sábado, 21 de abril de 2018

Carlos Edgard HERRERO - Entrevista

Herrero é bastante conhecido por seu trabalho na linha de quadrinhos Disney a partir do final da década de 1960, mas, antes mesmo disso, o artista já consolidava uma sólida carreira no campo das histórias em quadrinhos e da ilustração. 

É sobre esse período que falamos na entrevista a seguir, realizada em abril de 2018:

Luigi Rocco: Em primeiro lugar, seu nome completo quando e onde você nasceu? De onde se origina sua família?

Herrero: Carlos Edgard Herrero, 2 de Agosto de 1944. Minha família, por parte de pai, são espanhóis, Aragoneses (avó) e Ávila (avô). Por parte de mãe são portugueses madeirenses.

LR: Em que escolas fez seus estudos?

Herrero: Belas Artes de São Paulo.

LR: Como começou a se interessar por desenho?

Herrero: Os primeiros passos foram com minha mãe, que desenhava muito bem, e pela montanha de gibis de faroeste, terror, aventura enfim, tudo que era quadrinhos.

LR: Que quadrinhos você lia quando criança?

Herrero: Tudo que via nas bancas, Rocky Lane, Don Chicote, Cisco Kid, Apache Kid, Roy Rogers, Terror, aventura, clássicos da Edição Maravilhosa, Príncipe Valente e outros.

LR: Qual foi sua primeira publicação ou trabalho profissional?

Herrero: Maurício de Sousa, grande cara!

LR: A imagem abaixo é de uma série distribuída por Maurício de Sousa a partir de 1964 para o Diário de S. Paulo, chamada Polícia Fantasma. Alguns episódios levam a sua assinatura e de Paulo Hamasaki. Como era o processo de realização dessa tira. Quem fazia o quê na série? Você pode falar alguma coisa sobre o Paulo Hamasaki?


Herrero: O Paulo Hamasaki, grande amigo, desenhista e roteirista muito competente no que fazia criou a série e me escolheu para ilustrar.

LR: A imagem a seguir é da tira Vizunga, desenhada por Flávio Colin, essa tem sua assinatura (1965). Você devia ter por volta de 20 anos, correto? Como se deu sua participação nessa série? Quem é o Veloso que assina junto com você?


Herrero: O criador do Vizunga, Flávio Colin, adoeceu e me indicou para continuar a série e Benedito Veloso, que trabalhava na Abril, escrevia o roteiro.

LR: Como era a sua ligação com os estúdios de Maurício? Você era contratado ou colaborador? Como começou essa colaboração?

Herrero: Contratado com carteira assinada e tudo.

LR: A imagem abaixo é um desenho seu também de 1965. Você pode falar algo sobre ele*?


Herrero: Não lembro mesmo. Acho que era um cartum relacionado com a chegada do homem à Lua.

LR: As imagens seguintes são desenhos seus para a MSP, passatempo do Diário Popular e uma capa para a Folhinha de S. Paulo, ambas de 1966. Poderia falar sobre esses trabalhos?


Herrero: O Maurício me considerava um artista polivalente e me escalava com frequência.

LR: Você lembra de outras pessoas que colaboravam com os estúdios de Maurício nesse período? Você lembra de um desenhista (talvez um espanhol) chamado Álvarez, que andava pela MSP nessa época?

Herrero: Eram tantos atrás de uma chance que não lembro mesmo.

LR: Você trabalhou em algumas das séries de tiras de Maurício?

Herrero: Páginas sim, tiras para jornal ou tabloides não.

LR. A próxima imagem é de uma história sua para a revista O Loco, da editora Taika, de 1968. Você pode falar um pouco sobre ela? Como era o seu relacionamento com o editor e principal colaborador da revista, Clive Pop?


Herrero: Para a Taika fiz muito pouco, acho que foram uma ou duas páginas no estilo Mad e só.

LR: Em depoimento, Waldir Igayara disse que foi ele que levou você para a editora Abril em 1966. Isso procede? O que você estava fazendo antes de ingressar na Abril?

Herrero: Procede! O Iga me convenceu a ir para Abril. Antes da Abril, trabalhava com o Maurício de Sousa.

LR: Igayara também disse que quando era criado um novo grupo de personagens, tipo a turma do Biquinho, ele produzia um roteiro com todos os personagens e que eles aparecessem vários juntos em um mesmo quadrinho e, devido ao seu enorme talento, ele dava para você desenhar. Depois essa história iria servir de model sheet para os outros artistas da casa. Isso procede?

Herrero: Procede! O Iga e o Jorge Kato gostavam muito do meu trabalho e do meu estilo, mesmo sendo Disney, tinha um estilo próprio segundo eles!

LR: Em 1974 você desenhou o personagem Vavavum para a revista Crás, da editora Abril. A primeira história teve a participação de Nico Rosso, mas na segunda você assumiu o personagem sozinho. Por que se deu isso? Fale um pouco sobre a série.

O Vavavum de Nico Rosso e Herrero e o Vavavum solo de Herrero. Roteiros de Ivan Saindenberg.

Herrero: Acharam o estilo do Nico Rosso muito pesado para o tema!

LR: Para a mesma revista Crás você produziu O Lobisomem, que se passava, aparentemente, na idade média. Você pode falar sobre ele? Como era a pesquisa de trajes e tipos?

O Lobisomem. Roteiros de Júlio Andrade Filho.

Herrero: O Lobi é um monstro frustrado; sofre de asma, desafina quando uíva, tem medo do escuro e de atacar as pessoas. Pesquisa de trajes e tipos, como você disse, eram baseados no estilo medieval.

LR: Quando e por que se deu a sua saída da editora Abril?

Herrero: Para montar uma pequena agência de propaganda e atender clientes de porte que já trabalhavam comigo, por sugestão deles.

LR: A imagem abaixo apresenta o crédito do Estúdio Herrero. Você pode falar sobre isso?


Herrero: Pois é, eu criei o personagem representativo na área de panificação e confeitaria para a Unilever chamado João Gradina e muitos outros. Criava conceitos, temas de campanha, folders e folhetos de lançamentos e pontos de vendas.

LR: Só pra finalizar, uma última pergunta. Que materiais você costuma usar em seus trabalhos?

Herrero: Papel Bristol, sulfite 95 gr (esboço), Schoeler Hamer 2R ou 4R, lápis de diversas qualidades, canetas tipo fine line Pin, Sakura, Staedtler de várias numerações, pincéis Talens, Kolinsky, tinta nanquim, Ecoline ou, na maioria da vezes traço, scaner e Photoshop salvos em jpg. 

Para muitos, pode ser excesso de frescura mas, pra quem desenha, a qualidade começa pelo material! 

Abraço, Herrero!

Herrero se mantém produtivo e atuante e tem um site onde apresenta seus trabalhos atuais e oferece seus serviços. Dessa página tiramos a seguinte biografia: 

"Estudou na Escola de Belas Artes e começou sua carreira como desenhista Disney no final dos anos 1960, produzindo histórias com o personagem Zé Carioca. Mais tarde ele passou a trabalhar com a família Pato (Donald, Tio Patinhas, sobrinhos, Margarida etc), Professor Pardal e muitos outros. Em 1972, ele criou em conjunto com o maior roteirista de quadrinhos brasileiro, Ivan Saidenberg, o personagem Morcego Vermelho e começou a ilustrar histórias deste alterego do Peninha.

Herrero é o desenhista brasileiro que mais contribuiu com histórias para os Estúdios Disney Americanos. Desde o início dos anos 70 ele desenhou mais de quatro mil páginas de quadrinhos Disney. Sua primeira história Disney foi “Ao Pé da Letra”, com o Pato Donald, em 1969. E continua publicando histórias inéditas até hoje, como “A Base Secreta” com o Zé Carioca publicada pela Abril em Agosto de 2015.


Nos anos 80, Herrero ingressou na área de projetos especiais a Editora Abril, realizando campanhas de marketing para importantes marcas como lançamento da boneca Barbie no Brasil, revitalização e estilização da Menina Claybom (Nhac).

A menina Nhac por Herrero (1982).

Em paralelo à sua carreira de quadrinhos, Herrero montou sua agência de criação, atendendo a clientes como Unilever, Sandoz, Gradina (linha profissional da Bunge Alimentos), Viação Cometa entre muitos outros. Sua atuação foi desde criações de material de ponto de venda, passando por design de embalagens, materiais de treinamento e até mesmo por campanhas promocionais dos Shoppings Iguatemi e Eldorado em São Paulo.

Além dos quadrinhos, Herrero trabalha como autor e ilustrador de histórias de suspense, terror, ficção científica e faroeste. Atuou com as maiores editoras do país e ilustrou inúmeros livros de vários gêneros, com destaque às obras de coautoria com Pedro Bandeira (coleção Meus Medinhos) e o “Jibobinha”, que foi reeditado na versão digital em 2017.



Ilustração para o livro Jibobinha - editora Moderna - 1994

Atualmente, Herrero conta com seu estúdio home office em São Paulo. Lá ele cria novos personagens e cartuns como “A Saga do Papai Noel do Herrero”, publicado exclusivamente no Instagram. Ele também se diverte com suas novas tirinhas e charges publicadas no Social Comics. Desenvolve e-books infantis, ilustra livros, cria materiais impressos e digitais diversos, pinta aquarelas decorativas, participa de eventos com a Editora Abril, desenha HQs inéditas, e está sempre pronto para o que vier pela frente".

*Segundo Quim Thrussel, o boletim O Cobra (Órgão Interno da 1ª Convenção Brasileira de Ficção Científica) está classificado como um dos primeiros fanzines brasileiros e foi distribuído no evento, que aconteceu semanas antes do lançamento do fanzine Ficção de Edson Rontani.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Chopinho - A Gazeta - 1970


Chopinho é mais uma das criações do cartunista Luscar e foi publicado pelo jornal paulistano A Gazeta em 1970.

Chopinho faz parte da grande galeria de personagens etílicos das tiras brasileiras, mas num clima de total paz e amor!

Foi publicado também nas revistas Blá-Blá-Blá e Top Top, ambas da editora Taika.


Luscar no Almanaque do Biotônico Fontoura - 1969.

Embora não conste na maioria de suas biografias, Luscar trabalhou nos estúdios de Maurício de Sousa na década de 1960. Sobre ele a Enciclopédia dos Quadrinhos (Goida / André Kleinert - L&PM - 2011) reporta: "Luscar - Brasil (1948) - Nascido em Salto (São Paulo), Luiz Carlos dos Santos começou a trabalhar num órgão de propaganda muito conhecido, o Almanaque do Biotônico Fontoura (1969). Colaborou depois como cartunista e às vezes quadrinista em Visão, Ficção em Quadrinhos e O Bicho. Também publicou em O Pasquim, Circo e Chiclete com Banana, em especial com a série "Dr. Baixada", que chegou a sair em miniálbum, Dr. Baixada & Cia (Circo, 1986). Luscar igualmente trabalhou em duas fases da Mad nacional (Vecchi e Record). Participou também do álbum coletivo O novo humor do Pasquim (Codecri, 1977)".


terça-feira, 10 de abril de 2018

Josué - A Gazeta - 1970


O típico profeta do apocalipse, Josué foi criado pelo cartunista Luscar para as páginas do jornal paulistano A Gazeta em 1970. Ele fazia parte da Turma do Chopinho e representava bem aqueles tempos difíceis e desesperançados.

Josué foi publicado simultâneamente na revista masculina Blá-Blá-Blá da editora Taika.

Luscar no Almanaque do Biotônico Fontoura - 1969.

Segundo o site Guia dos Quadrinhos: "Luscar (1949) - Paulista de Salto, Luiz Carlos dos Santos iniciou profissionalmente em 1969, no “Almanaque do Biotônico Fontoura”. Colaborou depois, como cartunista (e às vezes desenhista) em “Visão”, “Ficção em Quadrinhos” e “O Bicho”".

Luscar nos presenteou também com a tira Dr. Baixada.


sábado, 31 de março de 2018

Espumoso - O Estado do Paraná - 1988


Espumoso é um rato fanático por chope. As piadas giram quase sempre em torno da ingestão do fermentado e suas consequencias. 

Segundo seu desenhista, Tako X: "O Espumoso foi um personagem criado pelo Tadeu Brasil e eu entrei pra deixar as tiras com uma cara mais profissional.

Foi lançado um álbum com ele (editora Gralha Azul, 1989) e foi publicado no extinto jornal O Estado do Paraná. Durou um ano, mais ou menos, mas o Tadeu continuou sozinho com o personagem. Não sei que fim ele levou".

Sobre Tako X, em seu site, ficamos sabendo: "Tako X é o pseudônimo do nissei nascido em Curitiba (em 1965) Edson Ossamu Takeuti, que começou a fazer quadrinhos aos dezoito anos, publicando suas primeiras tiras no jornal O Estado do Paraná (Dark Branto & Cia. em parceria com o cartunista Marcelo Martins). 

Aos vinte anos começou a publicar na revista MAD brasileira como desenhista das sátiras. Criou o seu personagem mais conhecido, o Marco, publicado de 1989 a 2002 no jornal A Gazeta do Povo.

Ficou durante cinco anos no Japão (1990 a 1994), em Tóquio, onde trabalhou como ilustrador comercial para diversas editoras e agências de publicidade. De volta ao Brasil em 1995, trabalhou no jornal A Gazeta do Povo e montou seu próprio estúdio de arte em Curitiba.

Em 2003 forma-se artista plástico pela EMBAP (Escola de Música e Belas Artes do Paraná). Voltou a colaborar com a MAD (onde desenha sátiras e algumas capas) e ainda desenhou diversas HQs do super-herói O Gralha, sendo um dos seus criadores.

Em 2002 roteirizou e dirigiu o curta metragem live-action "O Ovo ou a Galinha - uma aventura do Gralha" (Melhor Filme do Festival de Cinema de Curitiba 2003 - Juri Popular). Atualmente, além de trabalhar como ilustrador, publica suas tiras inéditas do Marco semanalmente no site www.marcoeseusamigos.com.br".

terça-feira, 27 de março de 2018

Jornal Paulista - 1966


O Jornal Paulista foi uma publicação direcionada à colônia japonesa. Tinha como diretor-responsável Luiz Yassumi Tanigaki. Sua redação ficava na rua Conde de Sarzedas, na baixada do Glicério, bairro vizinho ao da Liberdade, principal concentração da comunidade oriental em São Paulo. Por acaso era no primeiro andar do mesmo prédio onde Minami Keizi, junto com Gedeone Malagola, montou seu primeiro apartamento/estúdio/editora/distribuidora, a Acaraí, daí a relativa facilidade que Minami encontrou para veicular suas tiras nesse jornal.

Gonçalo Júnior em seu livro Maria Erótica e o clamor do sexo (editora Peixe Grande - 2010) faz uma boa descrição desse período: 

"(Minami Keizi) conseguiu espaço nas publicações da Pan-Juvenil (Garotas & Piadas) e da Taíka (ex-Outubro), e na revista Nikey, que circulava na comunidade japonesa. Depois, expandiu para os títulos de piadas da Jotaesse. 

Minami trabalhava até 16 horas por dia. Varava as madrugadas, inclusive nos sábados, domingos e feriados. Não encontrava tempo nem mesmo para ver o ir­mão e família. Tanto que, num domingo, Akio apareceu para saber se estava tudo bem com ele. Achou-o pálido, com olheiras e um pouco magro. Não por acaso, alimentava-se mal, à base de sanduíches e pão com manteiga. Mas saiu satisfeito ao perceber que Minami estava feliz e entusiasmado com o pequeno negócio. Suas tarefas incluíam embalar livros e despachá-Ios pelo correio todos os dias. Mesmo na correria, com os desenhos para publicidade, seu traço melhorou bastante. O suficiente para convencer o editor de arte Luis Sanches, do jornal Diário Popular, a publicar pela primeira vez suas tiras, quase dois anos depois de desembarcar em São Paulo. 


Era o super-herói Tupãzinho que finalmente estreava, agora sem a influência do mangá e ainda muito semelhante a Brasinha. As histórias se passavam num uni­verso todo idealizado pelo artista, a Floresta Mágica, onde se misturavam figuras do folclore nacional a lendas universais, sem qualquer referência ao Japão. Seus superpodores vieram de um soro atômico - até então ele era um menino pobre, órfão de pai e mãe, que vivia entre bichos. Aconteceu, então, que o Dr. Kubo fugiu de Dado, um dos planetas do sistema geométrico, e veio para a Terra. Com ele, trouxe o soro. Seus coadjuvantes eram o indiozinho Curutei, lara (sereia), Robotim e Robozão, Angélico, Márcio, Daniela, Aninha, Lobo Mau, Sacizão e Sacizinho e a Bruxa. No final, claro, o bem sempre vencia o mal. 

A aceitação do personagem pelos leitores infantis do jornal - medida pelas cartas que o jornal recebia todos os meses e eram repassadas para ele - fez Minami acreditar que podia montar uma distribuidora de tiras brasileiras, inspirado em Maurício de Sousa. Este revelou ao desenhista que mandava a tira para determi­nados jornais e pegava como parte do pagamento o clichê - matriz feita em me­tal e usada na impressão - para distribuir a publicações do interior de São Paulo. Também comprou de Sanches todos os clichês de quadrinhos de diversos autores com quem fez um acordo verbal, pois pretendia alugar as chapas para jornais de bairro da capital. 

Nesse momento, os irmãos Savério e Bartolo Fittipaldi começavam a editar revistas em São Paulo - durante muitos anos, tinham sido apenas livreiros. 
Por encomenda deles, Minami criou suas duas primeiras revistas: Piadas Populares e Capitão Cometa, ambas a partir dos clichês de Sanches. Capitão Cometa era uma tira diária de um curioso super-herói desenhada por Fernando de Almeida. Saiu apenas um número da revista, em formato reduzido, quase de bolso, que trazia na capa e dentro a marca Minami Keizi Produções (no expediente da página 3). 

Minami produziu, em seguida, um suplemento infantil de passatempos e quadrinhos com os mesmos artistas que passou a representar e o ofereceu a vários jornais paulistanos e do interior. Chegou a atender a quase uma dúzia de diários de pequenas localidade. A experiência durou algum tempo, no decorrer de todo o ano de 1966. "Aquilo virou uma bagunça, ninguém cumpria prazo para me entregar o material e, no final, era eu quem fazia tudo". Até que ele se cansou e suspendeu a empreitada. Ao mesmo tempo, fazia muitas outras atividades - além do seu reem­bolso postal. No ramo de revistas, começou a produzir piadas diretamente no papel vegetal para Editora Jotaesse - assim, convenceu o editor José Siderkerskis de que economizaria no fotolito. Também publicou tiras dos artistas que representava no Jornal Paulista

Ainda no primeiro semestre de 1966, para dar conta da Piadas Populares e ter tempo para distribuir as tiras e atender os compradores de seu reembolso postal, Minami montou uma pequena equipe de colaboradores. O primeiro a chegar foi Fabiano Dias, cinco anos mais velho que ele e que trabalhava no departamento de arte dos chocolates Dizioli, no Brás. Até que um dia resolveu sair para fazer o que mais gostava: desenhar cartuns e quadrinhos. Não pensou muito ao trocar o certo pelo duvidoso - e ainda ganhar bem menos. Estava infeliz, desmotivado. De origem humilde, Fabiano morava com os pais na Vila Maria. Ainda estudava na Escola Pan-americana de Arte quando soube dos encontros de artistas no barzinho da Liberdade e passou a frequentá-lo. Lá, ficou amigo de Minami. 

O Tupãzinho de Crispim na revista Verde Amarelo Meu Brasil, Edrel - 1972.

Outro que se tornou seu colaborador foi Fernando de Almeida, criador do Capitão Cometa. Ele aparecia no apartamento-estúdio-depósito de Minami após o expediente na agência multinacional de propaganda J. W. Thompson. Pegava as histórias a lápis de Tupãzinho que o autor ainda encontrava tempo para fazer e le­vava para casa. Fazia a arte final por pura paixão. Os dois tinham sido apresentados a Minami por Gedeone. 

Outro ajudante de primeira hora foi José Carlos Crispim, que assinava apenas Crispim, que estreou sem qualquer experiência profissional. A indicação veio de Salvador Cascino, dono de uma escola de desenho e amigo de Salvador Bentivegna. Crispim era quase menino, com apenas 16 anos, e só estudava. Um dos primeiros trabalhos de Fabiano e Crispim foi colorir os slides das duas tiras de Tupãzinho para um anúncio da Colorlab, conhecido laboratório fotográfico".


Ilustrações de Crispim.

sábado, 24 de março de 2018

Cardosinho - Jornal da Semana - 1972


Segundo Ionaldo Cavalcanti em seu livro O Mundo dos Quadrinhos - Editora Símbolo - 1987, Cardosinho era uma "série humorística produzida por Menz em 1972, e publicada no Jornal da Semana, de Porto Alegre.

Menz pertence ao laborioso grupo gaúcho que luta pelo quadrinho nacional".

Quem tiver outras informações sobre Menz, favor deixar nos comentários :)

segunda-feira, 19 de março de 2018

Eureka nº 12 - 1979

Em 1979, no seu nº 12, a revista Eureka publicou o texto abaixo. De autoria do editor, Otacílio d"Assunção Barros (o Ota), é uma matéria muito completa e detalha exemplarmente como era o cenário das tiras de jornal no Brasil naquele período.

AS TIRAS DE JORNAIS NO BRASIL

Texto de Otacílio d'Assunção Barros

Quando os jornais norte-americanos, no final do século passado, descobriram os quadrinhos - e, com eles, um meio de aumentar a sua circulação - a onda se alastrou rapidamente. Alguns jornais chegavam até a roubar de­senhistas de outros, e logo começou a distribuição (syn­dication) da mesma tira simultaneamente para centenas de outros jornais em todo o território norte-americano. 

Pelezinho, de Maurício de Sousa.

A moda logo chegou ao Brasil, e os nossos jornais passa­ram a comprar tiras a um preço relativamente barato e publicá-las com exclusividade dentro da sua área de cir­culação. Muitos artistas nacionais tentaram fazer a mes­ma coisa. Mas, infelizmente, diversos fatores contribuí­ram para que a maioria das experiências fracassasse. Um dos poucos a se sair bem no ramo de tiras de iornais é Maurício de Sousa, que, com sua distribuidora, consegue espalhar seus personagens por centenas de jornais brasileiros. Na verdade, o esquema de Maurício não se limita apenas a tiras para jornais, mas, sim, a um enorme complexo de revistas, desenhos animados e merchandising, no qual as tiras servem apenas para popularizar seus personagens e aumentar as vendas dos produtos derivados de suas criações.

O Pato, de Ciça.

Depois das tiras de Maurício de Sousa, a de maior duração até agora é provavelmente O Pato, de Ciça, que con­ta com mais de 10 anos de publicação contínua na 'Folha de São Paulo' e, eventualmente, em outros jornais (inclu­sive no estrangeíro, onde o Pato é conhecido como Octa­ve, le Canard). Em seguida, temos Zeferino, de Henfil, lançado há alguns anos pelo 'Jornal do Brasil', do Rio, e publicado até hoje, embora tenha sofrido algumas paradas no decorrer desse tempo, devido a problemas de viagens e enfermidades do autor. Sem dúvida, Zeferino é a melhor tira diária brasileira e seu autor conseguiu manter um nível de qualidade surpreendente (exceção feita a uma tentativa de utilizar o personagem em pági­as dominicais, ainda em 1978, que não chegaram aos pés das tiras diárias).

Marly, de Milson.

Marly, de Milson Henriques, é publicada desde 1973 em jornais de Vitória, onde reside o autor, e conseguiu furar o bloqueio, espalhando-se por cerca de mais 15 veículos. Inclusive tornou-se conhecida nacionalmente através da extinta revista Patota. 

As Cobras, de Luís Fernando Veríssimo.

As Cobras, de Luís Fernando Ve­ríssimo, começaram sua carreira em um jornal gaúcho e agora são publicadas pelo 'Jornal do Brasil', que, além de Henfil e Veríssimo; abriu um espaço para o desenhis­ta Caulos, que usou o seu nome para título da série. Esses provavelmente são os autores mais conhecidos, em termos de tiras brasileiras. 

O Galinheiro, de Fábio Mestriner.

Há dezenas de outros que, entretanto, não conseguiram alcançar veículos de maior penetração e são conhecidos geralmente apenas pelos leitores locais dos jornais que os publicam. São, relativa­mente, jornais de pequena circulação, e nunca de âmbi­to nacional. Mas, mesmo assim, muitos profissionais so­brevivem às custas desses veículos, e aos trancos e bar­rancos vão conseguindo expandir o seu campo, seja por conta própria ou através de distribuidores. 

Gilda, de Daniel Azulay.

Na verdade, os grandes jornais não parecem dar muita atenção aos quadrinhos, ou pelos menos aos autores na­cionais. Com exceção do 'Jornal do Brasil', no Rio,que publica as três tiras já citadas contra quatro estran­geiras, e da 'Ultima Hora' do Rio, que, além de sete tiras estrangeiras, publica Gilda, de Daniel Azulay, os outros jornais cariocas parecem ignorar o assunto. Inclusive 'O Globo', que tem uma das maiores páginas de quadrinhos do país (18 tiras), não publica sequer uma nacional, a não ser a página dominical do Sítio do Picapau Amarelo em seu suplemento (ao lado de outras 19 estrangeiras), e mesmo assim devido ao convênio com a Rio Gráfica e Editora, que publica a revista homônima e, além de tudo, pertence também à Rede Globo, que leva ao ar o mesmo programa. 

Esquininha, no Notícias Populares.

Em São Paulo, o grupo das "Folhas" divide mais ou menos em partes iguais os quadrinhos nacionais e es­trangeiros por sua relativamente grande cadeia de jornais, sendo que a maior parte das tiras brasileiras per­tence a Maurício de Sousa, e no sanguinolento 'Notícias Populares', de São Paulo, todas as tiras são nacio­nais, muito embora várias delas sejam de qualidade dis­cutível, quase amadorísticas. Um dos mais importantes matutinos paulistas, 'O Estado de São Paulo', mantém há anos uma pequena seção de quadrinhos, todos estran­geiros e bastante desinteressantes. Já o 'Jornal da Tar­de', pertencente à mesma cadeia, conseguiu uma sele­ção melhor de histórias, mas por outro lado não publica quadrinhos brasileiros. 

Zeferino, de Henfil.

Nos outros Estados, a situação chega a ser pior. Muitos autores só conseguem publicar seus trabalhos pratica­mente de graça, ou recebendo o pagamento com atrasos consideráveis. Caso o autor não more na mesma cidade do jornal que publica sua tira e não esteja vinculado a uma distribuidora que disponha de meios mais eficien­tes de cobrança, é difícil que consiga obter outra recompensa que não a simples publicação de seus trabalhos. Isso ajuda bastante a desestimular autores em potencial de continuarem produzindo. Na verdade, se o pagamen­to do primeiro veículo que publicar a tira não lhe der con­dições de sobrevivência, é praticamente impossível que isso aconteça depois. Uma solução seria a redistribui­ção para outros jornais. Mas é difícil montar uma distribui­ção própria, e se o desenhista se filiar a alguma distribui­dora já existente, obviamente terá de pagar a esta a co­missão por esse serviço, que em alguns casos chega até a 60%. Como as tiras de jornais são vendidas a um preço relativamente baixo (isso porque muitos jornais não te­riam condições de pagar mais), o autor precisaria publi­car a mesma tira em pelo menos dez jornais ao mesmo tempo para conseguir sobreviver. 

Estevão Piro, de Moretti.

De qualquer forma, apesar de todas essas dificuldades - não só da concorrência com os estrangeiros como da maneira de encaixar as tiras nos jornais - muitos profis­sionais que têm os quadrinhos no sangue e sabem que jamais se dariam bem em outro tipo de trabalho conti­nuam a produzir incansavelmente suas tiras, e alguns até aprenderam a sobreviver disso. Quem sabe, muitos de­les conseguirão a glória máxima para os desenhistas de acabar seus dias numa prancheta.

O Veterinário, de Primaggio.

AS DISTRIBUIDORAS

Os syndicates brasileiros - ou seja, as distribuidoras de tiras - ajudam a divulgar a obra de vários autores. Mui­tos empreendimentos semelhantes já falharam, mas umas poucas sobrevivem, muito embora algumas delas não dependam só de quadrinhos. O Editor de algum jorn­ai que queira abrir uma página de quadrinhos e não tenha contato com os artistas locais poderá recorrer a al­gumas das empresas abaixo:

Caulos, no Jornal do Brasil.

MAURÍCIO DE SOUSA PRODUÇÕES 
Distribui exclusivamente as tiras do próprio Mauricio: 
Cebolinha, Bidu, Horácio, Pelezinho, Os Souza, Rapo­são, Boa Bola, Chico Bento, Tina e outras. Maurício de Sousa conseguiu a vitória de colocar seus personagens até no estrangeiro, e cada vez mais está expandindo seus tentáculos por todo o país. 

Bichim, de Nildão.

EDITORA CARNEIRO BASTOS (ECAB) 
Fundada com a finalidade de distribuir trabalhos de pro­fissionais brasileiros, a ECAB já conta em seu arsenal com Marly, de Milson, O Galinheiro, de Fábio Mestriner, Gilda, de Azulay, Bichim, de Nildão, Lúcio Flávio, de José Louzeiro e Orestes de Oliveira, Asdrubal, de Elvira Vigna, Stevão Piro, de Moretti, Sacarrolha e Veterinário, de Primaggio, Kim e Águia Branca, de José Menezes, Cubinho, de Mário Mastrotti e vários outros. Inclusive aceita propostas de novas tiras para distribuir.

Lúcio Flávio, de José Louzeiro e Orestes de Oliveira.

APLA 
Distribui com exclusividade os quadrinhos do King Fea­tures Syndicate, London Express, A.L.I. Press, Creaccio­nes Editoriales, Dargaud Presse etc. A Apla não se recusa a distribuir trabalhos de profissionais brasileiros, mas atualmente está parada nesse setor, após algumas expe­riências que não foram adiante.

Cubinho, de Mário Mastrotti.

DISTRIBUIDORA RECORD 
Distribui os sindicatos americanos Publishers-Hall Syn­dicate, Field Enterprises, Chicago Tribune - N.Y. News Sindicate, Editors Press Service etc. Também não está distribuindo nenhum quadrinho nacional.

UNITED PRESS INTERNATIONAL 
Além de agência de notícias, a UPI funciona também co­mo distribuidora de quadrinhos da United Feature Syndi­cate e da Newspaper Enterprise Association (NEA).