sábado, 12 de maio de 2018

Igayara - Entrevista - 1991

Peninha - revista Bidu - editora Continental - 1960

A entrevista a seguir foi realizada pelo pesquisador Worney Almeida de Souza (WAZ) em 1991 e transcrita pelo editor deste blog. Realizada na escola-estúdio do desenhista Waldir Igayara, permanecendo inédita até agora. 

Aproveitem!

.....................................................................................................

Worney: Como é que era o esquema na (editora) Continental?

Igayara: O (Jayme) Cortez era o grande mestre. A parte de arte era a parte onde ele estava. Ele é que recebia todas as histórias de todos os artistas, ele que comentava, ele que batia papo, ele que fazia todas as capas das revistas. Ele fazia tanta capa de revista, o Cortez, que algumas ele assinava Miguel Penteado. Tem capa do Cortez assinada M. Penteado que são do Cortez, isso eu vi ele assinando. Digamos assim, só o Cortez desenhou todas as capas. E ele fotografava modelo etc, e ele executava capa, de vez em quando você via ele fazendo um cartaz para o Mazzaropi, o Mazzaropi tava circulando por lá sempre... Tinha revista também do Mazzaropi. 

Sei lá, o Cortez era um cara metido em arte... claro que ele tinha também umas preocupações de empresário, porque ele era um dos sócios da Continental. Era ele, o Miguel Penteado, depois o José Sidekerskis, que hoje também tem uma editora própria. Eram os três...

W: O famoso Zelão!

Igayara: Zelão! 

W: Quer dizer que na verdade, as pessoas fixas da editora, eram o Cortez e mais algumas pessoas? O resto do pessoal era tudo colaborador?

Igayara: Colaborador, inclusive o Cláudio de Souza, que depois eu iria encontrar na Abril, um homem da Abril, trabalhou na Abril 30 anos, também participava, criava histórias etc, e tinha algum interesse também na editora Continental. Havia também o Eli Lacerda, sei lá, deviam ser sócios minoritários, tinha muita coisa.

W: Você trabalhava em casa?

Igayara: Trabalhava em casa e depois no escritório que eu aluguei no Martinelli por uns 4 anos, junto com Lyrio Aragão, com Júlio Shimamoto e Luiz Saindenberg.


W: Quando foi isso?

Igayara: Isto foi ali por 60, 61. Quando entrei na Abril nós já tínhamos o escritório alugado.

W: Aí você continuou desenvolvendo trabalhos mesmo trabalhando na Abril?

Igayara: Exato. De vez em quando passava no escritório, fiquei até o fim, participando com o pessoal do escritório. Naquele tempo também o (presidente) Jânio ia nacionalizar os quadrinhos, aquela mesma lei que depois voltaria. E o escritório acabou virando uma espécie de sindicato. Eles marcavam reunião lá dentro, aí vinha o Cortez, o Penteado, tudo quanto é desenhista, enchia de gente. Então o escritório, que era aquele refúgio nosso, de repente a gente tinha que voltar pra casa porque o escritório virou uma espécie de sindicato, não é? 

E tinha aquele jornal, o Correio Paulistano, que era até dirigido por um dos irmãos do Ely Barbosa, era um jornalista, tem o Benedito Ruy Barbosa, irmão dele, mas esse outro irmão, que era jornalista, era outro irmão, fazia cobertura em termos de lei nacional, quase que diária. Em primeira página! Então foi um negócio meio efervescente, aquela campanha. Daí o Jânio renunciou e foi pra cucuia todo o sonho, e a lei também!

Zeca e Peteca - revista Bidu - editora Continental - 1961

W: Só pra terminar essa fase. Você começou a desenvolver alguns personagens que acabaram não saindo, nunca foram publicados. Você tem esse material ainda? 

Igayara: Não. Quando houve uma liquidação do material acervo da editora, muita gente soube e foi lá buscar o seu. Eu fui um dos que não souberam e não apareceram. Sei que tem muita gente e tal... O próprio Gedeone, pela exposição que eu vi em Jundiaí, botou originais meus dessa época, mas eu não tenho nada. Tem uma história em tirinhas do Peninha, mas nenhuma página inteira do Peninha, que foi o personagem que eu mais super produzi pra Continental naquele tempo. Não fiquei com nada... 

W: Mas nem revistas, assim no caso, você teria?

Igayara: Revista tenho um pouco mais do que isso que eu trouxe pra você, tenho um pacote. Se vasculhar bem talvez tenha até alguma coisa do terror que eu fiz, não tenho certeza.

W: Mas de material infantil você não teria todo o que você fez?

Igayara: Não tenho, não tenho material. Talvez o Gedeone tenha.

W: Mas o Gedeone começou a vender tudo...

Igayara: Ah, é? Eu soube que ele andou rifando muita coisa também. É uma pena, mas eu tenho pouco material dessa época. Eu não guardei, infelizmente. Não havia ainda aquele espírito de  conservação. Hoje todo desenhista zela pelo material. Ele tem obrigação ter o material retornado e deve ser a guarda dele. Nos Estados Unidos o comércio desse material é um negócio de altíssimo lucro. E ele vieram descobrir agora que eles podem vender uma tirinha por $200, o original, eles vendem os originais. Aquele Museu que tem lá ajuda o pessoal a comercializar isso. Tem um valor inestimável! Há grandes brigas na Marvel e na DC Comics pelo retorno do material. Às vezes a editora quer ficar com o material dos caras! 

W: Tem o Jack Kirby...

Igayara: Foi uma briga dessas, fantástica! Então, quer dizer, naquele tempo a gente não pensava muito nisso, que isso poderia ter um valor até histórico...

Igayara em Historinhas Semanais, editora Abril, 1962.

Worney: Na verdade, eu queria para finalizar essa parte dos quadrinhos da Outubro pra cá, você tem algum projeto, além da escola ou com a escola, tem algum projeto pra quadrinhos?

Igayara: Tenho, a escola não me absorve a semana inteira, me sobram alguns dias, a segunda-feira inteira, a terça de manhã, na quinta-feira de manhã e de tarde eu tô livre para minhas coisas, fora o fim de semana, eu tenho usado o fim de semana regularmente todos os meses, não é, também para fazer minhas minhas obras. Primeiro, que eu gosto de escrever continhos também, sou apaixonado por escrever continhos infantis, tenho lá duas dúzias prontos já, inéditos, que eu queria também ilustrar, estou esperando um tempo, que a feitura do material da escola me absorveu muito, então eu tô esperando um tempo, já tô começando, não só essa obra de livros e de quadrinhos também. Em quadrinhos eu tenho uma turma nova que questiona coisas bem atuais do universo da criança, até um robô pelo meio chamado Ovídeo, eu registrei em 1982, que o pessoal aqui gosta de desenhar. Ovídeo é uma unidade eletrônica, defende o mundo das máquinas e quer ser humano como as crianças, as crianças não suportam o Ovídeo, mas ele é todo poderoso, ele pode jogar bola melhor que os outros, ele é todo incrementado. 

Há um ser invisível, extraterreno, no meio, que foi localizado pelo próprio Ovídeo e há uma turminha, uma gama de garotos. Há a Luciana que estraçalha história, briga com o leitor, com o próprio escritor e diz: Nessa história de príncipe encantado eu não trabalho! E para duas páginas de braços cruzados e ela enrola a página de quadrinhos, chuta pra fora, e ela estraçalha tudo, e ela se mete muito com o Ovídeo e quebra tudo, só porque ela ela defende a vida livre. Apesar dela dela contestar muitas as histórias, mas o Ouvídeo diz que as máquinas vão dominar o mundo, e que todo mundo deveria estar assistindo televisão, vendo a novela e não vendo essas bobagens de livros. Através disso eu faço toda uma análise, e uma vivência, um troço bem humorado, a respeito desse universo de ocupação da criança, ou seja, o problema da literatura, o problema do avanço da televisão, dos meios eletrônicos etc, da criança como lazer... 

W: A Luciana, ela teria uns seis anos?

Igayara: Ela teria uns oito anos. Então, eu estou esperando criar esta turma, que chamaria Os Pererecas, provisoriamente, uma coisa bastante revolucionária... Bastante revolucionária é muita pretensão minha, deixa eu reformular, uma coisa um pouco original em termos de sair dessas histórias comuns.

W: Esse material você tá bolando ainda?

Igayara: Esse material tá todo estruturado, tenho 20 histórias escritas, prontas. Eu só sou um cara assim meio perfeccionista, lá em casa eles me chamam de "o rei do modelsheet", porque na hora que o negócio tá pronto,  já tenho as primeiras histórias executadas, eu cismo que alguma coisa não tá bem, então eu começo a fazer um novo modelsheet, altero a figura e tudo que eu fiz fica invalidado, então agora cheguei a um ponto, porque tendo a escola eu checo meu material, então há uma última versão dessa turminha com um design bem diferente, porque eu também fui um pouco preso à Disney, não esqueça disso, não é, então meu desenho tem aquela tendência extremamente redonda e tal, que agora eu consegui, nesse modelsheet, deixar de lado, não que seja ruim, mas eu não quero fazer daquela forma, eu quero um negócio um pouco mais um pouco macio, um pouco mais nervoso, pro lado um pouco de Stefi, você não conhece Stefi, da Grazia Nidasio, uma italiana? É um material fantástico, muito macio, muito legal, muito gostoso, muito movimentado. Eu quero ir um pouco por aí, um pouco, por exemplo, do lado de Calvin. 
Stefi, por Grazia Nidasio.

O Watterson quando fez Calvin eu me penitenciei, eu falei: Eu não desenho por vinte dias de castigo, porque eu sou um medíocre! Esse Calvin é a coisa que eu queria ter inventado na vida, no paralelo, porque ele é um pouco baseado em Schultz, você sente,  baseado um pouco em Walt Kelly, um dissidente Disney que fez o Pogo, uma obra fantástica, norte-americana, não apareceu muito no Brasil, só mais na Linus. Então o que houve, o Watterson baseado um nesses dois, criou um negócio fantástico, o universo daquele tigre inanimado e vivo na presença do garoto, e a piadas são de um nível espetacular. Eu morro de rir cada vez que releio o Calvin, então, eu queria fazer um material assim, nessa linha, que desse um impacto, que provocasse. Eu tô tentando isso, se vou conseguir não sei, mas eu não vou desistir nunca, vou correr atrás. 

Florisvaldo, o vagabundo, 1979.

Eu tô com isso e tenho Florisvaldo, que era aquele vagabundo, que era um pouco de contestação, que eu tô tentando retomar. Tenho os bichinhos, que eu gosto muito, eu tenho uma turma de bichinhos também, que é a Nina, Bonifácio, Felisberto, alguns que saíram em Recreio, em Alegria, é uma turminha que eu mantive e ampliei com alguns bichinhos nacionais, além da tartaruga, tem um tatu, tem uma capivara pelo meio, tem uns bichinhos brasileiros e está saindo um negocinho muito gostoso.

W: Agora a ideia de todo esse material é trabalhar... o Ovídeo você falou que fez em 82? Você chegou a publicar?

Igayara: Não cheguei a publicar, eu registrei lá na faculdade de belas-artes, me garanti por todos os lados, eu achava uma boa jogada como personagem, a turminha dele foi ficando muito gostosa, as histórias saem fácil, pela descrição da personalidade então, esse é um bom sintoma, você não sofre pra fazer uma história, sobram ideias. E o Ovídeo vai dar muito samba, porque ele é uma unidade toda poderosa, então, ele pode desligar semáforos, interferir em um computador, ele pode ser televisor e as crianças ficarem assistindo a ele próprio até a hora que quiserem, ele pode fazer lição pras crianças, claro, porque ele quer cativar por um lado, porque ele quer entrar no futebol, porque ele gosta de futebol, ele é apaixonado por uma das menininhas, veja, tem até essas incoerências assim. Quer dizer é um negócio absolutamente divertido, ele pode soltar raio laser, criar campo de força, gravitar, ele faz tudo!

Revista Crás - editora Abril - 1974

W: A ideia desse material é você trabalhar com o pessoal escola também? 

Igayara: Também com o pessoal da escola. Pegar uns assistentes e tocar o barco também com o pessoal da escola. A ideia é realmente essa.

W: É, porque, por exemplo, teve o material do César Sandoval. E a (editora) Globo arriscou e deu certo...

Igayara: Pois é, tem os monstrinhos dele, a Turma do Arrepio. Bem desenhadinho, muito bem feito por sinal!

W: O caminho podia ser esse também, trabalhar com a perspectiva de publicação desse material em uma revista própria...

Igayara: Exatamente, a minha ideia é essa! E que quando fala em revista própria, eu sou muito adepto também das revistas mistas, como têm os europeus, a Pilote, Circus, Corriere dei Piccolli, tem um monte! Que apresenta, de modo coerente, um extrato de histórias, universos compatíveis pra uma determinada faixa, e que apresentam histórias misturadas... alguns... como até os mais fortes, os Moebius da vida, publicam em capítulos depois reúnem em álbum, na Europa a jogada é feita mais ou menos assim, né, eu sou muito fã de revista, mas ninguém acreditou nesse tipo de revista neste país, nem consegui convencer Abril, e outro dia batendo um papo com um pessoal da Globo, também eles não tão Interessados em fazer revista mista, então, eu acho que só resta o caminho da revista individual e ela é mais difícil, porque daí ela tem que ter o peso realmente forte pra poder vingar.

W: Pra poder completar também com merchandising. Nada sai sem merchandising...

Igayara: É isso!


Igayara no tabloide O Governador, 1953.

2 comentários:

VELOSO disse...

Linda Entrevista muito bom saber um pouco mais sobre os nossos Mestres!

Peterson Jean disse...

Otimo