infantis e de terror, criou para a Ed. La Selva uma das melhores adaptações do clássico Frankenstein, criou também centenas de capas e HQs para a Ed. Outubro e para a própria Ed. La Selva.

No Jornal Juvenil, entre 1961 e 1962, além de ilustrações e capas, criou duas HQs: O Tubarão Voador (de aventuras no mar) e Rumo ao Infinito (aventura espacial).

Desenhou ainda para a distribuidora de tiras de Maurício de Sousa, em 1966, a história de espionagem chamada Dorinha da qual só fez 6 tiras, sendo completada por outro desenhista.

Em 1963 entrou na área de propaganda da Duratex, e hoje é o diretor desse setor. Na Duratex ilustrou a revista O Serrote, de informações técnicas, além de desenvolver o personagem Chico Minhoca (criado por Maurício para a mesma revista) e criou Mutuca e Bola Tudo (todos com roteiros do Dr. Zak).

Sua mais recente criação foi O Rino Boy, tira cômica que saiu em algumas edições da revista AED.

Trazemos então a entrevista com esse grande mestre José Rivelli Neto ou Zezo (que por sinal, é o unico na Duratex que é citado duas vezes na lista de ramais telefônicos, uma como José Rivelli Neto e outra como Zezo), que foi gravada em 17/04/84 e teve a participação do Franco de Rosa e do Worney Almeida de Souza (WAZ).

QUADRIX: Como começou seu contato com os quadrinhos e o desenho?

ZEZO: Como todo o desenhista, lendo as revistas de HQ que foi despertando uma vontade de fazer igual, e naquele tempo morava em Santos, não tinha ninguém que pudesse ensinar como era feito um quadrinho, e você tinha que aprender por si só, e sempre o caderno e os livros da escola cheios de desenhinhos, isso foi continuando, sempre desenhando para mim.

Começei a trabalhar em coisas totalmente diferentes, em uma firma de representação que trabalhava com madeiras, eu estava deslocado, os dias não passavam, e desenhando sem maiores consequências, até que finalmente por uma coincidência, um tio tinha casado pela segunda vez e um sobrinho dessa senhora tinha uma agência em São Paulo, e até que um dia me enchendo de coragen, e através dela, apresentei uns desenhinhos para este sobrinho, João Natale Neto, e a agência chamava-se Equipe Propaganda.

QUADRIX: Qual era a sua idade?

ZEZO: Tinha uns 22 ou 23 anos, já tinha uma vida praticamente formada, quando decidi dar uma quinada, saí de Santos e vim para São Paulo, então comecei a trabalhar nessa agência em 1953, em 1954 fiquei em Santos cuidando de meu pai, que acabou falecendo em outubro, nesse meio tempo o estúdio se desmembrou da empresa, e se fundou o Inter- Estúdio, nele comecei realmente a trabalhar, entrando na propaganda, e conhecendo na prática, trabalhando como free-lancer, e sempre com um gosto latente pelos quadrinhos.

No próprio estúdio eu fiz uma HQ e apresentei na La Selva em 1955 e foi aceita, e nessa entrada na La Selva começei fazer as HQs e também as capas.

Revista Frankenstein nº 10 - editora La Selva - 1961

QUADRIX: Como foi o contato com a La Selva?

ZEZO: Eu levei a primeira vez, A Técnica do Desenho - Editora Bentivegna conversamos e compraramn a história, e por causa daquela lei contra as HQs nos EUA, especialmente contra o terror, é que deu chance a uma geração de brasileiros, se não fosse a proibição a editora não ia comprar, por que eles vinham publicando e republicando dezenas de vezes, mas o material começou a escassear e pegavam o que aparecesse, bons, médios e maus.

QUADRIX: A La Selva já tinha uma equipe de colaboradores?

ZEZO: Já tinha Jayme Cortez, Miguel Penteado, Aylthon Thomaz, Igayara, Queiroz, Gedeone e uma série de pessoas e alguns só faziam quadrinhos, como o Maurício de Souza. Depois houve a oportunidade da revista Frankenstein.

QUADRIX: Existia algum filme na época, alguma coisa para se basear nessa criação?

ZEZO: Nada, nada, tinha um pré-roteiro, na verdade uma sinopse bem resumida, porque eu gostava de ter liberdade para desenvolver a história.

QUADRIX: Antes do Frankenstein já havia se dedicado a algum personagem?

ZEZO: Não, só HQs avulsas de comboy, românticas, infantis, mas especialmente de terror, uma média de 70%.

QUADRIX: Quanto tempo durou o Frankenstein?

ZEZO: Um ano, 12 números.

QUADRIX: Por que parou?

ZEZO: Problema interno da editora e resolveram terminar com a revista.

QUADRIX: A HQ do Frankenstein tinha uma ambientação numa época precisa, Alemanha no final do século 19...

ZEZO: especialmente Bavária.

QUADRIX: Chegou a pesquisar casas, uniformes?

ZEZO: Eu sempre me preocupei com uniformes e a arquitetura, eram mais ou menos baseados na época.

QUADRIX: Diferente de outras adaptações do Frankenstein, brasileiras ou americanas, o seu Frankenstein era onipresente, geralmente encerrava história, era o fator determinante, como conseguiu
esse desenvolvimento?

ZEZO: Na verdade foi instintivo, eu sentia desta maneira e passava para o papel, o tipo de ambientação me agradava, o tema era bom, e ele não era um monstro mau, era um produto, foi pena ter terminado.

QUADRIX: Como era o processo de criação das capas, fazia com modelos?

ZEZO: Não, nunca fiz com modelos, meu traço era solto, imaginava, enquadrava, traçava o lay-out e baseado na história criava uma capa.

QUADRIX: Sempre tinha a história como referencial?

ZEZO: 99%, cheguei a fazer capas que não tinham nada a ver com a história, só com alguns elementos de uma capa de terror.

Rumo ao Infinito - Folhinha de S. Paulo - 1965

QUADRIX: Você também trabalhou para a Ed. Outubro, o que ela representou para a HQ nacional?

ZEZO: Quando a La Selva diminuio o ritmo, trabalhei também para a Outubro, que era mais uma editora e mais alguns títulos, e mais um campo muito bom para trabalhar.

QUADRIX: Então realmente existia um campo de trabalho?

ZEZO: Não dava para ficar rico, mas dava para sobreviver.

QUADRIX: Qual era o nº de profissionais?

ZEZO: Mais ou menos uns 30.

QUADRIX: Tinha alguma disputa de preços de páginas entre as editoras?

ZEZO: Não, porque evidente que os editores deveriam combinar o preço.

QUADRIX: O preço era razoável?

ZEZO: Já tinha sido muito bom, por exemplo, com uma capa de revista se comprava uma motocicleta em 1950, mas no meu tempo com uma capa você já não fazia esse tipo de coisa, mas com 10 capas e 3 ou 4 HQs você canseguia viver, era 500 ou 800 cruzeiros por página, e 150 para uma capa, dava em média 15 mil cruzeiros por mês, 20 mil se fosse uma máquina.

QUADRIX: Qual era a produção mensal por página dos desenhistas?

ZEZO: De 20 a 30 páginas.

O Tubarão Voador - Jornal Juvenil - 1962

QUADRIX: Na Ed. Outubro os desenhistas se encontravam, trocavam idéias?

ZEZO: Como eu disse era mais um campo de trabalho, aumentava o faturamento, e na realidade não se encontravam, mas na data de entrega dos trabalhos, era o melhor dia para mim, porque era o dia que você terminava aquela luta contra o papel branco, juntava as capas e HQs e dava uma certa satisfação ver a produção acabada.

propaganda é muito dia a dia, quadrinhos têm vida, aí você conclui a produção do mês, leva aquele misto de orgulho para o editor, e encontra outro desenhista que fez o mesmo e ali se conversava, trocava-se ideias.

QUADRIX: Você chegou a trabalhar como arte-finalista?

ZEZO: Não, fazia tudo, só entregava sem as letras, eu já deixava o balão marcado, já sabia o que o personagem estava dizendo, dificilmente não dava espaço, e o desenho não sofria retoques.

QUADRIX: Sempre achei você o desenhista mais dinâmico da fase do terror, trabalhava com preto e branco, não repetia ângulos, como conseguiu esse desenvolvimento?

ZEZO: Estudando, olhando, sentindo, com Alex Raymond, Milton Caniff, e procurava extrair o máximo deles.

QUADRIX: Fazia estudos sobre o trabalho de Alex Raymond?

ZEZO: Não, eu jamais peguei um quadrinho de Raymond pus na frente e fiz igual, eu olhava, olhava e depois fazia outra coisa com imaginação.

QUADRIX: Quantas capas chegou a desenhar?

ZEZO: Dez por mês, umas 100 por ano, creio que fiz umas 300 capas naquele período.

QUADRIX: A última editora (que trabalhou) foi a Outubro, chegou a recuperar alguma história, algum original?

ZEZO: Alguma coisa, fiquei com muita prova de fotolito de capas, e no outro jornal em que trabalhei, o Jornal Juvenil, entre 1960 e 1962, fiquei com muitos originais.

QUADRIX: Tinha algum personagem?

ZEZO: Tinha um personagem chamado Tubarão Voador, era uma história de aventuras, minha criação.

QUADRIX: Chegou a fazer HQ colorida?

ZEZO: Só aqui da Duratex.

QUADRIX: Queria que falasse de sua segunda fase profissional na Duratex.

Tiras do personagem Rino Boy.

ZEZO: Entrei em 1963 na Duratex na área de propaganda, fazendo folhetos, cadernos de instrução técnica. Durante alguns anos fizemos uma revista chamada O Serrote, totalmente ilustrada, dando dicas sobre marcenaria e carpintaria, na verdade foi uma precursora das que existem hoje, de hooby e lazer. Ensinava como pregar, o nome das peças, ferramentas, tudo isso ilustrado, e tinha alguns personagens, um deles era Chico Minhoca, um caipirinha, tipo Chico Bento, feito pelo Maurício de Souza, que depois eu desenvolvi. 

Chico contava coisas sobre o produto, sempre de forma cômica. Um outro personagem era o Bola Tudo, um camarada que sempre ajudava o patrão numa dificuldade, e inventava alguma coisa usando nosso produto, outro personagem era o Mutuca, que era companheiro do Chico Minhoca. Os três acabaram tendo uma edição especial, colorida, chamada “2 Batutas no Serrote”, que também mostrava o uso do produto.

A revista terminou numa determinada época, e mais tarde a Associação dos Empregados da Duratex, criou a revista da AED, e de vez em quando, conforme o tempo permitia, fazia algumas tirinhas. Usava um personagem inventado de brincadeira chamado Rino Boy, usando o nome Rino da marca do rinoceronte (que é o simbolo da Duratex), e o Boy satirizando os super-herois, sairam em alguns números, depois a falta de tempo impediu uma continuidade.

Hoje estou na parte administrativa, mas continuo acompanhando o quadrinho.

2 Batutas no Serrote - Revista O Serrote, Duratex.

sábado, 26 de maio de 2018

Dorinha - Última Hora - 1966


A série Dorinha foi publicada entre 1966 e 1967 no jornal Última Hora de São Paulo e fazia parte do lote de tiras distribuídas pela Maurício de Sousa Produções para esse veículo. 

É uma aventura policial sobre um golpe aplicado às custas de um colar falsificado, envolvendo três pilantras: Danilo, o suposto amante de Dorinha, Cristovão, um joalheiro desonesto e Cristal, um arrombador amigo de Danilo. Dorinha aparece apenas como pivô de toda a trama.


As 6 primeiras tiras foram desenhadas por Zezo (José Rivelli Netoe as seguintes não têm assinatura, mas pode-se perceber o traço de Benedito Aparecido da Silva, o ‘Apa’ e também de Paulo Ernesto Nesti, desenhistas que trabalhavam nos estúdios de Maurício nessa época.

Apa é mais conhecido por ser um dos criadores do Homem-Fera para a editora Graúna, mas foi bem atuante na décade de 1960.

Paulo Ernesto Nesti é pai do ilustrador Fido Nesti e após prestar serviços para a Maurício de Sousa Produções, foi ilustrador da série de livros do Sítio do Picapau Amarelo para a editora Brasiliense nas edições publicadas entre 1968 e 1970. Entre 1975 e 1978, foi diretor de arte na Spot, agência de propaganda. Tem obras no acervo do Museu Casa da Xilogravura de Campos do Jordão.

Acima desenhos de Apa na publicação FTD Revista, 1967. 

Ilustrações de Paulo Ernesto para o livro “Viagem ao Céu” de Monteiro Lobato. 


Abaixo, matéria de apresentação das novas tiras publicada no sábado anterior à estreia:


10 heróis em Última Hora, diariamente em histórias vibrantes! 

"A partir de 2ª feira próxima, 12 de dezembro (1966), UH apresentará mais uma novidade para os seus leitores. 

Pela primeira vez 10 histórias em quadrinhos totalmente escritas e desenhadas no Brasil. Trata-se de uma série toda de historietas criadas por alguns dos melhores artistas brasileiros, entre os quais, Getulio Delphim, Vilmar, Osvaldo Talo, Álvarez e Maurício. 

Diariamente vocês vibrarão com as emocionantes aventuras dos “Comandos”, em espetaculares histórias de guerra; para os amantes da ficção científica, foi criada a serie “Ficção”, vibrante e atual; a sátira tambem está presente na série “Caixa Alta”, que vai contar comicamente o que vai “pela alta”; o “Doutor” é outra criação cômica especial; “Caramuru” será uma empolgante história de aventuras; “Dorinha” contará as aventuras e desventuras de uma jovem atirada na voragem de uma vida que ela não entende; uma detetive de saias, “Paula” é outra das atrações diárias; “Verso e reverso” virá em seguida, como nova bossa no campo da historieta; Miguel “Rei”, o motorista, será uma história de aventuras que prenderá atenção... e finalmente, teremos também o MUG, em interessantes e divertidas peripécias na sua primeira história em quadrinhos".