sábado, 16 de janeiro de 2016

José Menezes - Entrevista - 1978

Matéria/entrevista com o desenhista José Menezes produzida em 1978 pela distribuidora ECAB (Editora Carneiro Bastos) e que permaneceu inédita até os dias de hoje.


QUADRINHOS: PROBLEMA DE ARTISTAS NACIONAIS

O desenhista José Menezes disseca em entrevista a luta do artista nacional contra o “fantasma” que representa a importação de personagens do exterior. Sua ideia para a formação de um sindicato, a exemplo do que é feito na França, parece a solução ideal.

Reportagem de YVONNE AMORIM

O leitor pega na banca uma revista de histórias em quadrinhos e jamais imagina os processos por quais passou até que a publicação fosse elaborada e finalmente impressa.

O público conhece os herois e muito pouco dos herois autênticos, aqueles cuja cuca foi fundida para a criação das figuras tão populares como O Fantasma, Robin Hood, Mandrake ou Jim das Selvas.

Originalmente importados, principalmente dos Estados Unidos, os personagens em quadrinhos têm uma história curiosa que é aqui contada por um artista de inegáveis méritos – José Menezes. O desenhista experiente e de imaginação fértil, capaz de manter a qualidade do trabalho, sem a qual o leitor se desinteressa pelos personagens.

O ARTISTA E SUA VIDA

Com 40 anos de idade, José Menezes já fez de tudo diante de um cavalete. Na Rio Gráfica Editora, ao atrasarem os norte-americanos a remessa do Fantasma ou Jim das selvas, tinha ele que passar horas e horas criando e desenhando a sequencia das aventuras dos conhecidos personagens. Isto porque as revistas têm dias certos para circular e o capital empregado em publicações do gênero não comportam atrasos. Mesmo porque são aos milhares os compradores habituados a tal tipo de leitura e a aquisição de revistas, em dias certos, faz parte dos hábitos dos fregueses. Eles ficam aborrecidos se lhes falta aquilo que procuram e o editor corre o risco de ver seus leitores serem atraídos por outros personagens, de firmas concorrentes.
Disso tudo o ponto central é o artista, no Brasil muito mal remunerado.

HISTÓRIAS IMPORTADAS – HISTÓRIAS NACIONAIS

Há muitos anos tentam os autores brasileiros quebrar a resistência dos editores, lançando personagens genuinamente brasileiros, sobretudo de nosso folclore. Porém, destronar o mágico ou o Tio Patinhas, já impregnados no mercado graças à hábil divulgação, não é tarefa das mais fáceis. José Menezes no entanto obteve êxito ao criar para a SURSAN, do antigo estado da Guanabara, quadrinhos sobre um tema profundamente humano: as favelas.

As dificuldades de mercado no entanto, não podem ser atribuídas somente aos editores, os quais já tentaram vencer o problema. O leitor – este sim – não aceita em sua grande maioria os personagens legitimamente brasileiros. Aqui vai um exemplo dado por José Menezes. Suas declarações são textuais:
“Falarei de Kim e Águia Branca e vou referir-me a histórias nitidamente brasileiras. Trata-se de distribuição de material nacional, distribuído paa jornais e revistas brasileiras. O argumento de histórias brasileiras ainda é um problema difícil e isso nos leva à opção de ter que desenhar coisas semelhantes aos enlatados tradicionais, exatamente porque, o nosso leitor que, durante anos e anos foi habituado a ler e ver as escolas de herois de fora, não aceita de pronto uma ideia oposta ao tradicional. Seria bom que o leitor aceitasse melhor as nossas lendas e o nosso folclore, tão ricos e importantes. Há tempos criei para uma editora uma história quadrinizada sobre a invasão holandesa, onde eu focalizava a resistência do Forte de Rio Formoso por um grupo de 13 brasileiros, durante cinco horas, frente a 300 ou mais holandeses. Procurei, em meu argumento, ser o mais autêntico possível, inclusive estudando trajes, costumes e fatos. Para minha decepção, consideraram o assunto não comercial...

O que anima ultimamente é ter encontrado uma editora como a Carneiro Bastos, que edita, investe e lança produções gráficas nos moldes americanos tudo o que produzimos.
A Carneiro Bastos nos dá uma participação na base de percentual fixado em contrato, por cada venda de nossa produção, em relação às vendas para jornais e revistas do Brasil, com opção para o exterior. Isso é muito bom porque essa editora, lutando tremendamente há vários anos, está, aos poucos, vencendo a resistência das empresas jornalísticas, já tendo aberto brechas no exterior.

Infelizmente são poucas as empresas compreensivas. Elas não imaginam a importância não só intelectual da divulgação daquilo que é nosso. E, também é necessário, que entendam sobre o aspecto econômico em relação às divisas despendidas com tal comercialização.
Tenho sido convidado com frequencia para participar de debates sobre o quadrinho nacional e não nego que tem sido grande a minha decepção.

A SOLUÇÃO DO PROBLEMA

Perguntamos a José Menezes se existe solução para o problema. Eis o que nos afirmou:
“Acho que seria importante a criação de um sindicato, a exemplo do que é feito na frança. Ali os desenhistas revendem seus trabalhos para o Socerlit, que os distribui para toda a Europa. Se alguma história de fora é pretendida po um jornal ou revista francesa, o comprador é obrigado a adquirir um similar francês. É uma forma salutar de “dá cá e toma lá”. Ninguém fica perdendo. Ninguém fica de fora”. 

Com sua larga experiência, Menezes prossegue discorrendo sobre a luta que está desenvolvendo:
“Tenho muita vontade de produzir um livro sobre quadrinhos e a ideia nasceu quando iniciei minha coleção de originais de tirinhas. Minha correspondência com desenhistas de outros países e também com os nacionais. Esse trabalho de cooperação sobre os quais debatemos estilos, didáticas e problemas, não apenas nos aproxima, mas acaba por nos dar luz em busca de uma solução.
Moacyr Cirne, meu particular amigo, ao publicar seu livro “A Explosão Criativa dos Quadrinhos”, teve ás suas ordens todo o meu arquivo de gibis. De qualquer forma, é um passo à frente. Ainda não tenho, pelo menos de imediato, solução à vista”.

E AS COMPENSAÇÕES?

José Menezes é um lutador e suas palavras revelam a esperança de dias melhores. Isto ele revelou quando lhe perguntamos sobre as compensações da luta desenvolvida:
“Tenho tido momentos de compensação. Não direi que se trata de compensação material, mas o lado moral e espiritual. Isto a partir da edição de “Kung-Fu” para a Ebal. Passei a receber cartas; muitas cartas dos leitores, me incentivando. Isso é um conforto.

Meus colegas, argumentistas e desenhistas me apoiaram inteiramente.
Primaggio, (criador de Sacarrolha), Orestes Oliveira, também desenhista de “Kung-Fu”; Hélio do Soveral, argumentista e numerosos outros me apoiaram e incentivaram. Isto já representa alguma coisa”.


José Menezes em 1975 na revista Kung-Fu da editora Ebal.

E A LUTA PROSSEGUIRÁ

José Menezes reside em Petrópolis. Ali ele imagina e cria suas histórias, dando continuidade à vida do fantasma ou de qualquer outro personagem, desde que lhe seja encomendado. Se o escritor americano está de pileque e não entregou a história. Se o desenhista de Tio Sam não deu conta do recado, por qualquer motivo, dos quadrinhos de Jim da Selvas, menezes vai para o estúdio e um novo capítulo dentro em breve está nas bancas.

Ele é otimista, embora desapontado pela resistência às histórias nacionais. Para encerrar a presente entrevista, afirmou:
“Tenho de lutar e acho não estar muito longe uma vitória. Se nos arregimentarmos e, a exemplo do que fazem os franceses, nos unirmos, acredito ser possível atingir o objetivo. Porque, de uma coisa podem estar certos: a luta prosseguirá!”.

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